Enyde Moretti

enidy 002.jpgUma pessoa simples, mas que com garra e persistência alcançou seus objetivos e aos 70 anos ainda procura conquistar outras metas em sua vida. É assim que se pode definir essa paulistana que há 50 anos mora em São Vicente e ajudou a fundar a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) da Cidade. Enyde, que atualmente é presidente da associação, conta um pouco sobre sua história de vida.

A história de vida de Enyde Aparecida Domingues Moretti é um exemplo a ser seguido. De família simples, a presidente da APAE aprendeu logo cedo os valores da vida e aprendeu que a honestidade é o maior trunfo que o ser humano pode ter nessa vida.
Como profissional, Enyde atuou como professora em São Vicente. Se formou em Assistente Social em Santos e foi a partir daí que sentiu a falta de uma APAE em São Vicente. Após uma conversa informal com pessoas ligadas a um hospital de São Paulo, Enyde se engajou na luta para construir uma sede da associação na Cidade. De lá para cá foram 18 anos de lutas e conquistas. Seu principal projeto agora é a construção do Residencial APAE.
Desde os 20 anos morando em São Vicente, Enyde revela um pouco do seu lado familiar, do relacionamento com seu marido filhas e netas. Conta também sobre a força de vontade em viver e prova que a juventude não é um período da vida e sim um estado de espírito. Leia a entrevista concedida na sede da APAE São Vicente.
Jornal Vicentino - Onde a senhora nasceu? E quais lembranças tem de sua infância?
Enyde Moretti
- Sou paulistana, nasci em São Paulo. Com um ano de idade fui para Mogi das Cruzes, porque minha família é radicada lá. Então minha infância e juventude foi em Mogi das Cruzes. Na minha época a infância era ótima. Morávamos na casa de minha avó, que era imensa. Tinha tudo quanto era árvores frutífera, toda essa infância feliz de subir em árvore. Tinha um irmão mais velho, então a gente queria acompanha-lo, era na bolinha de gude. Tudo isso passou, além das bonecas. Foi uma infância muito feliz.
JV - A senhora estudou em Mogi das Cruzes. Qual sua formação?
Enyde
- Fiz o primário, ginasial e fiz o magistério. Me formei lá em Mogi das Cruzes, estou fazendo esse ano 50 anos de formado. Fiz o magistério e depois casei e escolhemos São Vicente para morar.
JV - Como a senhora conheceu seu marido?
Enyde
- Ele tinha família também lá. Tinha uma tia que morava em Mogi das Cruzes. Ele ia muito para lá, a gente se conheceu no jardim. Naquela época os moços andavam de um lado e as moças ao contrário. Aí começamos a namorar e casamos em 1959. Em 1958 já vim para São Vicente, por que tinha uma vaga para professora e aí casamos em janeiro de 1959 e moramos em São Vicente até hoje.
JV - A senhora se adaptou bem a São Vicente?
Enyde
- Adoro São Vicente, é como se eu tivesse nascido aqui. Criei minhas filhas, estudaram aqui e meu marido adora São Vicente, ele nunca quis sair daqui. Quando cheguei aqui, em 1958, ainda os bois corriam pela praça. Embora fosse do interior eu tinha medo. Em São Vicente eram todos amigos, conheci as famílias tradicionais de São Vicente. Hoje a Cidade progrediu, está diferente, mas eu acho que ainda existe um pouco de São Vicente antigo. O amor que a gente tem é o mesmo. E eu não sou vicentina, mas é como se eu fosse. A minha vida inteira, praticamente, eu passei aqui, porque passei 20 anos em Mogi e o restante aqui e hoje estou com 70, então são 50 anos em São Vicente.
JV - Quantos filhos a senhora tem?
Enyde
- Tenho duas filhas e elas nasceram em Santos na Santa Casa. Uma nasceu em 1960 e outra em 1961. Hoje tenho três netas, só mulheres na família. A minha família da minha mãe era mais mulher, do meu pai também. Nós temos muito mais mulheres na família do que homem.
JV - Quando surgiu o interesse pelo trabalho voluntário?
Enyde
- Me formei em Assistente Social pela UniSantos, já tinha 40 anos e já trabalhava na prefeitura de São Vicente. Fui professora, assistente de direção e fui auxiliar de supervisora de alimentação escolar aí fiz a faculdade de Serviço Social. Depois passei para o setor de Serviço Social, hoje é secretaria. Trabalhando como assistente social você começa a conhecer as dificuldades e você tenta auxiliar da maneira que você pode. Surgiu na época da administração do prefeito Sebastião Ribeiro da Silva eu fui a chefe de um setor do serviço social. Lá deparei nessa dificuldade que nós tínhamos de a partir dos 14 anos a pessoa portadora de deficiência ela não tinha uma escola em São Vicente. Os dois colégios (Henrique Oswald e Pitágoras) atendiam somente até os 14 e a preocupação foi nesse sentido.
JV - Como aconteceu a implantação da APAE em São Vicente?
Enyde
- Nós convidamos duas pessoas do Hospital Antonio Prudente de São Paulo, para que fizessem uma palestra aqui a respeito do câncer de mama na periferia. Conversando com uma delas surgiu o assunto. Ela me disse: “Porque você não funda uma APAE?” Eu falei: “Imagina que eu sou capaz de fundar um APAE. Eu não sei fazer isso.” Mas ela me disse que colocaria uma pessoa que iria ensinar a fazer isso. Fiquei meio preocupada, mas dois dias depois chegou um envelope endereçado a mim. Maria Amélia Vampré, essa senhora tinha um filho deficiente e era da APAE de São Paulo. Me mandou todo o material para que eu pudesse fundar uma APAE. A convidei para dar uma palestra e no meio da palestra ela falou que eu queria fundar uma APAE. Aí já foi um compromisso, praticamente. Os professores e os diretores disseram que ajudariam, então aquilo foi incentivando. Convidei alguns amigos, tinha a psicóloga que trabalhava conosco e tínhamos também ligação com a creche Vovó Libânia, com o presidente da época. Isso foi final de 1987, fomos trabalhando entrou 1988 e cada um trouxe algumas pessoas para participar da primeira reunião. Explicamos o que era uma APAE e a partir daí convidamos as pessoas e em março de 1988 um grupo fundou a APAE.
JV - A senhora sofreu algum tipo de preconceito por ser mulher e estar a frente de um projeto social tão importante?
Enyde
- Não, nunca sofri preconceito. Existe muito respeito, principalmente aqui dentro da APAE. A gente não vê aqui se é homem ou mulher. Claro que existe mais facilidade para nós. Como assistente social existe todo um método toda uma forma de abordagem, algumas entende outras são mais existentes. A responsabilidade de um cargo, não importa ser homem ou mulher, é muito importante. Você é responsável por tudo que acontece, se a entidade vai bem ótimo, se ela tem um deslize você é responsável por isso. Vejo um grupo muito bom, me ajudando muito porque todos são APAE. São pessoas que somam realmente.
JV - Durante esses 18 anos de existência, qual foi a passagem mais significativa na sua vida estando sempre envolvida com associação?
Enyde
- Nessa trajetória tem uma passagem negativa e uma positiva. A negativa primeiro, foi quando, na administração Luca, tiraram o teste do pezinho da APAE eu senti muito, até hoje eu sinto isso. O carro chefe de uma APAE é o teste do pézinho, então você outras APAEs do interior tendo o próprio laboratório. Nós tínhamos o laboratório e mandávamos para São Paulo. Não consegui reverter isso e até hoje eu sinto. O lado positivo são as crianças que me emocionam todos os dias, elas tem um carinho especial por todos nós. Esse lado positivo é todos os dias. Quando entro aqui é como você entrasse em um local que você é feliz, com todas as dificuldades financeiras que a presidente tem que pensar, aqui todos se dedicam e isso é o lado positivo.
JV - Como a senhora conciliou e concilia o trabalho na APAE com a família?
Enyde
- Tenho uma filha médica, casada com três filhas, que mora em São Paulo. Para mim facilita um pouco, porque se morassem aqui seria um pouco difícil. Aqui sou eu, marido e a filha. Ela tem 40 anos e está bem, é artista plástica. A casa é grande mas a família está pequena agora. A gente concilia bem, meu marido me entende. Ele me acompanha de vez em quando, mas ele nunca me podou naquilo que eu quero fazer. Isso já é um ponto positivo no relacionamento de um casal. Tenho a minha individualidade e ele tem a dele. No lado familiar nós estamos sempre juntos, agora o lado social, vamos dizer assim, eu tenho o meu e ele tem o dele. É uma filha excelente, muito amorosa e entende bem que eu adoro isso aqui (APAE). Na hora do almoço e no jantar estamos sempre juntos e aí é que a gente conversa sobre o dia a dia. A filha de São Paulo que reclama um pouco porque eu fico muito na APAE.
JV - A senhora cursou a faculdade da terceira idade. O que representou para senhora?
Enyde
- Acho que todos que atingem os 50 anos deveriam fazer. Além da reciclagem, é um outro lado da sua vida e você vai começar a se conhecer mais profundamente. Você tem teatro, dança de palco, de salão e isso para nós é uma forma de se expandir e de continuar participando da vida. As vezes as pessoas entendem que você chega a uma certa idade criando os netos e você não tem vida própria. Que você não possa mais andar muito, mas você tem aquelas recordações muito boas da sua vida. Isso é importante. Eu tenho muitas recordações boas. Tudo que você passa de ruim na vida, você tem que esquecer. Lembrar das coisas boas, porque isso ajuda você a viver melhor.
JV - Este ano o tema da Campanha da Fraternidade foi: “Fraternidade e Pessoas com Deficiência. Qual a importância de campanhas desse tipo?
Enyde
- Ela é importantíssima no Brasil todo. Nós participamos na missa que nós pedimos para o padre Feliciano, na Igreja Nossa Senhora das Graças, fizemos a missa comunitária e no final nos deu a chance de falar sobre a APAE e a Campanha da Fraternidade. Acho que esse ano é muito feliz, porque na verdade a gente precisa acabar com o preconceito. Precisamos dar chance para a pessoa portadora de deficiência. Existe a inclusão, mas na verdade na prática é difícil. De 158 alunos acima de 14 que nós temos aqui, apenas três estão trabalhando.
JV - A Federação das APAEs também realizou a campanha APAE em Ação. O que a senhora achou da primeira campanha nacional realizada pela APAE?
Enyde
- Foi uma campanha grande através da Federação Nacional e a APAE de São Paulo. Foi ótima, a APAE se projetou no Brasil todo. Nós vimos através da TV Bandeirantes, APAEs grandes. Mas existem também as APAEs pequenas que lutam com uma dificuldade muito grande e que precisam dessa ajuda. Fui a uma reunião com presidentes de APAEs e fiz uma colocação que os presidentes concordaram. O que aconteceu foi que não houve um esclarecimento dizendo que quem ligasse do município cairia na APAE do município. Mas foi uma campanha ótima, foi a primeira e sempre tem a melhorar. Tem falhas, mas acho que teve o lado grandioso que foi o Brasil todo e a APAE se tornou conhecida.
JV - A mais recente conquista da APAE de São Vicente foi a conclusão da construção da Escola de Educação Especial. Quais seus projetos para o futuro?
Enyde
- É o Residencial APAE. Agora vamos pensar nisso, compramos o terreno, temos que pagar ainda. O voluntariado, temos mais ou menos 40 voluntários. Esse voluntariado está junto, temos bastante eventos que nós temos que pagar mesmo. O objetivo do residencial é para aqueles alunos, ou mesmo outras pessoas que precisem ficar. Porque os pais falecem, os irmão não tem tempo, ou não tem irmãos e ficam sós, isso é uma forma que a gente está se preocupando e assim não. A gente já pode ter uma esperança de acolher essas pessoas.

Uma resposta para 'Enyde Moretti'

  1. SEBASTIÃO MORETTI FILHO Diz:

    Lendo esta reportagem, percebo o qto me alegra c/ estas notícias. Nos mostra q/ qdo as coisas feitas c/ amor no coração, Deus nos impulciona. Todo este trabalho de uma mulher guerreira, nos mostra e nos motiva a trabalhar. É neste exemplo q/ devemos espelhar. Isto nos mostra q/ o Brasil e nosso mundo tem jeito.
    Parabéns.
    SEBASTIÃO MORETTI FILHO

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