Armando Gomes

armandogomes.jpgHoje reconhecido como um profissional bem sucedido no rádio e na televisão, o apresentador do programa de mesa-redonda da TV Santa Cecília,  Esporte por Esporte, viveu uma infância com poucas posses financeiras.  Estudou em um colégio de formação religiosa, concluiu a faculdade de Educação Física e trabalhou como
professor, contudo, deixou essa carreira e entregou-se a sua grande paixão, o rádio…

Muitos o descrevem como polêmico e  ra-dical, mas o apresentador do programa Esporte por Esporte, que também atua na Rádio Atlântica e ainda é o presidente da Associação dos Cronistas Esportivos de Santos (Acesan),  Armando Gomes, mostra-se na verdade uma pessoa sensível e emotiva.
Convicto de suas opiniões, Armando é destemido, e simplesmente as expõe sem se preocupar com suas consequências. Profissional transparente, o apresentador e radialista não esconde de ninguém sua paixão pelo time da Vila Belmiro.
Definindo-se como radialista nato, ele conta um pouco de sua história de vida, referindo-se à infância, à família, aos colegas de trabalho, ao desenvolvimento da carreira e a alguns episódios que ocorreram em sua vida. Acompanhe a entrevista exclusiva do apresentador Armando Gomes e algumas de suas opiniões:
Jornal Vicentino - Onde o senhor nasceu e estudou durante a infância?
Armando Gomes
- Nasci na Rua Amador Bueno, 352, no Centro de Santos. Estudei no Colégio Santista e minha formação é toda ela católica, toda religiosa. Fui criado no Colégio Santista. Lá, fiz o ginásio e depois o curso científico. Posteriormente fui fazer medicina e tomei “bomba”, não passei. Entendi que o meu negócio não era ser médico realmente. Depois, fiz a faculdade de Educação Física, há trinta anos. Fui da segunda turma da Fefis, na Rua Jurubatuba, 90, no campo do Brasil. Cursei com Pelé, Fedato, Ubiratan, a Simone (cantora) e outras grande figuras. Não digo que minha infância foi sofrida, mas foi uma infância pobre, pois meus pais nunca tiveram dinheiro e eu não tinha muitas regalias. Fui ganhar uma bicicleta quando já tinha 17 anos e hoje se ganha uma bicicleta com três anos de idade! Mas apesar disso foi uma infância bem vivida, sempre fui muito mimado, porque era filho único, mas posse financeira não tinha nenhuma.
JV - Após concluir a faculdade de Educação Física o senhor chegou a exercer a profissão?
AG
- Exerci. O primeiro emprego como professor foi no Liceu São Paulo. Também dei aula no Rui Barbosa, dei aula para as crianças especiais da Apae. Fiz um trabalho muito bonito lá, só que não dava mais para continuar. Professor ganha demais, professor ganha muito (ironiza), acabei me dedicando a rádio, jornal e TV.
JV - Como conheceu o rádio?
AG
- Sou filho único e quando minha mãe estava grávida de três meses foi fazer um programa chamado ‘Um Romance para Você’. Então eu freqüento rádio antes de nascer! Tenho 61 de idade e 62 de rádio! Essa é uma verdade. Então a minha profissão é radialista nata. Sou do rádio mesmo, e nasci e fui criado no meio radiofônico. Ninguém me ensinou a fazer microfone, a radiar futebol, a apresentar programa, fazer reportagem ou entrevistar, porque isso é inerente, é um negócio chamado dote vocacional e eu sempre tive essa vocação pelo rádio.
JV - O senhor esteve envolvido com rádio desde o nascimento, mas quando iniciou o trabalho no meio radiofônico?
AG
- O início para valer foi em 1962. Eu tinha 18 anos de idade, mas antes eu já convivia, já fazia pontas de novela em ‘Um Romance para Você’. Entretanto, em 62 eu fiz parte de uma equipe da Rádio Clube, que tinha Walter Dias, que está vivo até hoje; Aldo do Santos, que também está vivo; e outros já falecidos, como Vieira da Cunha, Norberto Pereira. Mas era uma grande equipe em 62, pouco antes da Copa do Mundo no Chile, quando o Brasil foi campeão pela segunda vez.
JV - A partir desse momento como foi a trajetória no rádio?
AG
- Fiquei ali de 62 há 65, quando fui para a Rádio Atlântica, convidado pelo Ernani Franco. Lá, fiquei muito tempo, foi meu grande aprendizado com o professor Ernani Franco. Depois fui para a Rádio Cacique, onde fiquei muito tempo e aí voltei para Atlântica, quando ele me chamou de volta. Posteriormente trabalhei na Guarujá, na Cultura, e em todas as emissoras de Santos, indistintamente todas, sem exceção. Toda regra tem exceção, mas essa é uma regra sem exceção. E fiz futebol em FM, coisa que poucos fizeram. Fiz na FM Santa Cecília, na Rádio Litoral, essas foram FMs que fiz futebol. Também coordenei a equipe de esportes da Cacique, coordenei a equipe de esportes da Clube, estive na Tribuna, quando a rádio Atlântica pertencia A Tribuna. A medida que fui ganhando tempo, traquejo, tarimba, fui progredindo normalmente até que veio o convite para ir para São Paulo. O convite veio do Beirão de Castro, o meu chefe era o Roberto Petre, que está vivo até hoje, graças as Deus, e fiquei seis anos e meio na Gazeta. Não agüentava mais, pegar metrô e ônibus todo dia estava me cansando. Ai me demiti da Gazeta, me arrependi, mas não agüentava mais. No dia 31 de dezembro, todo mundo em casa se abraçando com a família, e eu no meio da Avenida Paulista aguardando o corredor da São Silvestre. Eu sou muito família. Não me separo da minha família, dos meus amigos, da minha cidade, dos meus costumes, dos meus hábitos, das minhas freqüências, enfim, sou muito tradicional, muito conservador. Talvez seja até errado, mas eu sou.
JV - Como foi a reação da família quando o senhor optou pela área do jornalismo após cursar a faculdade de Educação Física?
AG
- Se dependesse do meu pai… Ele nunca quis, sempre desejou que fizesse a faculdade e fosse estudar. Ele achava que rádio não dava camisa para ninguém, que rádio era uma besteira, me criticou muito, mas eu tinha isso no sangue, esse instinto vocacional, essa veia, e acabei enveredando pelo caminho que eu achava que era meu, que era minha vocação. Já a família da minha mãe aceitou, até porque minha mãe era radialista. Mas prevaleceu minha vontade, até porque já tinha 18 anos, já estava ficando maiorzinho, ai já tive minhas definições próprias.
JV - Depois de estruturar uma carreira  no rádio, como foi o ingresso na televisão?
AG
- Comecei na televisão na TV Gazeta, há mais ou menos 25 ou 26 anos. Eu tenho quarenta e poucos anos de rádio e vinte e cinco de TV. Foi uma ascensão normal. Eu fiz tevê na Gazeta e tenho até hoje os tapes guardados com muito carinho. Eu dei sorte porque passei por grandes mestres. Trabalhei com Beirão de Castro, Edson Leite, José Italiano, Geraldo José de Almeida, com Geraldo Bretas, fiz mesa redonda com Bretas, com Jota Júnior, que hoje está no Sportv, eram todos nomes consagrados, então só podia aprender. É bom ser uma figura ínfima no meio dos cobras, pois quando esses cobras param a tendência é você assimilar o que eles fizeram de bom. Esses nomes me ensinaram muita coisa. Até hoje muitas coisas que faço aprendi com eles.
JV - Depois de anos trabalhando no rádio e na televisão o senhor observa uma rotina muito diferente nesses dois veículos?
AG
- É bem diferente. A televisão é uma seqüência do rádio. Todos que fizeram rádio bem feito, sem ser aqueles pára-quedistas, porque hoje tem muito pára-quedista que quer fazer mas não tem vocação, não tem capacidade. Eu tentei ser médico e fui reprovado, só que desisti, minha vocação não era ser médico. Hoje em dia existem pessoas que não tem vocação, mas insistem. O rádio é um aprendizado para televisão. Muita coisa que faço hoje na televisão aprendi no rádio. O improviso, a discussão pública, a manutenção de um ponto de vista, tudo isso vem do rádio e é diferente, porque a imagem é memorizada. Se cometer um erro no rádio é uma coisa, na televisão é outra. No rádio te ouviram, na televisão te ouviram e te viram, então se memoriza muito mais. O rádio é um tiro de escopeta enquanto a televisão é um tiro de canhão! Mas eu não abandono o rádio, faço rádio até hoje. Tenho um programa na Rádio Atlântica todo dia, das 13 às 14 horas. O programa é em rede com a Rádio ABC de Santo André, e vai para Santo André, São Caetano, São Bernardo, Diadema, Taboão da Serra, Caieiras, Embú, Osasco, fora a Baixada Santista. Não abandono o rádio por causa disso. Se tivesse que optar por um ou por outro, ficaria com o rádio.
JV - O senhor trabalha em uma emissora cujo proprietário é também o atual presidente do Santos. Existe liberdade para atuar no programa?
AG
- Total. Eu juraria até pela minha dignidade de homem, pela minha honra, se é que tenho honra, que nunca na minha vida eu fui aconselhado ou cobrado pelo Marcelo para falar bem ou mal de quem quer que seja. Tenho toda liberdade do mundo. Agora, aqui no Brasil, principalmente em Santos, falam isso de forma depreciativa, de forma degenerativa. Eu estive no México, no Japão, na Arábia, na Europa, nos Estados Unidos por três vezes, e nunca vi por exemplo, alguém no México dizer  que o presidente do América do México é dono da Televisa. Aqui no Brasil falam que a emissora é do presidente. Lá no México, quando se critica ou elogia o América na Televisa ninguém fala que é a emissora do presidente. Nunca vi, por exemplo, o jornal fazer um editorial do PMDB e dizerem que esse é o jornal do Orestes Quércia. Mas quando chega no presidente do Santos as pessoas tem essa mania. O presidente do Santos é um dos homens mais honrados que conheci nos meus 61 anos de idade. O dia que eu quiser sair da TV Santa Cecília eu pego meus anunciantes todos, e não são poucos, e vou fazer meu programa em outra emissora. Tenho convite de outra emissora, juro pelo meu neto, que é quem mais adoro na minha vida, que tenho o convite, mas não vou até para não magoar o Marcelo. Mas o dia que quiser ir eu vou, pois não dependo do Marcelo e ele não depende de mim. Há uma amizade franca, pura, aberta, sincera, leal entre eu e ele, e as pessoas não entendem assim, pensam que eu preciso dele ou que ele precisa de mim, quando na realidade não é verdade nem uma nem outra.
JV - Apesar do senhor declarar que gostaria de já ter se  aposentado e parado de trabalhar no jornalismo, a profissão lhe fez feliz até hoje?
AG
- Me fez muito feliz. Me fez feliz, pois consegui aquilo que queria, consegui sustentar minha família, comprar meu sítio, a minha casa, então me considero muito feliz. Tive algumas decepções, mas prefiro não citar. Tive muitas decepções com amigos, traições, porque você nunca é traído por inimigo, são sempre amigos. Eu já fui traído por alguns amigos e foram decepções.
JV - Como é a convivência com a equipe de trabalho?
AG
- Ótima. São meus irmãos, meus amigos. Saímos quando o programa acaba, por volta da  meia-noite e meia, e vamos comer pizza. Vamos todos. Todo santo dia eles vão comer pizza comigo. Isso é uma forma de arregimentar, de agregar, de somar e trazer as pessoas para dentro de você, essas pessoas todas estão no meu coração. Fiz muitos amigos trabalhando. Inclusive, gostaria de lembrar de um grande amigo que eu fiz há quinze anos, quando ainda na TV Litoral. Tenho muita saudade do Rochinha. Ele era um amigo que telefonava sempre e me dava conselhos. Quando peguei uma broncopneumonia, há seis anos, ele me ligava todo dia. Ele realmente se preocupava comigo e era um amigo. Ele falava o que tinha vontade de falar assim com o meu estilo.
JV - Muitas pessoas descrevem o senhor como uma pessoa polêmica. Qual sua opinião quanto a isso?
AG
- Todo mundo diz isso. Eu não concordo muito. Sou um cara de opinião. Tenho opinião e coloco a minha opinião, ao contrário das pessoas que tem medo de opinar. O Brasil é carente de opinião. Você precisa de opinião sobre o ‘mensalão’, você precisa de opinião sobre a venda do Robinho, precisa de opinião sobre a taxa de juros enorme que o Brasil tem, que é a terceira do mundo, tudo na vida quer uma opinião. Se você só informar não basta, tem que informar e opinar. Existem três tipos de jornalismo: o jornalismo investigativo, o jornalismo informativo e o jornalismo opinativo. Eu pratico os três. Investigo, informo e opino. Isso gera realmente alguns pontos de vista em contrário. Já tive 14 processos por opinar e nunca fui condenado, porque nunca tentei atacar a honra de ninguém, nunca ataquei a moral de ninguém, mas me processam porque processar o Armando Gomes, hoje em dia, parece que é uma ‘teta’. Por isso, sou incrédulo com a justiça, que não te dá o direito de processar essas pessoas por terem te processado sem razão.
JV - Qual o sentimento do senhor com relação ao Santos Futebol Clube?
AG
- Sempre foi o meu time de coração. Eu nunca neguei que sou Santos, nunca neguei que torço para o Santos, nunca neguei que o Santos é minha própria vida. Sou sócio do Santos desde 1952. Nunca neguei esse sentimento. Vou negar por quê? Sou Santos, adoro o Santos e o Santos é minha segunda vida. Agora eu fico louco com os idiotas que torcem para um time de futebol e dizem que são neutros. Todos tem o seu time de coração. Entretanto, alguns dizem que não, mas é mentira. Todo jornalista torce para um time. Aquele que fala que não torce é mentira. O que não pode é distorcer. É como aquela frase “não se pode fazer justiça com as próprias mãos”, pode sim , não pode é fazer injustiça com as próprias mãos. O sujeito pode ser jornalista, locutor, comentarista, repórter, editor, programador, diagramador, ou seja, o que for do jornal, da TV ou da rádio e pode torcer. Agora, no momento que ele opina e escreve, ele não pode distorcer.
JV - Quanto ao episódio do Robinho. O que aconteceu?
AG
- Eu fiz algumas críticas a ele dizendo que ele havia sido ingrato com o Santos. Mandei colocar aquele disco “adeus ingrata, adeus ingrata” (cantando). Quando a mãe dele foi seqüestrada o Santos ficou pagando ele, dando apoio para ele, ofereceu advogado para ele, e não bastasse isso, quando ele teve outros problemas- outros problemas, entendam como quiser- o Santos continuou apoiando, então ele foi ingrato. O que aconteceu? Aconteceu que a namorada dele e o pai dela ligaram para Alemanha e falaram o que eu estava dizendo no programa. Aí ele me ligou no meu celular e disse: “Cuidado com o que tu fala aí. Toma cuidado que quando chegar no Brasil eu vou te procurar, ou eu vou na tua casa ou vou na TV”. Como eu sei que foi o sogro que falou eu peguei e comecei a falar, olha o Robinho vai para Espanha, mas ele vai solteiro, vai casar com uma espanhola lá. Sabe o que aconteceu? Recebi um processo. Um dos quatorze. Mas por quê? O que eu falei? O que ele quer? Eu falei que o Robinho vai solteiro e ele já entendeu que eu falando isso é porque não vai casar com a filha dele. E me processou, mas não vai dar em nada, porque eu nunca citei o nome dele, nem sabia seu nome. Só falei que ele ia solteiro, como acho até agora que vai. Só que quando a mãe e o pai do Robinho, quiseram meter o pau no Aloísio Guerreiro foram lá no meu programa. Ela, dona Marina, ele, seu Gilvan, mais o Wagner Ribeiro, foram os três, falaram durante quarenta minutos, usaram dois blocos do programa, falaram o que bem entenderam e agora se voltaram contra mim. É assim na Baixada Santista: quando você está na cartilha de alguém você é bom, quando faz uma crítica para essa pessoa você passa ser ruim.

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