João Leonardo Mele

comandantemele2.jpgCinquenta anos, Coronel da Polícia Militar, um dos mais conceituados profissionais de fiscalização ambiental do país. Este paulistano diz que sua segunda cidadania é a de São Vicente, tamanha relação e amor pela cidade. Adorador da Baixada Santista, de suas belezas e de sua população receptiva, sempre ativa e de bem com a vida, este Coronel já ministrou palestras por todo o Brasil e participou de cursos no Japão, na França, na Espanha e nos Estados Unidos. Hoje, ele é o atual Comandante do Policiamento da Baixada Santista e do Vale do Ribeira e pretende continuar seu trabalho neste ambiente litorâneo que tanto gosta. Ele só guarda boas lembranças de São Vicente e da região e, por isso, zela tanto pela segurança da baixada.Sua história tem origem em uma infância simples em São Paulo até que hoje ele é um Coronel conceituado, respeitado e tido como um dos melhores do Brasil. João Leonardo Mele, em entrevista exclusiva ao JV, demonstrou toda a sua ligação com a cidade de São Vicente, na qual ele afirma ter passado um dos melhores momentos de sua vida e carreira.
Da época em que trabalhou na Polícia de Choque restam apenas lembranças. Depois, ele conta que se especializou na área de fiscalização ambiental, que o levou até o Comando Geral da Polícia Militar do Estado. Pouco? Isso sem falar no intercâmbio feito com a polícia de outros países. Destacando sempre a importância da família para seu sucesso e seu gosto pela Baixada Santista, Coronel Mele conta toda sua história de vida para o JV, que o homenageia como Personalidade desta edição.
JV- Qual foi a sua formação escolar em São Paulo?
Cel. Mele
- Tive a formação normal. Naquela época as escolas públicas eram muito boas. Éramos uma família simples, muito simples e não tínhamos maiores posses, mas víviamos normalmente. Estudei na escola Plínio Barreto, na Mooca, e até então, no final da década de 60 e início de 70, eu nunca tinha atentado para qualquer profissão, mas o problema da sociedade daquela época não era encaixar um filho em um emprego, como é hoje.  O difícil era fazer seu filho ter o ensino superior completo.
JV- Como surgiu a idéia de fazer a Academia Militar?
Mele
- Certa vez, quando estava terminando o ginásio, uma senhora conversando com a minha mãe perguntou por que eu não fazia o exame da Academia Militar. Eu nunca tinha tido idéia do que isso era e eu e minha família procuramos nos informar sobre isso. Dessa forma, fui fazer o vestibular para a academia mesmo sem ter uma profunda noção do que era a instituição. Graças a Deus nessa primeira oportunidade eu passei no vestibular.
JV- Terminada a Academia Militar, onde o senhor inicou sua carreira?
Mele
- Em 1975, formei-me aspirante e quando terminei a Academia fui trabalhar na Polícia de Choque e em um serviço chamado Rondas Especiais Integradas, que se fazia conjuntamente com o serviço de rota, na época. Assim, meu início de carreira foi direcionado a essas unidades mais fortes da Capital. Depois eu trabalhei no Serviço Reservado da Polícia, que é a atual Corregedoria.
JV- Quando o senhor veio trabalhar na Baixada Santista? Algum motivo especial o trouxe para a região?
Mele
- No início da década de 80 eu e minha esposa (Mele casou-se em 1978) decidimos experimentar um outro lugar para viver e para trabalhar. A região eleita foi a Baixada Santista, porque nós tínhamos muita identidade com a região e eu gostava muito de pescar, tanto que participava de um clube de pesca em São Paulo. A gente gostava muito de locais de praia, então fizemos a experiência de vir para cá. Quando viémos à Baixada nós não tínhamos estrutura alguma aqui. Trouxemos uma mala com roupas, dois colchonetes de acampamento e começamos a nossa vida na região em um quitenete.
JV- A sua primeira impressão da Baixada Santista foi boa?
Mele
- Na Baixada Santista eu fui designado para trabalhar no 6º Batalhão, em Santos, e fui recebido pelo Coronel Barreto, que foi uma pessoa que me recebeu de uma maneira muito gentil, muito cortês, praticamente tratando a mim e a minha esposa como seus filhos. Fomos tomando contato com o pessoal da Baixada Santista e percebendo esta sociedade muito receptiva, atuante, ativa, participativa que existe aqui. A primeira impressão da região, para nós, foi um choque, porque vivíamos em São Paulo, uma cidade muita fria, sistêmica, onde você levanta para trabalhar, trabalha o dia inteiro e volta para casa. Mas quando nós chegamos aqui, já nos primeiros dias, tomamos conhecimento de uma Associação de Amigos da Polícia Militar, que estava promovendo um evento. Assim percebemos o quanto a sociedade da região era próxima da polícia e ficamos maravilhados com esta diferença da Capital. Então, em termos de qualidade de vida houve um ganho muito grande, pelo próprio local, pelas belezas e por ficarmos trabalhando aqui no 6º Batalhão, em Santos.
JV- Depois de trabalhar em Santos o senhor iniciou sua história na Polícia Florestal.
Mele
- Exato. Após um ano e meio, cerca de dois anos depois de minha chegada a Santos, surgiu o primeiro convite para trabalhar na Polícia Florestal. Aceitei o convite e isso foi uma grande mudança na minha carreira. Passei a me especializar nessa área da polícia e servi 13 anos ininterruptos na Polícia Florestal (atual Polícia Ambiental).
JV- Como era o trabalho na Polícia Florestal?
Mele
- O trabalho era fascinante, porque trabalhávamos tanto as questões de segurança pública quanto as questões de proteção do meio ambiente. A dificuldade ainda foi maior porque na década de 80 as questões ambientais ainda engatinhavam, tinham as primeira legislações, tudo isso estava apenas começando. Para se ter uma idéia, naquela década, no Vale do Ribeira, tinham mais de 30 serrarias cortando vegetações nativas e quanto deixei o comando da região, depois de nove anos, não havia mais nenhuma serraria e nunca mais teve.
JV- Tantos anos de trabalho na área devem ter rendidos boas histórias. Existiu alguma grande apreensão feita pelo senhor nessa época?
Mele
- Claro. A área da pesca também era uma área muito crítica e chegamos a ter apreensões de pescado, fruto de ações clandestinas, superior a 400 toneladas em um dia! Imagine só apreender 400 mil quilos de peixe em um único dia. É difícil fazer isso desde pensar a logística para se apreender até o local para destinar o material.
JV- De que forma surgiu o convite para trabalhar em São Vicente?
Mele
- Em 1996, fui trabalhar na Polícia Ambiental da Capital como chefe de operações de todo o Estado. O retorno a São Paulo também foi uma experiência muito boa, muito gratificante. Nesse período aconteceu um fato bastante pitoresco. Veio comandar essa região o Coronel Almeida, que eu já conhecia de São Paulo. Ele pediu a um oficial da Baixada para manter contato comigo e foi muito interessante porque o oficial, certa vez, disse-me: ‘Olha Mele, nós sabemos que você não aceitará, mas o Comandante pediu para te fazer o convite para você retornar à região.’ Como eu estava em um momento da minha vida em que meus filhos estavam em fase de crescimento, respondi que estava pensando na idéia, mas quis saber qual cargo estava em aberto. Descobri que era a vaga de sub-comandante do Batalhão de São Vicente. Aí eu aceitei o convite e comecei uma fase muito boa da minha vida.
JV- Como foi sua história no Batalhão de São Vicente?
Mele
- Em São Vicente o comandante era o Coronel Jairo e começamos a fazer um trabalho muito significativo e poucos meses depois, e talvez até um pouco prematuramente, fui promovido a Tenente-Coronel. Com isso, o Coronel Jairo entendeu que aquele era o momento oportuno para que eu comandasse aquela unidade. Era o momento em que o prefeito Márcio França (PSB) iniciava sua gestão e muitas melhorias começaram a ser feitas na cidade, inclusive na segurança pública. Nosso batalhão enfrentava muitas dificuldades, mas passados três, quatro anos, o Batalhão de São Vicente se tornou um batalhão de destaque na região e no Estado, tanto é que no ano de 2000, quando o governo do Estado transferiu a sede do governo durante uma semana por causa da celebração dos 500 anos do descobrimento, o comando geral, pela primeira vez na história, foi transferido para o Batalhão de São Vicente. Então, em São Vicente foi uma história bonita que pude viver e por causa do trabalho feito na cidade, tive a felicidade de chegar ao último posto da Polícia Militar: o posto de Coronel.
JV- Depois disso surgiu o convite para assumir o Comando Geral do Estado?
Mele
- Sim, depois eu recebi uma designação para comandar a região oeste da Capital e quando estava neste comando fui chamado pelo comando geral da época para, como eles mesmo usaram esta expressão, cumprir uma missão: a de ser o comandante da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Fui comandante do Estado por três anos e acredito que realizamos um serviço de qualidade.
JV- Mas o senhor estava muito bem no Comando Geral do Estado. De que maneira ocorreu a mudança para o Comando da Região da Baixada Santista e Vale do Ribeira?
Mele
- Como tudo caminhava bem, e meu tempo de serviço vence em 2006, pensava que encerraria minha carreira no Comando Geral do Estado. A surpresa foi quando o novo Comando Geral assumiu e me chamou para uma ‘outra missão’ (risos). Eles explicaram que o comando da região tinha passado para a reserva e que a região era uma das mais críticas do Estado, por isso era preciso alguém que a conhecesse e já tivesse trabalhado nela, que conhecesse a sociedade local e que tivesse penetração nos meios de comunicação. Assim, meu nome foi lembrado para essa ‘missão’ (risos novamente). Mais uma vez acabei aceitando a proposta e vim para cá há seis meses.
JV- Aos 50 anos, no posto máximo da carreira, o senhor se sente realizado profissionalmente?
Mele
- Chegar aos 50 anos de idade, no posto de Coronel e tendo as experiências de carreira que tive, com a família que tenho, traz-me muita alegria. Sem dúvida nenhuma eu fui e sou muito feliz em minha profissão. Além da experiência da Polícia Ambiental, pela qual produzi cursos em várias cidades do país, do Amapá ao Rio Grande do Sul, nós criamos também a cadeira de Direito Ambiental na Academia de Barro Branco, em 1992, fizemos muita coisa que contribui para o trabalho da Polícia Militar.
JV- Quais foram as experiências mais marcantes durante esta história na Polícia Militar?
Mele
- Sem dúvida a parte de fiscalização ambiental marcou muito a minha carreira. Em 1992, pude acompanhar as atividades de manejo de fauna no Canadá e nos Estados Unidos, e isso foi muito gratificante; mais a frente, fiz alguns cursos internos da corporação e também pude acompanhar algumas atividades da SWAT, em São Francisco; depois, ainda, visitei e acompanhei ações da Polícia de Madri, na Espanha, e da Polícia de Paris, na França. Cheguei a apresentar uma monografia sobre o Ordenamento da Legislação de Meio Ambiente e o Manual de Fiscalização, que hoje é muito utilizado pela Polícia Ambiental de São Paulo e agora estamos com o interesse de uma universidade de São Paulo de publicar esse trabalho em forma de livro. Finalmente, no ano 2000, quando estava sendo implantada a Polícia Comunitária na Polícia Militar, tive a oportunidade de fazer um curso de Polícia Comunitária em Tóquio, no Japão. Acredito que essas experiências externas, em outros países e outros estados no Brasil, ajudaram muito na minha carreira. Estas são passagens muito marcantes e sinto-me muito feliz com os resultados obtidos.
JV- Por várias vezes o senhor citou que um dos melhores momentos de sua vida foi em São Vicente. Trabalhar na Cidade também foi um dos momentos que ficam guardados em sua lembrança?
Mele
- Em São Vicente eu talvez tenha tido um dos momentos mais gratificantes na carreira. Meu envolvimento com a cidade foi tão grande que eu acho difícil a gente ter momentos como este na vida. A cidade estava mudando, e mudando para melhor. Tive a felicidade de receber viaturas, novos policiais… Foi um momento em que todas as coisas foram melhorando: melhorava o arranjo policial, melhorava o arranjo da Cidade, tanto que outras regiões passaram a aplicar os conceitos empregados durante meu trabalho em São Vicente. Sem dúvida nenhuma uma das coisas marcantes na minha carreira, e acima de tudo na minha vida pessoal, foi receber o título de Cidadão Vicentino. Levo isso com muito carinho, porque foi uma gentileza muito grande da cidade, da Câmara, por meio do vereador Roberto Rocha (PSB), com quem trabalhei junto no Conselho de Drogas e que era um dos entusiastas do Proerd, que hoje se estabeleceu na região de uma forma magnífica. Semana passada fui à formatura do Proerd e vi quase três mil crianças se formando! É uma experiência que está cada vez mais vencedora e um dado importante de citar é que nós não estamos tendo problemas com menores infratores que passaram pelo Proerd, o que mostra o sucesso do programa. O título de cidadão vicentino é um orgulho que carrego para a vida inteira. Receber de uma cidade com a importância de São Vicente um reconhecimento dessa natureza… Às vezes eu até paro e pergunto: será que foi merecido? Eu apenas fiz o meu trabalho!
JV- Então sua ligação com São Vicente é mesmo muito forte.
Mele-
Devo muito a São Vicente, as instituições da cidade, a população da cidade e me identifico muito com a cidade, por isso sempre que posso compareço aos eventos do município. Ganhei uma segunda cidadania por São Vicente; tenho a cidadania da cidade onde nasci e outra por São Vicente.
JV- Uma carreira repleta de sucessos, compromissos, certamente exigiu a compreensão da família. Qual a importância da base familiar para o senhor?
Mele
- Não posso deixar de citar nesta jornada toda a minha família. Eu e minha esposa (Célia) estamos casados há mais de um quarto de século; tenho três filhos, o João Tiago; a Paola, única menina, mas que decidiu seguir a carreira do pai, e no ano que vem, se tudo correr bem, teremos mais um aspirante na família; e meu filho menor (João Lucas). Só tenho a agradecer a eles pela compreensão, carinho e apoio. Costumo dizer que a minha esposa faz os maiores exercícios de tolerância possível! (risos) Veja, eu como tenente, quando trabalhei na Polícia Ambiental, levava uma vida em que, às vezes, ia resolver um problema em Cananéia e voltava só cinco dias depois. Minha esposa foi sempre uma lutadora, criou os meus filhos com um carinho muito grande, pois na profissão de policial militar às vezes somos muito ausentes para a família. Minha esposa sempre se manteve forte, sempre a frente, é uma pessoa muito companheira, participativa, não existe solenidade em que ela não me acompanhe. Devo muito a ela. Senão fosse uma esposa com esse perfil, com tanta dedicação aos filhos, à família, nada teria acontecido.

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