Personalidades
- junho 26, 2006
Martha Haddad Estevez Martins
De dona-de casa a uma das empresárias mais bem sucedidas da Região. Mãe de três filhos, perdeu seu marido pouco depois de completar cinco anos de casada, mesma época do início das atividades do Terraço, hoje um dos restaurantes mais
tradicionais de São Vicente.
Martha Haddad Estevez Martins completa
36 anos à frente de seu empreendimento e conta, em reportagem exclusiva ao
Jornal Vicentino, um pouco de
sua trajetória de vida.
O empenho de Martha transformou sua empresa em referência em qualidade gastronômica na Cidade. O Terraço, localizado privilegiadamente no topo da Ilha Porchat, disponibiliza aos visitantes uma das vistas mais belas das cidades de São Vicente e Santos. Por isso, e pela diversidade no cardápio, já atraiu diversas personalidades nacionais, entre elas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Martha também fala sobre desigualdade social, economia e da cidade de São Vicente, provando que o sucesso de um empreendimento não depende apenas de investimento financeiro, mas uma visão social amplianda, consciente e inteligente.
Jornal Vicentino (JV) - Conte-nos um pouco de sua infância.
Martha Haddad (MH) - Eu nasci em São Paulo. Uma parte da infância morei na Barra Funda, perto do Centro, e na juventude morei no bairro do Aeroporto. Eu estudei na Escola Normal Riachuelo e depois me formei professora. Dei aula no Estado (rede de ensino estadual) e fui professora do Sesi, onde depois passei a ser diretora.
JV - A família foi importante na sua formação pessoal e profissional?
MH - Com certeza. É muito importante. Eles me apoiavam muito, tinham muito orgulho pois eu era muito estudiosa, me destacava. Então, além de apoiar, eles tinham muito orgulho. E isso me ajudou bastante.
JV - Como começou sua história na Baixada Santista, mais especificamente aqui em São Vicente?
MH - Em 1969, quando passava as férias em Santos, conheci meu marido, que era de Santos, na praia. Em 1970, casamos, e foi na época em que ele estava começando a montar o Terraço. Depois de cinco anos de casados, ele faleceu, aí eu tive que assumir a firma com a ajuda do meu pai e do meu irmão, pois meus três filhos eram pequenos. Depois o meu pai e meu irmão acabaram falecendo, e eu continuei até os dias de hoje. Já são 36 anos.
JV - Então a senhora acompanhou o início das atividades do Terraço?
MH - Sim. Nos primeiros cinco anos, eu ficava mais em casa para cuidar das crianças, que eram pequenas, mas meu marido me passava tudo que ocorria aqui, nós trocávamos muitas idéias. Eu tinha ciência, e essa experiência fez com que eu conseguisse continuar (após o falecimento do marido).
JV - E como foi trocar a vida de dona-de-casa e mãe por uma vida de empresária?
MH - No começo foi difícil, apesar de ter o apoio do meu pai e do meu irmão, foi difícil. Mas depois eu fui me habituando e hoje eu tenho bastante facilidade, principalmente no relacionamento humano, nós temos muitos empregados. Hoje eu tenho bastante facilidade em trabalhar isso.
JV - A senhora sempre gostou do ramo de gastronomia?
MH - Olha, não foi uma escolha minha, aconteceu por acaso, mas aprendi a gostar. E gosto bastante.
JV - Após o falecimento de seu marido, a senhora teve facilidade para acompanhar o desenvolvimento do restaurante, assim como também as mudanças do perfil do público que o frequenta?
MH - Ah sim. Quando meu marido faleceu ele estava desenvolvendo algumas obras e nós continuamos. Depois disso eu já fiz várias reformas, todas sempre tendo a minha participação, assim como também a mudança de público, de perfil de público. Antes o terraço era uma casa muito frequentada por jovens, era só choperia. Hoje em dia mudou o perfil do público, é um público mais adulto. A parte de refeições aumentou muito, então a parte de cozinha evoluiu bastante, houve uma mudança nesse sentido.
JV - Considerando os ótimos restaurantes da Cidade, a senhora acredita que a Gastronomia é um dos pontos fortes do Turismo de São Vicente?
MH - Uma das coisas que sempre as pessoas procuram é o restaurante. Você pode deixar de fazer aquele tour (viagem), ou fazer uma opção entre um tour e outro, mas a parte da refeição é primordial. Todo mundo faz uma refeição, ou uma refeição leve, um lanche, ou um almoço. A parte de Gastronomia é muito importante para a Cidade e para o Turismo.
JV - Hoje, após 36 anos de vida aqui na Baixada Santista, a senhora se considera uma vicentina de coração?
MH - Com certeza! Eu estou mais tempo aqui do que estive em São Paulo. Estou mais anos aqui, meus filhos são daqui, sempre viveram aqui em São Vicente, então, eu sou mais vicentina do que paulistana.
JV - Quais os locais da Cidade que a senhora recomenda, que o turista não pode deixar de visitar?
MH - A cidade tem um visual muito lindo. A praia do Itararé é muito bonita, mas eu não poderia deixar de citar a Ilha Porchat, não é (risos). As pessoas vêm aqui e gostam muito. Eu acho que todos os pontos turísticos têm seu atrativo: o Horto é muito bonito, a cidade histórica, a Biquinha. quando meus filhos eram pequenos quantas vezes eu os levei até lá para comer um docinho. A Cidade é muito interessante para o visitante.
JV - Muitos turistas famosos já visitaram e apreciaram o visual da Cidade vista do Terraço do restaurante?
MH - Ah já, já vieram. O próprio Lula já esteve aqui, Paulo Borsat, que era ministro da Justiça e muitos artistas. Eu sempre dou apoio a peças de teatro, então, sempre quando tem uma peça de teatro em Santos, eles vêm fazer uma refeição aqui. São muitos artistas, que eu não saberia numerar, são vários artistas globais (da Rede Globo); políticos locais, tanto de Santos, como de São Vicente. As empresas que têm visitantes estrangeiros também fazem muitos jantares aqui. Toda vez que tem um visitante estrangeiro, um grupo estrangeiro, eles se hospedam no Guarujá e vêm fazer uma refeição aqui.
JV - A senhora citou o apoio à Cultura. O apoio dos empresários é importante para que a Região traga mais eventos culturais?
MH - Eu acho importante. A cultura é importante para as pessoas e é uma divulgação importante também para a empresa. O público que vai aos espetáculos é um público elitizado e que corresponde a minha espectativa.
JV - A senhora trabalha com gastronomia e atende um público em que a maioria pertence à classe alta. Como a senhora avalia o contraste social do país, considerando que poucos têm muito para gastar com comida e milhões são miseráveis e passam fome?
MH - É. Eu acredito que haveria de ter uma reformulação geral na maneira de (do governo) conduzir (o país) para atingir justamente este público (classe baixa). Eu acho que esses ensaios que fazem, como o Fome Zero, não resolvem. Eu acho que as pessoas precisam ter emprego, ganhar para ter dinheiro para comprar sua comida. Elas não querem esmola. Se elas tiverem emprego, não passarão fome. O principal problema (do País) é não ter emprego para as pessoas. Eu acho que a falta de emprego é que cria essa dificuldade. Quantas pessoas passam fome? Acho que a maioria, se tivesse alguma coisa para fazer para trazer comida para casa, com certeza trariam, não é verdade? O nível de emprego que existe aí nos interiores, principalmente no Nordeste, onde as pessoas trabalham e não têm a valorização do seu trabalho. Então acho que o principal seria isso, o emprego.
JV - O Terraço consegue atingir todos os tipos de públicos e bolsos?
MH - Nós temos o Terraço (restaurante) e a Isla Bonita (boate), temos a choperia também. É um lugar que atende todo o tipo de público, aquele que quer almoçar, aquele que quer jantar, aquele que simplesmente quer tomar um suco ou sorvete, aquele que quer dançar. Então a gente atinge todo o tipo de perfil de público e todo tipo de poder aquisitivo também. Eu convido aqueles que não conhecem - que eu acho difícil, mas parece incrível, tem pessoas que não conhecem ainda - que venham, pois não vão se arrepender.
JV - Quais os pratos mais pedidos?
MH - Os pratos que saem mais são à base de peixes e frutos do mar, mas nós temos filet mignon, bacalhau, frango. Na choperia nós temos tábuas de frios, petiscos, de tudo um pouco. Atendendo a todos os gostos e bolsos (risos).
JV - Como empresária, a senhora já vivenciou diversas situações econômicas no País. Na sua opinião, com a situação econômica de hoje, o País caminha para dias melhores?
MH - Veja bem, eu já participei nesses 36 anos (à frete do Terraço) de vários planos econômicos, de vários altos e baixos, mas aqui na Baixada o que influencia muito é o tempo também (clima). Além da situação econômica, quando a pessoa está se contendo - a pessoa que costumava ir três vezes por mês no restaurante, diminui, vai menos veses -, aqui também temos o problema da temperatura. Este ano, para mim, em especial, não está mal, porque o tempo está ajudando, mas eu acredito que se as pessoas tivessem mais disponibilidade, elas gastariam mais. Ás vezes as pessoas se contém, porque têm medo. Eu acho que ainda falta. Acretido que vamos caminhar, acho que o país está melhorando, eu acho que muita coisa está sendo esclarecida. Com o decorrerer do tempo nós vamos chegar lá, mas ainda falta batalhar muito para gente chegar lá.
JV - Nesses 36 anos, a senhora consegue apontar o pior e o melhor momento da Economia do País?
MH - A pior fase foi na época da inflação desenfreada, com o Collor, o tabelamento de preços. Depois, com o (plano) Real, houve uma estabilização e as pessoas puderam se programar mais também, nós passamos a saber quando tínhamos que dispor, quanto tínhamos que gastar, o que a gente tinha que fazer com o dinheiro. Não ficava aquela correria de ficar alterando o cardápio. Na época da inflação tínhamos que ficar correndo atrás do tempo, pois se descuidássemos num preço, tínhamos prejuízo. Então se eu tivesse que apontar uma fase ruim, apontaria a fase da inflação alta, com o Collor, um pouco do Sarney também. A fase boa: a implantação do plano Real.
JV - Na sua opinião, São Vicente também acompanhou esse progresso do País?
MH - Ah sim. Os últimos oito anos foram muito bons. Antes teve uma fase muito ruim, uma fase péssima. Anteriormente foi lastimável. Hoje a gente já tem orgulho da Cidade. A Cidade está bonita, arrumada, organizada. Nos últimos oito anos, acredito que a evolução foi realmente muito grande.



