Gilberto Simão Elias

gilbertoelias3.jpgMédico psiquiatra há 34 anos e há mais de 11 anos atuando na saúde pública, Geraldo Simão Elias tem atualmente a missão de melhorar o atendimento da saúde pública na região. A paixão pela medicina vem desde pequeno e durante a entrevista ao Jornal Vicentino Elias revelou passagens de sua vida em Santos e em São Vicente. Falou da família, da infância, do período acadêmico, do sistema público de saúde entre outros assuntos.

Nascido em Santos, Geraldo Simão Elias teve que abandonar a família e a cidade natal para ingressar na faculdade de Medicina. Segundo ele, a saudade era constante e sempre que podia vinha para Santos. Voltando para a Cidade em 1975, Elias prestou concurso e entrou no serviço público, além de atuar como psiquiatra.
Durante sua trajetória na profissão, o médico psiquiatra foi presidente da Associação dos Médicos de Santos entre 1985 a 1986 e ainda hoje tem cargo no Sindicato dos Médicos de Santos. Atualmente Elias é diretor regional de Saúde da Baixada Santista. Antes ocupava o cargo de diretor de planejamento da Direção Regional da Saúde (DIR 19) da Baixada Santista na secretaria de Saúde do Estado há 10 anos.
Ao longo da entrevista, Elias contou sobre sua paixão pela medicina, sobre a infância no bairro do Campo Grande, a família e o Santos Futebol Clube seu time de coração. Confira alguns trechos da entrevista.
Jornal Vicentino - O senhor é nascido em Santos. Como foi sua infância na Cidade?
Gilberto Elias
- Minha infância foi no bairro do Campo Grande, perto da Vila Belmiro. Estudei no colégio Azevedo Júnior, escola municipal, depois no Tarquinio e Silva, conclui o curso secundário e depois a faculdade de medicina. Foi uma infância tranqüila, meu pai era comerciante de bairro, com todas as limitações que a vida naquela altura proporcionava. Tenho uma irmã que hoje é radicada em São Vicente. Nossa infância era muito provinciana se restringia a rua, o bairro que a gente vivia e muito pouca possibilidade de conhecer o que se passava além daquele limite.
JV - Como foi o relacionamento com seus pais?
GE
- Sempre fui criado dentro de algumas regras fundamentais que a classe média cultivava, o respeito ao próximo, a honestidade, a não violência, os princípio da Igreja Católica. Muito impregnado por aquele sentimento de praticar o bem, aquele maniqueísmo que existia muito próprio da Igreja Católica.
JV - O senhor também morou em São Vicente. Quais lembranças o senhor tinha daquela época?
GE
- Morei um tempo em São Vicente, durante a adolescência. Fiquei uns 6 anos lá e me lembro muito bem das nossas vindas de São Vicente para Santos, no bonde que vinha pela orla do Itararé. Aquele ambiente sempre bucólico, sem muita gente e movimento. São recordações muito gratas até hoje.
JV - Sua vida acadêmica se deu num período conturbado. A ditadura militar o influenciou de alguma forma?
GE
- A formação acadêmica se deu numa época em que o Brasil passava por uma fase revolucionária de briga pelo poder e também de novo pelo maniqueísmo do que é bom para o País ou do que não é. Sempre uma posição terceiro mundista. Então engajamos nesse processo, como toda a maioria da juventude universitária daquela época. Lutar contra a ditadura do poder, da força, sempre sobre o paradigma de que o que era legal para os Estados Unidos era melhor para o Brasil. A juventude naquela época se rebelou muito, foi para rua, lutou, foi presa, a gente sempre estava participando desse processo. Sem nunca achar que o modelo que dividia o mundo era o melhor.
JV - Após cursar medicina o senhor se especializou em psiquiatria. Por que a opção por essa área?
GE
- Depois de formado optei pela psiquiatria porque achava, e acho ainda hoje, que 90% dos problemas de saúde do homem estão ligados à área emocional. O homem resolvido emocionalmente tem mais chance de ser feliz. Fiz especialização no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, fiz uma formação, também de psiquiatria, na Marinha de Guerra do Brasil, por ter sido convocado a prestar serviço militar por três anos.
JV - Com a  conclusão da especialização o senhor voltou para Santos?
GE
- Depois vim para Santos e ingressei no serviço público federal, por concurso, e estou até hoje. Também tenho um consultório, nunca parei de exercer a minha atividade num consultório privado e ainda o mantenho até hoje.
JV - Como surgiu o interesse pela saúde pública?
GE
- Foi um momento da vida que começava-se a mudar a mentalidade de como lidar com o bem público. Com o ideário de realmente servir para o público, através da mudança de postura do governador Mário Covas. Naquela oportunidade fui convidado para assumir um cargo em Santos e coincidia com a mudança constitucional de 1989. Era a constituição que criava e organizava a saúde pública do Brasil, através do Sistema Único de Saúde (SUS) como letra da própria constituição, era um desafio.
JV - Qual análise o senhor faz do SUS?
GE
- O sistema era muito caótico e precisava-se estabelecer regras. O SUS ainda é hoje um sistema em construção. É o maior sistema público de atenção em qualquer área social do mundo, com uma população de 170 milhões de pessoas de maneira igualitária com garantia de acesso, de integralidade e atenção de saúde. É difícil de implementar, pelo tamanho do próprio sistema e pela quantidade de recursos que são necessários e que nem sempre são disponíveis. É um bolo que tem que ser dividido por todo mundo, numa maneira mais lógica, racional, técnica para que se trate toda a população com os recursos que são limitados da maneira mais adequada.
JV - Seu time do coração é o Santos Futebol Clube. Como se deu a opção por torcer pelo alvinegro?
GE
- Comecei a torcer para o Santos porque meu pai era torcedor. Isso é uma das coisas que a gente herda, herdamos a genética e o time do pai. Ele me levava no estádio, é um dos sócios mais antigos do clube. Na minha juventude ele me colocou como sócio. Eu tive a felicidade de poder participar e assistir o Pelé com o time maravilhoso e glorioso. Quem viu o Pelé jogar naquela ocasião, de alguma maneira, não consegue torcer para outro time.
JV - O senhor sentia saudade de Santos, quando estava cursando medicina?
GE
- Sentia muita saudade, estava sempre aqui. Na época Santos deveria ter 200 mil habitantes e voltei para a Cidade com 300 mil pessoas, teve um crescimento enorme. Me formei numa época que tinha menos de 70 faculdades de medicina no Brasil. Hoje tem 170. As pessoas saiam de Santos para se formar.
JV - Quando se deu a opção pela medicina?
GE
- Tinha algumas referências, muito embora não tendo contato na formação da personalidade. Na juventude tinha contato com pessoas que praticavam e admirava. O pediatra que eu ia, o cirurgião que fez a primeira cirurgia, apendicite, se tornavam figuras enigmáticas e que imprimiam respeito. A sociedade em troca o respeitava, era um sonho tornar-se semelhante ou igual, poder ter o respeito que a sociedade demonstrava pela classe, pelas verdadeiras personalidades da época. Foi muito de admirar essa bonita profissão, desde pequeno, e de achar importante e decisiva na vida das pessoas. A atuação do profissional poderia determinar a continuidade de uma vida saudável até a própria existência, então foi nesse modelo que desenvolvi a idéia. O quanto a medicina pode ser importante na vida de todas as pessoas.
JV - Na sua família seus filhos ou sobrinhos seguiram o caminho da medicina também?
GE
- Eu tenho hoje na minha família um sobrinho que é médico, um filho que é médico, tenho outro sobrinho que estuda medicina. Parece que a minha semente germinou e despertou neles o mesmo respeito que tenho pela profissão.
JV - O senhor falou de seu filho. Conte um pouco mais de sua família.
GE
- Tenho um filho e uma filha. Minha filha fez a Pontifícia Universidade Católica (PUC), se formou em pedagogia e inglês, se especializou em tradução e intérprete. Casei em Santos, hoje sou divorciado e tenho outra família constituída. Meu filho mora comigo e nunca mais sai de Santos, desde que voltei para cá em 1975 estou aqui até hoje. Não pretendo sair da Cidade, pretendo ficar até o último segundo de vida. Meus filhos são solteiros.
JV - O seu filho é médico. Ele também seguiu o mesmo caminho do pai?
GE
- Por enquanto ele está fazendo clínica médica, que ir por endocrinologia. Está em processo de formação, ainda muito jovem e acho que dá tempo de investir nele mesmo, no saber, no conhecimento e na personalidade. Uma das coisas que eu tento mostrar é que não é o diploma que vai dar o que ele precisa para sobreviver. Até dá para viver financeiramente, talvez não dê para sobreviver emocionalmente e procurar o que o homem procura na sua passagem aqui, ser feliz.
JV - O que o governo do estado está fazendo pela região da Baixada Santista em relação à saúde?
GE
- Nós estamos tendo muito apoio do governador Geraldo Alckmin e do secretário de saúde Luiz Antonio Barradas Barata para organizar a rede de atenção. Tanto de atenção de baixa complexidade, como atenção de média e alta complexidade. Talvez a gente consiga, estamos caminhando vigorosamente. Organizar a rede do litoral sul que inclui as cidades de Peruíbe, Mongaguá, Itanhaém e Praia Grande, formando um projeto inédito no Brasil, de tal maneira que a gente possa colocar os serviços que são necessários. Nós conseguimos transformar o hospital Guilherme Álvaro, que era um hospital que vinha capengando com dificuldade. Tudo isso foi saneado, o hospital está em expansão. Cada vez assumindo uma complexidade e cada vez sendo mais respeitado, com profissionais da maior competência dedicados a saúde pública. Gastando um dinheiro grande do governo do estado, mas o papel do gestor é esse: saber detectar e fazer o que o povo precisa que seja feito.
JV - O senhor acha que a saúde pública no País vai demorar para melhorar?
GE
- A dificuldade e o gargalo maior está no financiamento. Não é o financiamento que a gente esperaria. Acreditamos que  o governo federal deveria estar aplicando ao redor de 10% do PIB (Produto Interno Bruto) e ele aplica muito menos que a metade. Enquanto as regras não ficarem muito bem claras e como se vai fazer esse investimento, a gente vai ter dificuldade e vai ter que continuar a nossa luta. Acredito que não deve ser dado o ato médico em si, deva ser dado também a medicação porque é derivada em conseqüência do ato médico. Fazer saúde pública é também fazer saúde com qualidade, não é fazer saúde pobre que atenda pobremente a população.

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