Irmã Dolores

irmadolores.jpgAmar ao próximo e servir a Deus são os principais ideais da freira Maria Dolores, que dedica sua vida aos pobres há mais de 60 anos e chegou a lecionar antes de seguir sua missão religiosa. Idealizadora de obras sociais importantes em um dos bairros mais carentes de São Vicente, o Quarentenário, a freira está sempre se empenhando em dar condições de vida dignas para quem mais precisa. Além da E.M.E.I Nossa Senhora da Esperança, ela está à frente da Casa de Parto, que são conveniadas com a prefeitura da cidade e de muitos outros instrumentos de igualdade social. Freira Dolores confessa que desde os seus seis anos de idade, quando fez sua primeira comunhão, já pensava em ser freira e colaborar com a erradicação das desigualdades sociais.

Nascida na cidade de Gijón, na Espanha, aos vinte anos de idade entrou para o convento e abandonou o terceiro ano da faculdade de medicina. Designada pela congregação na Espanha para vir ao Brasil, se surpreendeu quando conheceu a pobreza do País. Ela revela que antes de chegar a São Vicente, passou por muitas cidades do Brasil, entre elas São Paulo e Rio de Janeiro.
Após decidir que só trabalharia com pessoas realmente pobres, freira Dolores visitou Santos e a pedido de Dom Davi a congregação foi escolhida para percorrer os bairros humildes de São Vicente para a construção de uma paróquia, isso na década de 60. Ela então teve contato com os diques e as palafitas existentes na Cidade e decidiu que seria São Vicente o lugar  onde realizaria seu trabalho. O seu maior parceiro é a ONG espanhola Mãos Unidas, que dá apoio e viabiliza a concretização dos projetos idealizados por ela, além de ajudar financeiramente.
Durante entrevista ao Jornal Vicentino, freira Dolores falou de sua família e a distância que sempre os separou, sua infância humilde com seus oito irmãos e a saudades de seus pais. Contou sobre a luta para a realização de projetos sociais, como a unidade de saúde, a escola infantil, e a escola profissionalizante no bairro Quarentenário. Revelou também o que representou  benzer o Centro de Oncologia Infantil (CROI). Confira alguns trechos da entrevista.
Jornal Vicentino – A senhora nasceu na Espanha e veio para o Brasil trabalhar com a população carente. Como foi sua infância na cidade de Gijón?
Irmã Dolores
– Muito menina eu já lia. E uma das coisas que mais lia era sobre a vida de Santa Teresinha, eu sonhava ser como ela. Tinha muitos sonhos missionários, desde pequena. Éramos oito irmãos, hoje são apenas quatro, feliz ou infelizmente, não sei, Deus chamou. A família era muito unida e preocupada com a educação, mas meu pai não queria que eu fosse freira, ele achava que deveria estudar. Eles achavam que eu era super inteligente, como todos os pais (risos). Expliquei a ele que eu iria dar a vida pelas pessoas. Trabalhei na Europa com imigrantes, na França e na Inglaterra e depois vim para o Brasil e me afastei da minha família. Sei que para eles foi difícil. Meu pai morreu logo. Depois de estar anos no Brasil, me mandaram um telegrama urgente que não recebi, pois trabalhava na periferia do Guarujá em um lugar muito distante e de difícil acesso. Depois de oito dias fui abrir minha caixa postal e vi que tinha um telegrama me informando da morte da minha mãe. Todos os irmãos estavam presentes nesse dia, menos eu.
JV – Chegou a se formar como professora e cursar a faculdade de medicina até o terceiro ano. Quando decidiu que não era esse o seu caminho?
ID
- Desde menina. Fiz comunhão aos seis anos. Me lembro que uma senhora, amiga da família me perguntou: “E você o que quer ser quando crescer?”. Quero ser freira. Ela respondeu que eu mudaria de idéia quando completasse dezoito anos. Fui para casa naquele dia e disse para minha mãe que aos dezoito anos já estaria dentro de um convento. Essa idéia nunca deixou minha cabeça. Mas entrei para o convento com vinte anos, pois eu estava trabalhando como professora na época e cursando medicina. Meu ideal sempre foi ajudar as pessoas pobres.
JV – Antes de vir para São Vicente a senhora passou por várias cidades do Brasil e do mundo. O que a fez escolher São Vicente para realizar seu trabalho social?
ID
– Sempre falei para a congregação a que pertenço que gostaria de trabalhar em algum lugar com os pobres. E lá na Espanha quando pensamos em pobres, pensamos em África e Ásia, mas eles me mandaram para a América, especificamente para o Brasil. Eu nunca pensei que o Brasil fosse um país pobre, porque os espanhóis vinham para a América Latina para enriquecer, por isso não imaginava ser pobre. Quando cheguei eu vi a miséria do povo. Fui primeiro para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo, fiquei na casa da congregação do estado por uns seis meses. Depois me mandaram para Santos. Mas, tanto em São Paulo como em Santos as casas trabalhavam com a classe média, eram pensionatos de estudantes. Aí eu disse que não havia deixado minha pátria e minha família para isso, eu queria trabalhar com os pobres. Foi então, que por um pedido a congregação de uma irmã para trabalhar nas periferias, feito pelo bispo Dom Davi, que eu vim para São Vicente. Percorri o Dique das Caixetas, o Sambaiatuba procurando um local para fazer uma paróquia. Depois que conheci as palafitas, aquela pobreza, eu decidi que era aqui meu lugar. Comecei a trabalhar na Vila Jóquei, em um tempo em que não havia nem água. Hoje em dia é um bairro muito bonito, mas na época, em 67, era um bairro super pobre.
JV – O que representa a construção da Casa de Parto do bairro Quarentenário para a senhora? E como surgiu a idéia dessa construção?
ID
– A gente idealizou a Casa de Parto e lutamos para conseguir equipamentos para a construção. Depois aconteceu um convênio com a Secretaria de Saúde de São Vicente, que coloca os enfermeiros e os funcionários. Hoje a nossa parte é administradora, e claro, fazemos tudo que possa ajudar. A casa representa a humanização do parto. Nossas mulheres pobres tinham que pegar um coletivo para dar a luz, em São Vicente. Com poucas vagas, muitas vezes as mulheres voltavam porque não era a hora do nascimento, era muito sofrimento para as grávidas. Uma vez uma grávida da comunidade foi para o Hospital São José e mandaram ela voltar porque não era a hora do parto. Quando ela voltou de novo com as dores, já na metade do caminho, sentiu que era a hora da criança nascer. Ela falou para o motorista parar. O único lugar perto da onde o ônibus parou era um boteco. Ela entrou no boteco e pediu ajuda para os homens que estavam lá. Eles chamaram a ambulância, mas a criança nasceu no chão do banheiro do boteco, em cima de jornais velhos, com a ajuda dos homens. Pela misericórdia de Deus a mãe e o filho foram levados para o hospital e se salvaram. Mas depois desse dia resolvi lutar por essa realização.
JV – Como foi essa luta para construir a Casa de Parto e quem a ajudou?
ID
- Pensei que as mulheres tinham mesmo que ter um lugar para o parto. Procurei o Dr. Capistrano para me orientar. Expliquei para ele e me disse como conseguir a documentação necessária, me levou até Brasília e depois de um tempo saiu um boletim oficial que liberava a verba para a Ong construir a Casa de Parto. Mas não estava efetivado. Nesse meio tempo o Dr. Capistrano faleceu. Ele foi velado em Santos, porque tinha sido prefeito de lá. Durante a caminhada para o enterro vi o então ministro da Saúde, José Serra que era amigo dele. Me aproximei de José Serra, sem ninguém me apresentar e pedi desculpas. Disse que era a freira que gostaria de construir a casa de parto que o Capistrano estava apoiando. Falei que já havia saído o boletim autorizando a verba, mas ela não chegava e que seria uma homenagem póstuma ao Dr. Capistrano a construção dessa casa. Ele sorriu e depois de quinze dias me telefonaram da Secretaria de Saúde do Estado dizendo para que eu abrisse uma conta para chegar a verba. Na mesma semana chegou e construímos.
JV – Qual é o papel da prefeitura de São Vicente na concretização de seus ideais sociais?
ID
- Toda a mão-de-obra e pessoal técnico é mantido pela prefeitura, desde enfermeiras e médicos do posto de saúde até as professoras da escola infantil. O E.M.E.I cresceu depois de conversar com o prefeito. Aproveitando a parte que já estava pronta nos ajudaram a construir o restante. A prefeitura também fornece a merenda que é muito boa, orientada por uma nutricionista e que muitas vezes é a única refeição das crianças. A molecadinha às vezes passa mal porque estão com fome. Já sabemos até quando a criança está passando mal por fome. Foi assim que hoje a escola já está com 300 crianças em dois períodos e ela sempre foi uma necessidade muito grande daqui. Conto com a ajuda da atual diretora, a dona Cida, que é uma pessoa que se preocupa com as crianças. Atendemos também o pessoal da terceira idade e ainda temos escolinha profissionalizante para os adultos.
JV – A senhora pretende realizar quais projetos para o futuro?
ID
– Estamos agora com um projeto de um restaurante popular. Sempre digo que esse pedaço do bairro é o Gonzaga do bairro, porque aqui é uma parte privilegiada, que abriga a escolinha, a igreja, a unidade de saúde, enfim. Mas se formos para dentro do bairro ainda encontramos gente que passa fome e mora em palafitas. Então é lá que nós pretendemos instalar o restaurante, talvez em fevereiro. Pedi verba para a Espanha, para a Ong Mãos Unidas. Ela sempre me ajudou muito. Antes essa área pertencia ao Ministério da Agricultura e a prefeitura não podia construir nada aqui dentro. A estrutura que o bairro tem hoje é devida a ajuda da igreja católica. Alguns padres espanhóis, em São Paulo se comprometeram em ajudar a realizar esse projeto. Eles disseram que me ajudariam a construir rapidamente esse restaurante. Disseram até em alugar um local grande para começar a dar comida, mesmo antes de construir o restaurante. É como o restaurante popular que já tem em Santos, que se paga R$ 1,00 pelo alimento.
JV – Recentemente a senhora foi convidada para benzer o Centro de Oncologia Infantil de São vicente, na sua inauguração. O que representou esse convite para a senhora?
ID
- A primeira dama Márcia, do Fundo Social de Solidariedade, me telefonou e perguntou se  eu poderia estar presente para benzer lá. Eu respondi que seria uma grande alegria para mim, pois tudo que é a favor da criança, do pobre eu coopero em todos os planos. Foi muito emotivo, porque sabemos da história do prefeito Tércio, a luta que os dois tiveram, o sofrimento deles. Então, eu acho que essa obra só poderia sair do coração do Tércio, porque ele sabe muito bem o que significa essa doença, ainda mais para uma criança. É a luta da vida sobre a morte. Foi um privilégio para mim em benzer um lugar onde muitas vidas serão salvas.

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  1. 5 Comentários para “Irmã Dolores”

  2. Olá,

    Sou uma pessoa que conheci a Irmã Dolores, quando ela era da paroquia de SAMARITA, conversava muito com ele e meu irmão era o coroinha Edson Pacheco. Se tiver acesso facil a ela diga -lhe que mando um grande abraço e desejo muita saude e coragem a ela…DEUS A ABENÇOE CADA DIA MAIS…

    Etevandro Pacheco

    Por etevandro Pacheco em jan 21, 2007

  3. ELA É UMA HEROINA.

    Etevandro pacheco

    Por ETEVANDRO em mar 31, 2007

  4. Uma vida dedicada a deus e aos pequenos de Deus. Mulher forte que tem a presença divina a lhe orientar.
    Também sou irmã Dolôres, sou religiosa e moro em Belém e desenvolvo um trabalho socio-religioso na Delegacia da Mulher, com os chamados agressores. Trabalho com eles desde a época do meu estágio.
    Pessoas como Irmã Dolôres nos dão exemplo de coragem para trabalharmos com os menos favorecidos. Parabéns, irmã Dolôres.
    Gostaria de saber se ela ainda está na ativa. É a primeira vez que ouço falar dela. Gostaria de saber mais.

    Por Irmã Dolôres em nov 19, 2007

  5. Uma pessoa de Deus!

    Por mel lislie em nov 19, 2007

  6. Fui ex-aluno do Preventório Rainha Dona Amélia-Ilha de Paquetá Rio de Janeiro.Nos Anos 1980 me lembro duma freira a quem me dava muito carinho e respeito,Seu nome me lembro Dolores,espanhola mas ela ficou trabalhando por lá por uma Ano ,Gostaria de saber se é a mesma pessoa?

    Por Reginaldo Angelim Frazao em dez 9, 2011

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