José Macia (Pepe)

pepe 006.jpgUma história de lealdade ao Santos Futebol Clube e à família, é assim que pode-se resumir a vida desse santista que jamais deixou de atuar pelo alvinegro praiano até encerrar sua carreira e a dedicação demonstrada para com a esposa, filhos e netos. Hoje (25) José Macia, o Pepe, completa 71 anos esbanjando simpatia e simplicidade 

José Macia, o Pepe, segundo maior artilheiro da história do Santos F. C., concedeu entrevista em seu apartamento na Ponta da Praia em Santos. O canhão da Vila recebeu a equipe do Jornal Vicentino com simplicidade e muito bom humor, suas principais características.
Ao longo da entrevista Pepe relembrou sua infância em São Vicente, seu amor pelo futebol, momentos felizes e tristes de sua vida profissional e familiar, e comentou sobre a seleção brasileira na Copa do Mundo da Alemanha. Confira alguns trechos da entrevista
Jornal Vicentino - Seus pais vieram da Espanha para o Brasil por volta de 1930, mas começaram a namorar e se casaram aqui. Como foi sua infância e o relacionamento com seus irmãos?
Pepe
- Eu tinha um irmão chamado Silvinho que infelizmente faleceu num acidente quando eu tinha dois anos de idade, eu pouco me lembro dele. Ele caiu de uma janela quando estava radiando um jogo de botão naquela época. Não era uma janela alta, mas ele caiu com a cabeça no chão, os médicos havia se preocupado apenas com o olho e ele havia esmagado baço e em três dias morreu. Foi um choque muito grande, para a família. Tinha o meu irmão Mário, que perdi há três anos quando eu estava comandando a Portuguesa Santista. O Mário era muito meu amigo, três anos mais velho do que eu, a gente jogava botão juntos. Foi uma infância tranqüila e muito boa. Era o tempo de soltar balões, soltar bomba, brincar com peão, jogávamos bolinha de gude, empinávamos pipa. Mas eu gostava muito era de jogar futebol com bola de borracha. Meu pai sempre nos dava de presente de Natal umas bolas de borracha coloridas e a gente vibrava muito.
JV - O senhor se lembra de alguma passagem que marcou a sua infância?
Pepe
- Teve uma passagem curiosa quando eu tinha quatro anos, eu ainda morava em Santos na Antonio Bento que era uma rua fechada. Em junho o céu ficava cheio de balões e de repente veio caindo um balão bem no meio da rua, mas era um balão imenso, lanternado. Então os chefões da rua, que eram os grandões, falavam que o balão era deles. “Ninguém rasga. Esse é nosso”. Todo mundo se preparando para pegar o balão quando de repente eu tirei o tamanco e joguei contra o balão atravessando de lado a lado (risos). Os grandões ficaram fulo da vida e como viram que eu era pequeno falaram: “Coitadinho”. Mas foi uma arte realmente incrível, ninguém esperava que eu fizesse isso.
JV - Sua principal diversão era o futebol, apesar disso seu pai sempre tentou tirar o esporte da cabeça dos filhos. Foi complicado essa falta de apoio?
Pepe
- Meu pai dizia que jogador de futebol era vagabundo, ele preferia que eu tivesse outra profissão. Os jogadores da época tinham fama de boêmios, de não pagar as contas e só queria saber de beber, então meu pai era contra. Mas com o tempo ele foi mudando, mesmo porque eu mostrei muita aptidão e depois o futebol ficou muito mais correto. Mas não foi complicado, muito pelo contrário, principalmente quando cheguei a profissional. Ele não ia nos jogos porque ficava na mercearia, mas o apoio foi total e ficava muito contente.
JV - O senhor recorda com alegria dos tempos em que seu pai, José Macia, mais conhecido como Espanhol, era proprietário de uma mercearia em São Vicente?
Pepe
- Nossa, se recordo e como. Que saudade. Naquela época se vendia balas que vinham com figurinhas de jogadores de futebol. Meu pai comprava e colocava nos vidros, só que as figurinhas carimbadas dava para perceber porque tinham uma marca de carimbo e eu conseguia ver pelo vidro as carimbadas e as pegava para mim. Então meus amigos não queriam comprar balas futebol no bar do meu pai porque nunca saia a carimbada. (risos)
JV - O senhor começou a carreira futebolística em São Vicente. Por qual clube e como se deu o ingresso na carreira esportiva?
Pepe
- Desde pequeno eu gostava de futebol. Me lembro que nós formamos, eu tinha nove anos de idade, o infantil Alvinegro, minha mãe inclusive fez e costurou os distintivos. Depois teve o infantil Mota Lima, Vila Melo e eu jogando em todos. Todo mundo gostava que eu jogasse porque eu jogava bem. Aí houve uma fusão entre o Comercial e o Vila Melo, eles eram rivais, dessa fusão nasceu o Clube Atlético Continental, hoje sou presidente de honra do clube que completou 53 anos. Jogava no amador do Santos e vinha correndo pegava o bonde ou o ônibus e vinha jogar no Continental. É a equipe que mora no nosso coração, a vermelho e branco.
JV - O senhor ficou caracterizado por sempre andar com boné, mesmo quando estava em campo. Quando e como o senhor deixou de usar boné durante os jogos e os treinos?
Pepe
- Não eram todos que usavam boné, eu usava. Isso foi um dos motivos que eu perdi os cabelos. Eu colocava a aba para trás quando estava jogando e quando corria eu tirava o boné e o levava na mão. Quando fui treinar no infantil do Santos, no primeiro dia, que foi quatro de maio de 1951, fui fazer um teste no Santos levado pelo goleiro Cobrinha, era do São Vicente. Fui treinar no Santos com o boné com a aba para trás. Fiz até um gol na Vila Belmiro. Só de entrar na Vila (Belmiro) fiquei feliz. Dei uma bomba e fiz o gol. O Saúl era o treinador, massagista e trabalhava na funerária Rosário. Ele falou para eu trazer os documentos que ia me inscrever, mas pediu para eu comprar uma rede porque jogar com o boné não dava. Fui nas Lojas Americanas comprar a redinha. (risos)
JV - Conte como foi seu início no Santos Futebol Clube.
Pepe
- Comecei com 16 anos no Santos, em 1951. O infantil era fraco, o Saúl era um grande alvinegro. Mas, realmente, não tinha muito tempo para cuidar do time, mesmo assim eu despontei. No ano seguinte fui promovido ao juvenil e aí já veio o Lula, que veio da Portuguesa Santista para tomar conta do juvenil do Santos. Eu e o Del Vecchio não parávamos de fazer gols. Começaram a enxergar a gente.
JV - Depois o senhor passou a jogar na equipe principal, que na realidade era uma seleção. Como foi atuar ao lado do Pelé?
Pepe
- O Pelé veio em 1956. Me lembro quando ele chegou. Vestia um terno azul marinho e com um jornal no bolso de trás da calça. O que chamou a atenção da gente foi o apelido e ficávamos perguntando: “Pelé? Pelé?”. Aí nos vimos ele treinar, era meia direita, e passamos a ver que ali estava uma fera. O Pelé já chegou jogando muito bem, já era forte. Foi meu companheiro de ala durante 12 anos, eu era o camisa 11 e ele o 10, e a gente se dava muito bem. Fui padrinho do primeiro casamento dele. A gente tinha uma amizade tão grande que ele foi morar no prédio onde eu morava, não só eu com ele como a Rose (primeira esposa de Pelé) com a Lélia. Quando ganhei o segundo filho eu mudei para um prédio no Canal 3 e ele foi atrás, ficamos vizinhos de novo.
JV - O senhor falou sobre sua esposa. Como a conheceu?
Pepe
- São 41 anos de casado, é uma companheira maravilhosa. Começamos a namorar em 1958, já era campeão mundial. Meu pai tinha a mercearia e eu ficava na sacada, nós morávamos em cima, e eu via passar todo dia aquela moça bonita. Ela ia para São Vicente a pé trabalhar no Instituto São Vicente. A gente começou a se olhar, eu estava livre e desempedido, e a gente vinham se flertando há algum tempo. Era 7 de dezembro de 1958, e nesse dia o Santos havia feito 6 X 1 no Corinthians. Eu e meus amigos da época o Continental estávamos em frente ao Gáudio e ela estava com a prima dela segurando o guarda-chuva, estava chovendo. Os amigos passaram e eu fiquei ali. Foi aí que começou o namoro. Quatro ou cinco dias depois próximo à descida onde ela morava dei um beijo no rosto dela. Ela me disse: “Você não devia ter feito isso. A gente se conhece a muito pouco tempo”. Eu pensei: “Poxa”. Fui falar com os pais dela para namorar em casa, seu Serrano e dona Laura. Namorei, noivei cinco anos e meio e depois nos casamos.
JV - Como foi seu casamento?
Pepe
- Casamos na Igreja Coração de Maria, em Santos, porque foi onde me batizei, em 1964, eu tinha 29 anos e a Lélia 24. A Igreja estava super lotada, tinha uma mulherada porque eu era considerado um dos galãs do time estava-se casando. Estava tão cheia que chamei policiais para tomar conta. Todos os jogadores do Santos compareceram, subiram nos bancos e foi uma algazarra geral. Estava esperando a minha vez de casar. De repente entrou uma noiva muito gorda e a igreja cheia esperando o casamento do Pepe. Todo mundo ficava comentando: “É ela a noiva do Pepe!” e falaram: “Não é não”. A moça casou em cinco minutos, ela tomou uma vaia e saiu chorando. Essa moça deve ter raiva de mim e eu não tenho culpa nenhuma. Depois entrou a dona Lélia. Na hora de entrar seguraram o vestido dela. Ela querendo entrar e vestido não saia do lugar. Estavam pisando no vestido dela (risos), até que ela entrou e aí casamos e estamos felizes até hoje. Quatro filhos e cinco netos e a gente se dá muito bem.
JV - O senhor parou de jogar em 1969. Após encerrar a carreira num jogo contra o Palmeiras pelo campeonato paulista, no dia 3 de maio de 1969, o senhor foi direto atuar como técnico de futebol?
Pepe
- Eu parei com 34 anos eu podia jogar mais, mas eu estava calvo. Ficavam me enchendo o saco porque quando eu jogava bem falavam: “Pepe reviveu suas grandes jornadas” e quando eu jogava mal: “Esta acabado”. Tudo por causa da careca. Nessa época o Zito veio falar comigo, ele era supervisor do Santos, sobre a opção de eu ficar no clube treinando o infantil e iniciaria uma nova carreira. Embora eu pudesse jogar mais ainda, eu estava vendo que tinha o Edu bem novinho e o Abel então resolvi parar. No dia seguinte ao jogo eu comecei a carreira no infantil e juvenil do Santos.
JV - Num dos trabalhos como técnico o senhor dirigiu a seleção peruana. Com foi atuar em outro país?
Pepe
- Um dos dirigentes da Seleção Peruana de Futebol me convidou para comandar a seleção para fazer uma reformulação. Só que o tempo era escasso, cheguei lá e me falaram que iríamos jogar com o Brasil daqui há uma semana. Sem conhecer nenhum atleta e jogar com a seleção brasileira, que tinha Bebeto e Romário, o técnico era o Lazaroni, eu pensava: “estou morto”. Armei um time no melhor que eu pude, fui para Fortaleza, era um ídolo lá, tive que comandar a seleção peruana, ouvir o hino brasileiro e o peruano. Foi uma sensação e emoção muito diferente. Perdi só de 4X1, graças a Deus. A imprensa lá é muito pior que no Brasil. Quando cheguei no aeroporto uma multidão de repórteres me esperando, no dia seguinte saiu uma manchete no jornal: “Chegou o treinador que diz ser ofensivo. Sua primeira providência foi trazer o preparador de goleiros” (risos). Na época não havia treinador de goleiros no Peru. Eu não consegui classificar o Peru para a Copa do Mundo da Itália (1990). Passei cinco meses lá.
JV - A família do senhor sempre o acompanhou nas cidades e países no qual atuou. Como era a adaptação da esposa e dos filhos?
Pepe
- Nesse ponto minha família foi privilegiada. Eu conheço mais de 60 países e minha família conhece uns 20. Foram para Arábia, Peru, Portugal, todo lugar. Se adaptaram bem aos países. A minha filha Clô fez muito sucesso no Peru, foi capa de várias revistas de moda.
JV - Seu filho é técnico do São Vicente AC. O senhor dá muitas dicas para ele?
Pepe
- Dizem que você ensina tudo para a pessoas, menos o pulo do gato. Para o Alexandre, conhecido como Pepinho, eu ensinei o pulo do gato. O Pepinho está preparado, lá no Catar ele foi mais técnico do que eu porque eu combinava com ele para dar treino com bola, de finalização. Ele pegou o São Vicente numa fase difícil e está armando o time. É questão de paciência porque ele realmente tem muita condição. Tenho certeza que o Pepinho vai vencer na carreira.
JV - Estamos em ano de Copa do Mundo. Qual análise o senhor faz da seleção brasileira?
Pepe
- Há muito tempo que o Brasil não é tão favorito. Para mim a seleção argentina pode ser a grande rival. A vantagem é que a copa vai ser na Europa e os jogadores já estão acostumados ao futebol europeu e só faço duas restrições em termos de convocação. Acho que o Mineiro, volante do São Paulo F.C., deveria ter uma oportunidade na seleção. Acho que o Rogério Ceni, também do São Paulo F.C., deveria ser um dos goleiros convocados. O grupo está quase fechado.
JV - O senhor acha que vai haver alguma surpresa na Copa do Mundo?
Pepe
- A Itália é sempre um incógnita, é realmente um adversário que preocupa. Portugal é outro adversário que o Brasil precisa se preocupar. O Felipão sabe motivar os jogadores e conhece a seleção brasileira. Argentina, Itália e Portugal são os adversários mais difíceis caso o Brasil cruze com eles. Argentino e português não teme o Brasil, os outros morrem de medo. O Japão do Zico também pode passar para outra fase da Copa.

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  1. 2 Comentários para “José Macia (Pepe)”

  2. É com muita satisfação ver a vida do Pepe, fui vizinho em SãoVicente e amigo até hoje de José Macia “Pepe”.

    Abraços
    Gabriel

    Por Antonio Gabriel Sierra em dez 19, 2007

  3. Tenho 46 anos.
    Infelizmente só ví o Pepe jogar uma vez na Vila num jogo de veteranos.
    Mas a maneira como batia na bola me impressionou. O movimento da perna me pareceu lento, mas a velocidade com que a bola partia era impressionante.
    Deve-se talvez ao fato de possuir pés pequenos.
    Saudações
    Walter

    Por Walter em dez 27, 2007

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