Personalidades
- junho 28, 2006
Telma Nascimento Tavares
De família simples, Telma Nascimento sempre dedicou-se à educação. Atuou por 10 anos na rede municipal de ensino em São Vicente e aos poucos começou sua carreira como proprietária de uma instituição de ensino da Cidade. Telma se mostrou uma pessoa simples, que lutou muito desde o início para conquistar seus objetivos.
A vida em São Vicente era tranqüila e as três irmãs podiam brincar na rua sem se preocupar com a violência de hoje. É assim que Telma Gomes Nascimento Tavares, diretora do colégio Nascimento, inicia sua trajetória de vida relatada pela coluna Personalidade desta edição.
Telma recebeu a equipe do Jornal Vicentino em seu escritório no colégio, que completa 20 anos em novembro. Com simplicidade e muita simpatia, a diretora contou sobre família, marido, filhos e a vida atribulada de dirigir um colégio que possui 500 alunos. Leia alguns trechos da entrevista.
Jornal Vicentino - A senhora nasceu em Santos, mas viveu a vida inteira em São Vicente. Conte um pouco da sua infância.
Telma Nascimento - Estudei do pré-primário até a oitava série no Raquel de Castro Ferreira com muitos conhecidos em São Vicente. Na época não havia tanto perigo, a gente morava perto do São Vicente A.C. e brincávamos muito na rua. Minha mãe na época era costureira, tinha o tempo bem atribulado, mas eu brincava de boneca, pulava corda na rua. Coisas que hoje a gente não consegue fazer. Tinha mais liberdade. Éramos em três meninas, a gente andava de bicicleta tranqüilamente. A infância foi muito boa. Mesmo na época de escola, o Raquel tinha muitas atividades. Fazíamos educação física no Praia Clube que era do lado. Só nesse ir para a educação física, que era outro período, podíamos brincar eu já tinha vários amigos.
JV - O relacionamento com seus pais foi tranqüilo?
Telma - Meus pais eram muito companheiros. Na adolescência, quando começamos a ir aos bailinhos do Tumiaru, eles sempre iam junto. Na infância eles acompanhavam muito a gente no colégio. Eles faziam parte da APM (Associação de Pais e Mestres), então estavam sempre dentro do colégio acompanhando tudo de perto. Eram muito exigentes, tínhamos que ir muito bem no colégio.
JV - Seu pai era rodeado de mulheres em casa. Como ele lidava com isso?
Telma - Ele sempre paparicou muito a gente. Era complicado porque o pessoal era muito grande, quatro mulheres. As vezes para evitar até que ele falasse não, ele deixava a responsabilidade para a minha mãe. Viver entre quatro mulheres é difícil, é pressão o tempo inteiro (risos). Mas sempre foi tranqüilo, sossegado.
JV - Quando surgiu o interesse pela área da educação?
Telma - Para te falar a verdade eu comecei a fazer no Martim Afonso, setor primário. Foi uma época em que se separou o primário, secundário e terciário. O primário era para área médica, eu achei que tivesse esse dom. Quando fui me aprofundar mais vi que não tinha nada a ver. Fora isso, meus pais tinham uma situação financeira difícil, não iam conseguir pagar uma faculdade na área médica. Aí comecei a procurar saber sobre o magistério e acabei me encantando.
JV - A senhora comentou sobre a dificuldade que seus pais passaram. Como foi a trajetória de vida dos seus pais?
Telma - Meu pai sempre trabalhou na área do comércio. Ele era funcionário de uma loja de sapatos, foi garçom, ajudante de restaurante. Minha mãe cozinhava, fazia bolo para fora e costurava. Depois de um tempo meu pai ganhou uma concorrência do Estado, como trabalhava com comida, ele abriu um restaurante industrial e foi servir presídios. Ficou nesse caminho vinte e poucos anos. Fomos nos estruturando e conseguimos ter uma estabilidade financeira. Quando ele trabalhava na loja, de noite era garçon, tudo para não faltar nada em casa. Sempre tivemos uma vida sossegada, porém com um pouco de dificuldade. Hoje o que dou para os meus filhos eu não tinha.
JV - Apesar de toda dificuldade a senhora não precisou trabalhar?
Telma - Comecei a trabalhar um pouco antes do magistério. Eu era secretária de dentista, foi o meu primeiro emprego. Meu pai falou que eu tinha que sair, senão não conseguiria me dedicar a faculdade. Ele sempre exigiu que nós estudássemos muito porque ele sentiu que a dificuldade dele foi também por não ter estudado. Nem ele nem minha mãe. Só estudando que a gente chega em algum lugar.
JV - Mesmo com o magistério a senhora resolveu ingressar em alguma faculdade?
Telma - Fiz letras na UniSantos na época que eu trabalhava com educação infantil, depois diz pedagogia. Dei aula em alguns colégios do Município (Lions, Monteiro Lobato, Mateo Bei). Trabalhei dez anos na prefeitura, com educação infantil de primeira a quarta e depois quinta a oitava com a faculdade. Nesse período fui convidada para ir ao Japão fazer intercâmbio com os professores da cidade de Naha. Foi em 1987.
JV - Como foi esse intercâmbio num país distante com uma cultura tão diferente?
Telma - É uma experiência fantástica. Crianças de quatro a cinco anos iam para a escola sozinhas já liam o nosso nome do crachá, já mexiam com computador naquela época. No supermercado comprei uma lata achando que era atum, mas era comida de cachorro. Para a gente sair sozinha era complicado, mas a intérprete ficava quase o tempo todo junto. A exigência era muito grande, as vezes nós saíamos à noite, mas de manhã cedo o motorista já estava lá para nos pegar. Almoçávamos junto com os alunos. Eles tinham idéia que o Brasil é muito samba, tive que ensinar a sambar mas sou péssima em samba. Foi muito engraçado.
JV - Depois da experiência no Japão a senhora continuou como professora?
Telma - Me encantei por ser diretora, minha idéia era ser diretora do Município. Conheci muita gente, achei que a direção era um desafio. Fiz pedagogia, mas sempre pensando no Município. Nesse meio tempo apareceu uma chance de comprar uma escola que já existia que era a Casinha de Chocolate, onde nasceu o colégio Nascimento.
JV - Como foi o começo do colégio? Teve ajuda do seus pais?
Telma - A escola era na avenida Antonio Emmerich, 730, hoje é uma loja de carros. Meu pai comprou e deu para as três filhas. Minhas irmãs também fizeram magistério. Eu ficava na direção, a Selma na secretaria e a Joelma dava aula. A Joelma faleceu faz um mês, mas trabalhava com a gente direto. Na época não gostaria de ter escola, porque eu trabalhava no Município, dava algumas aulas no Estado e estava tranqüila. Mas a Selma tinha três filhos pequenos e falava que para trabalhar em outro lugar era difícil. Não entrei convicta de que era isso que eu ia seguir. Ficamos com a educação infantil por nove anos.
JV - Quando se deu a mudança de endereço?
Telma - A proprietária pediu a casa, minha mãe tinha esse terreno aqui (colégio), nisso eu já havia casado. Então construímos um prédio em 1995 e fizemos o ensino fundamental, porque só com a educação infantil o custo ia ficar muito alto. A Selma neste período resolveu morar em Curitiba e eu fiquei sozinha. Tinha acabado de ter filho. Eu falei: Meu Deus! O que eu fiz da minha vida? Com filho, com uma escola maior. Meu marido entrou de sócio, mas ele é engenheiro civil. Ele me ajudava na parte financeira e na parte estrutural. Mas foi indo, pegamos bons professores, bons coordenadores. Fui me identificando e hoje não me vejo fazendo outra coisa.
JV - Como a senhora conheceu o seu marido?
Telma - Foi muito engraçado. Foi na rua, num farol (risos). Eu estava no Itararé, porque nosso passeio de domingo era ficar nas barraquinhas, que hoje são os quiosques. Eu tinha 22 anos, ele (Marco) estava passeando pela praia e parou no farol, aquela coisa de paquerar. Conversamos, marcamos de encontrar no outro dia e ficamos amigos por um período. Mas muito amigo é um problema! Aí rolou paixão mesmo. Ficamos cinco anos namorando e depois casamos. Foi questão de afinidade, é questão de destino mesmo. Porque já tinha sido até noiva com uma pessoa de São Vicente. Ele morava em Santos, não tinha nada a ver com a minha vida aqui (São Vicente).
JV - Como é o relacionamento de vocês no trabalho?
Telma - Quando ele veio para cá eu fiquei muito preocupada. Sou um pouco líder demais, fiquei preocupada que ele interferisse nisso. Mas conseguimos dividir muito bem as funções. A parte pedagógica eu faço sozinha, agora já a parte de estrutura do prédio e reforma ele que cuida. Mas eu dou aspectos pedagógicos para ele poder fazer. Nós separamos as funções por isso que dá certo. Tinha a preocupação de ficar um desgaste, ficar o dia inteira aqui e depois em casa. Estamos juntos há muito tempo, já está há bastante tempo no colégio e não temos problema nenhum. Graças a Deus.
JV - Quantos filhos a senhora tem?
Telma - Tenho dois filhos, o Bruno de onze anos, e o Pedro de oito anos. Nós queríamos quatro filhos, mas com a rotina do colégio e o falecimento da minha mãe não conseguiria sozinha dar conta de mais dois. Deus sabe de todas as coisas mesmo, porque a minha irmã que faleceu há um mês tem filhos. Agora vou ajudar na criação deles.
JV - Seus filhos estudam no colégio no qual é diretora. A senhora consegue lidar com eles sendo mãe e ao mesmo tempo diretora?
Telma - Acho muito difícil porque a gente cobra muito, eles ficam o dia inteiro no colégio. Mesmo eu sabendo que eles não têm a obrigação de ser o exemplo, eu quero que eles sejam. Eles nunca podem estar sem uniforme, nunca podem participar de concurso. Em algumas coisas eles são cobrados demais e em alguma coisa eu noto que eles são excluídos. Ajudo na lição de casa, nos trabalhos, porque não quero que falte nada. Consigo conciliar muito bem isso. Tenho um pouco de pena porque a cobrança em cima deles é muito grande. Sempre trago na cabeça deles, vocês aqui dentro são alunos como os outros.
JV - A senhora acreditava que o colégio ia crescer tanto?
Telma - Não. A minha idéia sempre foi educação infantil, não tinha essa idéia nem essa ambição. Quando nós viemos para cá, que construimos um prédio relativamente grande, nós ficamos preocupados da educação infantil não suprir a parte financeira de todo o investimento, todo custo. Aí abrimos de primeira a quarta série, conseqüência abrimos de quinta a oitava série. Agora o ensino médio eu lutei uns dois ou três anos para colocar. Sinceramente eu não esperava.
JV - A senhora pretende ampliar a escola?
Telma - Meu ideal é ficar com 570 alunos, porque quero uma escola que você conheça os alunos e os pais, que você tenha esse contato. Eu não sei o dia de amanhã, porque eu também não queria o ensino médio e estou com o ensino médio. Hoje eu gosto dessa família, dessa coisa mais tranqüila no sentido de saber que o aluno está com um comportamento diferente porque os pais se separaram. Acho que 600 a 700 alunos é o limite para você conseguir fazer um trabalho ainda familiar.
JV - O que representa o colégio para a Vila São Jorge?
Telma - Acho que a Vila São Jorge era um bairro mais calmo, mas ele significa um crescimento e a chance deles (moradores) terem uma boa educação. O Município também dá uma boa educação, eu sei porque já trabalhei em escolas públicas, porém a escola particular te dá um outro tipo de educação em questão de curso de informática, com mais aulas. Então, isso foi uma chance para a Vila São Jorge e o próprio bairro crescer. Você vê hoje casas sendo reformadas. Veio o banco, que já melhora o bairro, lojas de material de construção que vieram para cá. Tudo serve para acrescentar.
JV - A senhora é evangélica. Seus filhos e marido também são?
Telma- Meu filho é batizado na Igreja Católica, acho que é uma opção deles quando crescerem. Meu marido é católico. Religião não tem que ser imposta pelos pais, tem que ser uma opção deles. Meu filho resolveu fazer catecismo, então ele vai fazer. Se tiver que ir à missa com ele eu vou. Não posso privar meu filho, é ele quem vai definir. Não adianta nada coloca-lo na igreja agora e depois mais para frente ele ficar revoltado porque o obriguei. Nesse ponto sou assim. Temos um relacionamento bom nesse sentido de cada um respeitar o espaço do outro. Esse limite existe aqui e em casa.





3 Comentários para “Telma Nascimento Tavares”
Ela é a diretora do meu colégio
Por Pamela em set 8, 2007
bom telma eu tenho duas filhas que estudam na sua escola!
elas são muito espertas, graças ao seu ensino!
muito obrigada pela dedicação a nossas crianças, agradeço desde agora por mim e todas as outras mães!!
obrigada
Por alessandra ramos silva achado em nov 19, 2007
parabens o jornal de vcs são muito bom
Por ana carla em nov 28, 2007