Antonio Soares

carioca 002x.jpgCom simpatia, alegria e muita hospitalidade Antonio Soares da Costa, um dos sócios do Café Carioca, recebeu a equipe do Jornal Vicentino e contou um pouco sobre sua vida, como é administrar um dos estabelecimentos mais
antigos de Santos, e o legado que os antigos donos deixaram. Confira.

Nascido em Santos, no bairro do Macuco, Soares conta que tem boas recordações da sua infância na qual brincava na rua de terra e subia nas árvores para ver o bonde passar. De família humilde, o proprietário do Café Carioca fez curso técnico no Escolástica Rosa e trabalhou por 28 anos no Porto de Santos.
Desde 1999 dirigindo com mais três sócios o estabelecimento que foi de seu sogro, Soares conta a história de um dos estabelecimentos mais conhecidos e antigos da Cidade.
O comerciante contou também histórias engraçadas e comentou sobre os freqüentadores ilustres que pisaram no Café Carioca, como Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Mário Covas, Nuno Leal Maia, entre outros.
Soares se emocionou ao falar do sogro, já falecido, o qual considerava como seu segundo pai. Durante a entrevista o comerciante falou sobre família, filhos, netos e a felicidade em administrar um estabelecimento que já faz parte da cultura do cidadão santista e é conhecido nacionalmente.
Jornal Vicentino - O senhor nasceu em Santos, no bairro do Macuco. Como foi sua infância?
Soares
- Nasci mais precisamente na rua 28 de setembro, perto da estrada de ferro Sorocabana. Sou eu e um irmão (Elias). Tenho muita saudade da minha infância. Meu pai era portuário, trabalhou 32 anos na turma das Docas. Nós vivíamos naquela época com sacrifício, mas remediados e tínhamos tudo Graças a Deus. Tenho muita saudade da rua de terra, das bolinhas de gude, das pipas, do campo do União. Me dá muita saudade aquela avenida Rodrigues Alves super arborizada. Em frente a Igreja São José, onde por vezes passava-se as tardes comendo Ingá e o bonde cinco passando por baixo.
JV - O senhor estudou no Colégio Cidade de Santos. Como foi a época escolar?
Soares
- Fiz o primário no Colégio Cidade de Santos na Rodrigues Alves entre a Nabuco de Araújo e a Torres Homem. A atividade que estou no momento me proporciona isso, encontro amigos daquela época, onde trocamos lembranças como o nome da professora, da diretora. É muito gratificante mesmo. De lá fui para o Escolástica Rosa, fiz o ginásio. Fiz também o curso de torneiro mecânico e frisador e é uma escola que até hoje deveria existir e dar continuidade com o objetivo do seu fundador, de ter cursos profissionalizantes. Sai de lá em 1966.
JV - O senhor chegou a trabalhar como torneio mecânico?
Soares
- Não cheguei a exercer a profissão, mas foi fundamental na minha vida para muitas coisas. Naquela época você percorria todas as oficinas e na que você tinha melhor aproveitamento você cursava três anos.
JV - Como e quando o senhor conheceu sua esposa?
Soares
- Uma coisa muito gostosa e bonita que aconteceu na minha vida e vem justificar onde estou agora é que casei com a minha primeira namorada, meu primeiro flerte. Nós tínhamos 14 anos, eu estava ainda no Colégio Escolástica Rosa e o Padre Paulo Hourneaux de Moura (foi professor de religião) foi um dos que muito me puxou a orelha nesse namoro com a Beatriz. Ela é filha de comerciante. Naquele tempo não se misturava, os meninos de manhã e as meninas à tarde. A parte de oficina nós fazíamos à tarde, então aí paquerava-se um pouquinho (risos).
JV - Ao concluir o curso técnico o senhor foi estudar o ensino médio (antigo segundo grau) na Escola Estadual Dona Luiza Macuco mas foi convocado pelo Exército Brasileiro. Quanto tempo ficou lá?
Soares
- No início do primeiro ano fui para o Exército, servi no 2º Batalhão de Caçadores (atual Batalhão de Infantaria Leve) em São Vicente. Fiquei lá por oito meses, saí na primeira baixa. Saindo de lá eu prestei concurso na Refinaria (Presidentes Bernardes) fiz os testes todos e fui reprovado no psicotécnico. Foi uma frustração muito grande.
JV - O senhor prestou concurso e entrou na Companhia Docas de Santos (atual Codesp) e a União Carbide (empresa petroquímica) também o chamou. Como seu deu a opção por trabalha na Docas?
Soares
- Optei pela Companhia Docas pois morava no Macuco, estava perto. Era filho de portuário e onde passei exatamente 28 anos lá. Entrei no dia 15 de setembro de 1969 e saí no dia 9 de outubro de 1997. Nesse período de Companhia Docas angariei muitas amizades, aprendi muita coisa. Fui funcionário do departamento de operações. Trabalhei na Ilha Barnabé até 1972. Nesse ano fui para o escritório do tráfego onde fiquei até 1980, pertencia ao setor de atracação. Sai desse setor, voltei para o cais onde vim administrar armazéns. Foi uma época muito boa da minha vida.
JV - O senhor afirma que seu sogro (Manoel Gomes Mineiro) foi um segundo pai e foi tudo na sua vida. Conte resumidamente a história dele.
Soares
- Veio de Portugal com 12 anos. O pai dele pegou-o pelo braço e o levou numa padaria no canal 1 com a avenida Francisco Glicério. Ali o meu sogro começou a vida no comércio. Trabalhou no Parque Balneário Hotel, teve vários estabelecimentos. Quando cheguei na família com quase 14 anos, ele era dono do Saci, em frente a Alfândega. Em 1973 ele foi convidado para vir para o Café Carioca. Foi convidado por Serafim de Almeida Rato, que hoje é o sócio mais antigo e está com 92 anos. Meu sogro ficou até o começo da década de 1990. A partir de 1999 eu vim para cá, assumir o lugar dele, dando continuidade.
JV - Para dar continuidade ao estabelecimento o senhor deveria ser muito respeitado pelo seu sogro e vice-versa. O que ele representou para o senhor profissionalmente?
Soares
- Numa determinada época associei o trabalho nas Docas com o pequeno comércio. Foi aonde eu comecei a ter as primeiras aulas prática, porque até aí eu acompanhava o meu sogro. Comercialmente para mim foi um livro, uma academia. Meu sogro foi meu espelho no comércio e a gente procura manter esse negócio.
JV - Como é dar continuidade ao estabelecimento que seu sogro administrou por muitos anos?
Soares
- Graças a Deus é uma coisa, não sei se vivi naquele meio ou já estava no sangue, não sei explicar. Só sei que para mim o Café Carioca é assim como um caso de amor (risos). Por isso se deve ao fato do sucesso e para os outros sócios anteriores também significou um caso de amor. Porque aqui não basta você ter conhecimento, ter vontade, você tem que gostar. Aí você vai para frente e vence.
JV - O senhor é casado há 36 anos e essa união rendeu três filhos e cinco netos. Fale um pouco sobre eles.
Soares
- A neta mais velha vai fazer 15 anos. A filha mais velha (Andrea) atualmente reside em São Bernardo. Meu genro, que considero um filho, tem um comércio de roupas. A outra minha filha do meio (Giseli) é casada com um gerente de banco, trabalha numa empresa do Porto e faz faculdade de Comércio Exterior e tem duas filhas. O Marcelo também é gerente e me parece que vem surgindo como um sucessor. Até fico emocionado, ele já nos substitui por vezes, mas vamos ver se conseguimos deixar um sucessor.
JV - O Café Carioca é conhecido como reduto de políticos da região e do Brasil. Ainda continua sendo uma espécie de “Senadinho”?
Soares
- Ele (Café Carioca) já vem por muito tempo sendo apontado como um Senadinho, em épocas anteriores mais assiduamente. Costuma-se dizer que as sessões da Câmara, os primeiros alinhavos são feitos aqui para depois levar para lá e continua assim. Vereadores atuais, ex-vereadores frequentam bastante aqui. Vou citar primeiro aquelas da qual sou testemunha viva: Lula, Mario Covas, Franco Montoro, Severo Gomes, Ciro Gomes, Jânio Quadros. Agora os que não são da minha época foram Getúlio Vargas, Eurico Gaspar Dutra, João Goulart isso nós temos tudo anotado. Dentre os famosos, Mario Covas é um dos mais lembrados.
JV - O senhor deve ter várias histórias engraçadas presenciadas no Café Carioca para contar. Conte alguma.
Soares
- O Zito também vem aqui. Uma vez ele me corrigiu, porque eu falei para ele que, quando ainda era criança, lembrei do Santos perder para o Jabaquara por 3×2 com um gol de Cabrita do Jabaquara. Ele disse: “3X2 não senhor, foi 4X2 que nós perdemos” (risos).
JV - Qual a origem do nome Café Carioca?
Soares
- O filho de Manoel de Paiva Fernandes, Wilson de Paiva, diz que foi a versão do tio, mas há quem diga que foi o pessoal do cais que deu origem. Na época da fundação, existia uma equipe de técnicos cariocas fazendo serviços aqui no Porto de Santos. Então o pessoal daqui costumava dizer “vamos com os cariocas tomar café”, está aí uma das origens do nome que tem sentido. A outra, seu Manoel quando veio de Portugal um dos irmãos ficou no Rio de Janeiro, para se referir ao irmão dizia: “Meu irmão carioca”, são as duas versões para serem confirmadas.
JV - Quando o estabelecimento passou a funcionar no atual endereço?
Soares
- Ficou até o tempo da 2ª Guerra Mundial. Naquele tempo funcionava telefônica. Em 1945 a telefônica saiu e o proprietário do imóvel ofereceu através de carta para o seu Manoel Fernandes. Na época, também através de carta, ele conta como se comunicou. Eles tinham receio, mas era a única saída que eles viam. O Café Carioca veio para a esquina da praça Mauá em 1945 e permanece até hoje.
JV - Um dos sócios ainda é remanescente do tempo da fundação?
Soares
- Ainda temos um sócio dessa época, é o seu Serafim de Almeida Rato. Na realidade seu Manoel de Paiva Fernandez ficou algum tempo depois vendeu o Café Carioca, mas não ficou seis meses sem o estabelecimento. Ele encontrou na cidade (Centro) seu Serafim de Almeida Rato e seu Arlindo Quaresma, e estavam tramando para abrirem um outro negócio. Aí o Manoel sugeriu comprar de novo o Café Carioca. Voltaram para cá. Montaram a sociedade com Manoel de Paiva Fernandes, Serafim de Almeida Rato, Arlindo Quaresma e depois veio o seu Maneira.
JV - Houve mudanças nessa sociedade?
Soares
- Em 1973 saiu o seu Maneira e entrou o meu sogro Manoel Gomes Mineiro, saiu também seu Manoel de Paiva Fernandes e entrou o Pepe, José Rodrigues. A última mudança foi nos anos 1980, quando veio o sobrinho do Pepe. Até 1973 sempre foi administrada por portugueses. Nos anos 1980 veio o Marcos Gregório substituindo o Arlindo. Hoje a casa é dirigida por dois espanhóis, um português e eu descendente de portugueses.
JV - O senhor foi protagonista de um comercial para uma empresa de telefonia celular. Como foi participar de uma propaganda?
Soares
- Foi muito gratificante para mim, foi sensacional. A agência filmou com o Picuruta na praia e esteve no Café Carioca. Eu tenho aquele jeito quando entro na charutaria (caixa), ali eu me transformo, perco a timidez. Um dos rapazes que estava fazendo essa pesquisa, começou a me filmar atendendo os fregueses e aquelas palavras que eu falo. Isso chamou a atenção deles e no final ficou entre eu e o Picuruta e eu levei a melhor fazendo o comercial em Santos. Foi a única vez que o Café Carioca abriu aos domingos. O filme passou no Brasil inteiro.
JV- Por iniciativa do vereador Benedito Furtado (PSB) foi feita a proposta, que foi aprovada por unanimidade, à Câmara de homenagear os 66 anos do Café Carioca. A solenidade foi muito marcante?
Soares
- O Café Carioca foi homenageado pelos seus 66 anos em 24 de novembro de 2005 na Câmara Municipal de Santos e foi um ato dos nossos governantes da Cidade que muito nos lisongeou. Veio premiar essa nossa luta, nossos anos de trabalho. Incluo aqui desde a época dos nossos fundadores. Foi uma festa muito bonita e que foi uma recompensa desses anos de luta.

Deixe seu Comentário