Picuruta

picuruta 002.jpgAlexandre Salazar Junior, mais conhecido como Picuruta, é considerado uma lenda viva do surfe no Brasil. Recordista de título no País no estilo longboard, foi nove vezes campeão, Picuruta concedeu entrevista ao Jornal Vicentino e contou sobre o esporte, família e as perspectivas para o futuro.

A paixão pelo surfe começou desde pequeno por influência dos irmãos mais velhos. Salazar chegava a pular o muro da escola para ficar surfando o dia inteiro na praia do José Menino em Santos, Cidade onde nasceu.
De família humilde Picuruta revelou que o início foi extremamente difícil, mas com força de vontade e muita determinação venceu os desafios. O atleta veio a se tornar o maior vencedor de campeonatos no País e o primeiro surfista profissional a passar dos 40 anos de idade vivendo exclusivamente do esporte.
Como profissional o atleta viajou o mundo e conquistou fama internacional. Ele revelou que a maior emoção que o surfe lhe proporcionou foi a conquista do campeonato mundial de long profissional (pranchão) no Isa Games em Lisboa, Portugal, na qual ofereceu para seu irmão Lequinho, já falecido.
Casado, pai de três filhos, Picuruta contou que a família dá o respaldo que precisa para competir e afirmou que a educação é fundamental para o desenvolvimento dos filhos.
Durante a entrevista Picuruta falou sobre a escolinha que mantém há nove anos no Emissário Submarino, em Santos, e sobre a emoção de surfar na pororoca por 22 minutos. Confira a entrevista.
Jornal Vicentino - Quando se deu o contato com o surfe?
Picuruta Salazar
- Comecei a surfar em 1968, com oito anos de idade com o meu irmão mais velho o Lequinho já falecido. Ele foi o precursor da família Salazar no mundo do surfe.
JV - Seu irmão mais velho Lequinho também jogou futebol antes de iniciar no surfe. Como se deu a troca do futebol pelo surfe?
Picuruta
- Ele (Lequinho) era jogador de futebol e muita gente gosta de jogar bola na praia por ser um lugar que facilita muito. Nas horas vagas ele ia pegar onda com pranchas emprestadas, até que acabou pegando gosto pelo esporte e nunca mais parou. Chegou a jogar no profissional da Portuguesa (Santista), no dente de leite do Santos (Futebol Clube). Inclusive recebeu uma proposta para fazer um teste no Fluminense, mas no dia do teste ele não apareceu, foi pegar onda no Rio de Janeiro e aí abandonou de vez a carreira de jogador.
JV - Você começou surfando na praia do José Menino. Como era surfar no local naquela época?
Picuruta
- A gente surfava no Canal 1, ficava no canal  esperando alguém sair da água e emprestar uma prancha para surfar um pouquinho. Já que a gente não tinha prancha e condições financeiras de ter uma.
JV - Em qual colégio estudou e como foi sua vida nessa época?
Picuruta
- Cheguei a estudar em vários colégios, fui pulando de escola em escola. Eu não era e nunca fui um bom aluno. Aprontava tanto, eu queria tanto me dedicar ao surfe que acabei largando o estudo muito cedo. Até que meu pai acabou se conformando e viu que realmente era o surfe que queria. Só que ele (pai) falou para mim: “se é isso que você quer fazer, faça bem feito para não se arrepender no futuro”.”
JV - Você chegou a trabalhar e surfar?
Picuruta
- Não. Eu era muito novo, vivia do meu pai. Apesar de ser de uma classe muito humilde ainda tinha condições. Ele (pai) trabalhava na Casa Neto de Automóvies, que era representante da Chevrolet. Eu tinha 12 anos de idade, estava indo na escola mas não era frequente. As vezes eu pulava o muro saia da escola para ir para praia. Passava o dia inteiro na praia.
JV - Quando você começou a se destacar no mundo do surfe?
Picuruta
- Foi em 1972, no Canal 1, no campeonato santista onde eu corri pela primeira vez e fiquei em segundo lugar. Perdi para um dos melhores surfistas da época chamado Catatau. Esse segundo lugar acabou me dando um gosto tremendo o qual eu me dediquei de corpo e alma.
JV - Qual foi o campeonato que mais te marcou?
Picuruta
- O campeonato mundial em 1998 em Portugal. Foi um campeonato que eu ganhei em homenagem ao Lequinho depois que ele faleceu. Estava passando por uma fase meio ruim de ter perdido o meu irmão e meu sonho era ganhar um campeonato em homenagem a ele. Ganhei e para mim foi um alívio.
JV - Você conquistou 152 títulos de primeiro lugar no Brasil e no exterior e ainda continua competindo. Como foi a sua mais recente conquista no Japão?
Picuruta
- Sai daqui e fui ganhar um campeonato do outro lado do mundo aos 45 anos de idade. Não é uma coisa realmente fácil porque hoje no mundo do surfe a competição é grande. Não só no surfe como em qualquer esporte. A nova geração está vindo aí muito forte, mas isso não me impressiona e a experiência as vezes conta muito numa competição.
JV - Como é a sua relação com filhos e o surfe?
Picuruta
- É bem engraçado. Tenho um filho (Caio) de 20 anos de idade que pega onda só por prazer, não gosta de competir. Tanto que seguiu uma outra área, é DJ em Santos. Tem o Leco que é surfista de alma, compete e viaja comigo para algumas etapas do mundial. Tenho o Mateus, de 13 anos, o qual corre todos os campeonatos da categoria dele (iniciante).
JV - Qual o papel da esposa nessa trajetória?
Picuruta
- Ela dá bastante estrutura. Acho fundamental você ter uma pessoa por trás te apoiando. Se você, seja em qualquer esporte ou qualquer profissão, não tiver uma mulher que te apóie pode ter certeza que a sua carreira não vai para frente. As vezes serve não só como apoio mas como empresária.
JV - Seu pai apostou muito na sua carreira no mundo do surfe?
Picuruta
- Apostou. Tanto que meu pai foi fundamental na minha carreira e dos meus irmãos. Todos os campeonatos que a gente ia, ele estava lá brigando com o juiz. Arrumava patrocínio. Na época só existiam dois jornais na região, a gente se dava bem num campeonato fora de Santos ele escrevia uma linhazinha, levava no jornal e chegava a ficar duas a três horas para ser atendido para sair numa coluninha. As vezes saia na coluna policial.
JV - Você é casado há 20 anos. Como você conheceu sua esposa?
Picuruta
- Conheci minha esposa na praia de Pernambuco, no Guarujá. Estava pegando onda com um amigo meu. Dei uma carona para ela e uma amiga que estavam na estrada. Conheci e depois de um ano já estava casando. Estava no auge da minha carreira seguindo o circuito mundial profissional de pranchinha. Tanto que quando meu primeiro filho nasceu eu estava disputando um campeonato na África. Quase que não vi o segundo e o terceiro nascerem, porque vivia viajando.
JV - Você mesmo contou que não se dedicou ao estudo. Você procura incentivar seus filhos ?
Picuruta
- Hoje a gente procura fazer diferente. Procuro dar um conselho para que eles realmente estudem. Porque, atualmente, é mais importante o estudo do que o próprio esporte. Hoje o esporte pode vir paralelamente, porque é importante você ter um diploma como garantia na carreira de qualquer atleta.
JV - Você mantém uma escola de surfe no Emissário Submarino há nove anos. Como se deu a instalação da escola no local?
Picuruta
- Essa escola surgiu quando o prefeito Beto Mansur entrou. Eu tinha um sonho a realizar que era ter uma escolinha própria. Cheguei nele e falei que queria ter um espaço meu em cima do Emissário Submarino e foi onde realmente comecei a despontar na carreira. O quebra mar passou a ser conhecido através do Picuruta e da família Salazar. Ele liberou um espaço, de lá para cá já passaram muitos atletas e hoje ainda trabalho com várias crianças carentes e adultos que realmente tenham interesse de praticar ou aprender o surfe.
JV - Desses alunos, alguns despontaram para o surfe?
Picuruta
- Só para você ter uma noção, hoje o Sininho, o Cássio e o Anderson Serrano, são três atletas que saíram da minha escolinha que já estão no Circuito Brasileiro e disputando o Mundial. O Sininho está fazendo um filme na Costa Rica, O Cássio está na Austrália e o Anderson Serrano vai competir na Bahia. Para nós é um orgulho sabermos que realmente aqueles que se dedicam conseguem conquistar o sonho deles. Ser um grande surfista e ter grandes patrocínios.
JV - Como você analisa o surfe hoje em relação ao praticado antigamente?
Picuruta
- Era muito marginalizado. Era uma vergonha para um pai e uma mãe falar que tinha um filho surfista. O esporte era ligado diretamente às drogas. A gente diz na nossa gíria que nem todo surfista é maconheiro e nem todo maconheiro é surfista, mas você acaba levando a culpa por estar na praia. Hoje eu venci e ganho dinheiro fazendo aquilo que eu gosto. Me dediquei e superei as dificuldades para fazer o que faço que é pegar onda e ganhar dinheiro. Todo surfista que quer se dedicar e ter uma carreira longa tem que ser uma pessoa dedicada, tem que ser um atleta. Só assim você vai conseguir mostrar que você superou as dificuldades.
JV - Como foi surfar na pororoca (fenômeno que ocorre da foz de alguns rios que forma uma onda que sobe o rio)?
Picuruta
- Fui cinco vezes lá. Fiz um filme onde passou no (canal pago) National Geographic. Surfei uma onde de 45 minutos e essa onda vai entrar no livro dos recordes (Guinnes Book). Foi uma emoção muito grande poder surfar dentro de um rio por 12 quilômetros.
JV - Você acha que o Brasil tem potencial para despontar no cenário mundial do surfe?
Picuruta
- Hoje nós temos excelentes surfistas, mas acho que nós ainda não estamos preparados para sermos campeões mundiais perante aos gringos. Acho que precisa de mais dedicação e seriedade, não é só o dinheiro que vai fazer a diferença. Essa nova geração está deixando muito a desejar e estão ganhando as coisas muito fáceis e isso faz com que eles não se dediquem seriamente. Isso me preocupa um pouco.
JV - Você já surfou praticamente no mundo inteiro. Qual é o melhor local para praticar o surfe?
Picuruta
- Desses 18 anos que corro o circuito mundial o Havaí é considerado o melhor lugar. Pelo tamanho das ondas, a perfeição e é praticamente uma prova. Se você surfar no Havaí você é um surfista completo. Alí você mostra que está preparado para qualquer tipo de onda porque as ondas são muito grandes.
JV - Quais são seus planos para o futuro?
Picuruta
- Continuo competindo ainda, quem toma conta da escola é a minha mulher. Pretendo, quem sabe, daqui há uns três anos parar de competir e me dedicar somente à minha escola, ou a própria fábrica de prancha. Abrir uma loja, já que eu tenho vários projetos por fora. No momento só estou pegando onda, no momento não me preocupo muito com outras coisas se não você acaba embolando um pouco a sua cabeça e não sabe o que fazer. Como estou no auge disputando campeonatos mundial e brasileiro, estou tentando o meu décimo título brasileiro.

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  1. 1 Comentário para “Picuruta”

  2. Gostei muito desta matéria,ainda mais porque sou amigo de juventude do gato-Picuruta e posso dizer que aprendi muito do surf com ele.Parabens jornal vicentino,um abraço, valeu.

    Por Anselmo MOrelli em nov 2, 2006

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