Nossa Cidade
- agosto 24, 2006
Esculturas interativas encarnam figuras da cidade para uma conversa na Praça Barão

Walter da Banca e Toninho Campos vivem. Na memória dos que os conheceram e amaram e, agora, no coração da Cidade. Falecidos recentemente, estes dois reconhecidos comerciantes, grandes figuras humanas, conversam, desde ontem, na Praça Barão do Rio Branco, onde tiveram, por muitos anos, uma banca de jornais e um restaurante. “Dobradinha” inesquecível, eles serão representados em duas esculturas, de tamanho natural, assinadas por Daniel Gonzalez.
A idéia, do prefeito Tércio Garcia, é fazer uma série de trabalhos no gênero para valorizar personagens de São Vicente. “Além da contribuição profissional que a pessoa deixou, queremos registrar a marca afetiva delas, que é o que forma o verdadeiro espírito das cidades. Esta fica para sempre na alma de um lugar”.
Inédita na Região, a iniciativa vai permitir, mais que a exposição de figuras queridas, que parecem bater um gostoso papo, a interação também de quem passa pela praça. O local deve virar ponto turístico, ideal para tirar fotos com “nossos amigos”, que fizeram parte do cotidiano da municipalidade. “A Cidade irá eternizar o cidadão comum, que no fundo é o nosso herói”, diz o escultor Daniel Gonzalez.
Os retratos escultóricos foram feitos com base em material fotográfico e depoimentos dos familiares e amigos. São de fibra de vidro laqueado, material com grande poder de registrar formas e ideal para exposição pública, pois não corrói. As esculturas, que levaram de 3 a 4 meses para ficarem prontas, medem 1,70 m cada.
Gonzalez conta que esculturas interativas fazem sucesso no mundo inteiro. Ele lembra que no livro Incidente em Antares, o escritor Érico Veríssimo criou a imagem de uma cidade onde os mortos passam a interagir com os vivos. “É uma obra de realismo fantástico que nos leva a pensar sobre a permanência efetiva dos mortos em nossas vidas, o que filosoficamente amplia muito o significado da vida humana”.
O projeto das esculturas interativas é da Secretaria de Turismo e Cultura (Setuc), com realização da Codesavi.
Corintiano roxo, festeiro, bem-humorado, muito exigente e trabalhador. Assim era o “condutor da notícia” Walter Martins, o Walter da Banca. Falecido em 2002, atuava como jornaleiro desde 1945 na Praça Barão do Rio Branco, em São Vicente. Tinha, então, 17 anos. Nasceu em Santos, em 15 de outubro de 1928. Mas tinha paixão por São Vicente. Morou na Cidade até morrer. Casou com Neide Hidalgo Martins e teve cinco filhos, todos vicentinos. São quatro mulheres e um homem, Walter Manoel Martins, que acompanhava o pai no trabalho desde os oito anos.
Lembra claramente dos conselhos dele: “Para ser um bom jornaleiro é preciso ser alegre divertido, mas atender bem, sendo respeitador”. Walter Manoel diz que o único vício do pai era esporte, principalmente futebol. Na segunda-feira, depois de algum clássico em que o Corinthians jogasse, a banca ficava cheia, pois os amigos vinham brincar com ele, que “pegava corda” se o time tivesse perdido”. Walter da Banca foi sócio-fundador do Boca Juniors de São Vicente e ex-técnico do Beija-Flor Futebol Clube. Também adorava jogar damas.
Dançar e festejar, especialmente no Carnaval, era com ele mesmo. Walter Manoel conta que as festas que dava duravam às vezes dois dias. “Gostava de comemorar. Podia ser o time que ganhou, o aniversário da minha irmã… Seu sonho era celebrar com minha mãe, os filhos e os dez netos uma grande festa de 50 anos de casado, mas não deu. Na data, 19 de abril de 2002, ele estava no hospital. Dia 25, faleceu”.
Outra paixão de Walter da Banca era o trabalho. “A banca é a história de minha vida”, chegou a declarar. Foi homenageado pela Editora Abril como “o jornaleiro dos mais antigos da Cidade” e recebeu o Troféu Calunga, pelo destaque como comerciante. Ganhou a visita ilustre de Antônio Ermírio de Moraes, em passagem por São Vicente.
Walter Manoel afirma que chegaram a ter uma rede de aproximadamente 40 bancas, em São Vicente e Praia Grande. Mas tornou-se muito cansativo e acabaram ficando somente com a da Praça Barão, onde tiveram experiências marcantes. Walter recorda-se de um episódio ocorrido quando tinha 15 anos. “Foi dia de vento fortíssimo. A banca era de alumínio leve. Meu pai e os clientes segurando a banca para não voar, revistas para todo lado e, eu, me agarrando a uma árvore, com medo de voar também”, ri.
Presença cativa e cativante do local, Walter da Banca passava tanto tempo no lugar que ouvia sempre a brincadeira da mulher: “Quando você morrer, vai ficar naquela praça”. Profecia concretizada, a homenagem das esculturas deixou a família agradecida e feliz.
Antônio de Campos, o Toninho Campos, alimentou por anos o corpo e a amizade de muitos vicentinos. Seu bar e restaurante, na Praça Barão, foi ponto de encontro de gerações, classes e categorias. Era a família vicentina sentada à mesa. Além de atender, gostava de cozinhar e sua marca registrada era o avental.
Casado com Neyde, teve três filhos – Edna, Eloísa e António Eduardo. Eles lembram que Toninho, sempre sorridente, era alguém disposto a ajudar as pessoas sem esperar nada em troca. “Quando fazia curso de normalista, ajudava desabrigados e, estando numa escola de bairro, escuto minhas amigas comentando que meu pai estava chegando. Disse ser impossível porque era hora do almoço e ele estaria no restaurante. Mas, qual a surpresa, era meu pai mesmo, com nossa perua cheia de comida para os desabrigados. Estava muito feliz e falante, pois adorava ajudar os desafortunados”, orgulha-se Eloísa.
Caçula de quatro irmãos, Toninho nasceu em São Paulo, a 22 de agosto de 1933. Chegou ao litoral aos 6 anos, trazido pelos pais portugueses, que abriram um pequeno bar no Itararé. Pouco depois, o estabelecimento foi transferido para a Praça Barão, onde permaneceu até um pouco depois de sua morte, em 5 de março de 2002. A família recorda que Toninho passou a ajudar a mãe no bar depois que o pai faleceu.. Quando ela também morreu, assumiu o controle do lugar.
Eloísa diz que Toninho Campos passou a adolescência nadando na Praia do Gonzaguinha. “Ele partia corações, com a pele bronzeada e o corpo sarado”.
A filha conta que apesar de trabalhar em bar desde jovem, a única vez que bebia um gole era quando desfilava no Baianas Sem Tabuleiro, para ter coragem de se vestir como mulher, mesmo com o enorme bigode.
Seu grande hobbie foi o Clube Beira Mar, onde exerceu os cargos de presidente e vice, sempre lutando para elevar o nome e aumentar o patrimônio da agremiação.
Como pai, Eloisa, Antonio e Edna dizem que ele era “fora de série”, com eles e os sete netos, nunca deixando faltar nada. O pitoresco era que vivia presenteando os filhos com carros, mas estava sempre a pé porque tinha medo de dirigir. Certa vez, tomando aulas de direção com o instrutor “Cobrinha”, disse: “Vou parar, eles estão vindo para cima de mim”, referindo-se a automóveis que trafegavam na mão oposta, e depois não quis mais saber de dirigir.
Ganhou medalha de honra ao mérito quando serviu o Exército por ter salvo um homem que se afogava na Praia do Gonzaguinha. No início da década de 1980, foi homenageado pela Câmara com o título de Cidadão Vicentino.
O artista Daniel Leandro Gonzalez conta com cerca de 40 obras públicas, no Brasil e Exterior. Expôs sua primeira obra pública em 1977, em São Vicente, quando inicia seu trabalho como escultor. Trabalha com fibra de vidro, bronze, granitina, resina, pedra-sabão. É também ceramista. Já expôs com profissionais de renome como Carlos Kis, Marco Rossi, Tomie Othake, Darci Penteado, Cláudio Tozzi, entre outros. Em 2002, ingressa no seleto grupo de escultores que expõem na Galeria André (SP). Nascido em 1956 na cidade de Campinas, é radicado na Baixada. Formado em Filosofia pela UniSantos, foi professor da disciplina de 1987 a 1998. Aprendeu Anatomia na Universidade de La Plata, na Argentina, de 1974 a 1976. Entre suas obras estão Monumento a Pelé, no Santos Futebol Clube (1992); José Bonifácio (1994), em Havana, Cuba; Mulheres de Areia, na Praia dos Sonhos, em Itanhaém (1995), bem como para a TV Globo (1993), no Rio de Janeiro; A Fonte de Netuno, no Shopping Praiamar (2002), em Santos. Só em São Vicente ele assina nove obras: O Menino (1977), Ilha Porchat; Leão (1981), Ilha Porchat; São Judas Tadeu (1989), Ilha Porchat Clube; Martim Afonso de Sousa (1990), Ilha Porchat Clube; Duque de Caxias (1990), 2º BC; Tom Jobim (1995), Praça Tom Jobim; Dragões (1998), Praça Kotoko Iha; Ipupiara (1999), Praça Ipupiara; Monumento Benedicto Calixto (2003), Praça Ipupiara.





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