Paulo Barbosa

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Uma história de muita luta e persistência que começou logo aos oito anos quando Paulo Gomes Barbosa perdeu seu pai e teve que trabalhar para ajudar no sustento da família.
De engraxate a prefeito de Santos, Paulo Barbosa
galgou seu caminho com maestria e muito empenho na profissão e na política. Durante entrevista em seu gabinete,
o presidente da Câmara de Santos falou sobre família,
carreira política e sua trajetória de vida

Santista de coração, Pau-lo Barbosa nasceu no Vale do Jequitinhonha no estado de Minas Gerais, mas com um ano de idade migrou para São Paulo, mais precisamente em Santos. Sua família iniciou a vida na cidade litorânea no Morro do Pacheco, por onde Paulo iniciou sua vida de estudo e trabalho.
Logo cedo, aos oito anos de idade, ficou órfão de pai e começou a trabalhar para ajudar em casa. Trabalhou em diversas áreas até chegar ao posto de corretor de café. A partir daí conquistou espaço e chegou a ser o primeiro brasileiro a vender café para o leste europeu, na antiga União Soviética.
Trabalhou no exterior e teve contato com embaixadores brasileiros, entre eles Delfim Neto que na época era embaixador do Brasil na França. Em 1979 recebeu o convite para ser prefeito nomeado de Santos.
Durante a entrevista o atual presidente da Câmara dos Vereadores de Santos contou sobre sua vida, seus anseios e revelou que este será seu último mandato e que agora pretende curtir os seus cinco netos. Confira a entrevista.
Jornal Vicentino - O senhor se diz santista de coração. Onde nasceu e com quantos anos venho para Santos?
Paulo Barbosa
- Nasci em uma das regiões mais pobres do Brasil, no Vale do Jequitinhonha no estado de Minas Gerais. Só morei lá um ano, depois cheguei no Morro do Pacheco.
JV - Como foi sua infância em Santos?
Paulo
- Morei no Morro do Pacheco por 20 anos em um porão. Foi uma infância muito dura em 1947 eu perdi meu pai e no dia seguinte tive que trabalhar.
JV - Como foi essa fase em sua vida?
Paulo
- Comecei então como engraxate de sapato, fui vendedor de palhinhas bombril em Santos e São Vicente. Entreguei dentaduras para alguns dentistas daquela época. Entreguei ternos para o irmão da nossa querida deputada estadual, Maria Lúcia Prandi. Foi uma vida difícil e dura.
JV - Apesar de ter perdido seu pai logo cedo, senhor tem lembranças dele?
Paulo
- Ele era funcionário da prefeitura de Santos, era limpador do canal 3 com a praia. Eu saia do Centro na praça Mauá, minha mãe vinha com uma marmitinha de comida e a gente pegava o bonde 4. E na volta sempre via ele. O primeiro dinheiro forte que ganhei comprei exatamente uma propriedade em frente ao lugar que esse cidadão sentava. Com quatro anos até os oito eu levava comida para ele. Morei 35 anos e todo dia de manhã olhava para aquele pedaço e rezava.
JV - Foi nessa época que o senhor conheceu o Rochinha (fundador do Jornal Vicentino)?
Paulo
- Fui muito amigo do Rochinha. Ele tomava conta de uma banca na rua do Comércio com a rua XV de Novembro, a banca do Noronha. Nós sempre conversávamos como meninos. O Rochinha deveria ter dois anos a mais do que eu. Depois ele veio a ter uma banca na praça Mauá, começamos juntos. A senhora dele, dona Neide, praticamente foi criada com a gente na chácara dos Barreiros.
JV - Quando se deu o contato com os empresários do café?
Paulo
- Engraxei muito sapato dos vereadores em frente ao Café Carioca. Depois fui para a rua do Comércio com a rua XV de Novembro. Ali foi o grande filão da minha vida. Conheci todos os homens empresários de café. Dentre um deles, estava o corretor oficial de café Athiê Jorge Cury. Era vereador e presidente do Santos Futebol Clube. Eu engraxava os sapatos dele e fazia questão de engraxar comigo. Em um determinado momento ele me arranjou um emprego para trabalhar em uma firma de café Geronardeli SA, onde eu comecei.
JV - Foi nesta empresa que o senhor se tornou corretor de café?
Paulo
- Comecei de office-boy, depois fui a classificador inclusive. Vicente Abilheira de Castro, família tradicional de São Vicente, foi meu primeiro chefe e que me protegeu muito no café. Fomos subindo no café. Depois fui para uma outra firma internacional.
JV - O senhor atuou no Rio de Janeiro como corretor de café?
Paulo
- Quando fui convidado para trabalhar nessa firma (internacional) eu ganhava R$ 3 mil o dono veio do exterior e quis me contratar para ser gerente no Rio de Janeiro. Eu disse que não iria porque minhas filhas estavam estudando e só iria por muito dinheiro. Pedi R$ 80 mil, com apartamento no melhor lugar do Rio e um carro. Disse que o apartamento eu compraria com o meu salário. Isso foi no dia 2 de dezembro e ia embora no dia 23. Não aceitou e ofereceu para outras pessoas o cargo. No dia 22 ele foi ao meu escritório e disse que a minha proposta estava fechada. Fiquei três anos lá. Nos seis meses de Rio já tinha 300 a 400 mil sacas, em um ano passei Santos 1 milhão de saca anual. Depois que ele me convidou para ser diretor da firma no exterior.
JV - No início da década de 1960 o senhor foi um dos primeiros brasileiros a vender café para o leste europeu. Como foi ser pioneiro na venda de café para a ex-União Soviética?
Paulo
- Sempre fui um homem com muita vontade de trabalhar. A gente que vem de um porão de um morro, você estando na rua XV vendo aquelas pessoas com carro eu tinha sonhos grandiosos. Disse para o meu chefe, nós vendemos café para os Estados Unidos e nós empatamos ou ficamos no vermelho, então temos que arrumar outro mercado. Meu chefe era um italiano judeu inteligentíssimo e fui à Rússia para vender sacas de café.
JV - O senhor falou do porão na qual viveu por 20 anos. Hoje o local abriga a fundação Paulo Gomes Barbosa.
Paulo
- Temos a fundação, compraram a casa sem eu saber. Fizeram a fundação, meus filhos fizeram sem eu saber.
JV - Quando e por que se deu o convite para ser prefeito nomeado de Santos?
Paulo
- Em 1974 o Delfim Neto queria ser governador do estado de São Paulo, mas o presidente (Ernesto Geisel) não deixou e deu o status de embaixador do Brasil na França. Na época eu morava em Gênova, estava sempre em Paris. Fazia reuniões com a firma e um dia fui visitar o embaixador e fizemos um bom relacionamento e amizade. Falei ao embaixador para que nós possamos vender muito café. Ele convidou todos os negociantes de café da França e fizemos o congresso. Lá me tornei bastante conhecido. Quando (João Batista) Figueiredo assumiu, convidou e o Delfim aceitou ser ministro da Agricultura. Nessas reuniões o (prefeito) Caldeira estava de saída e falou que teria todas as características de ser um bom prefeito e foi desta forma que fui convidado, em 1979, a ser o prefeito de Santos.
JV - É verdade que durante seu governo, Santos foi eleita por duas vezes a cidade mais desenvolvida do País?
Paulo
- Durante meu mandato, em 1928 e 1983, Santos foi a cidade mais desenvolvida do País por causa da renda per capita, saúde, educação. Foi a cidade que mais cresceu no Brasil. Inclusive recebemos essa rara homenagem em Brasília no Senado da República.
JV - Quais foram seus principais trabalhos como prefeito de Santos?
Paulo
- O mais importante, para mim, foi ter construido 14.487 unidades habitacionais para o povo, inclusive de São Vicente em Humaitá. Quem construiu as 4.887 casa do conjunto Humaitá fui eu. Tivemos uma briga numérica porque ele (prefeito Sebastião Ribeiro) não queria dar o habite-se. A prefeitura comprou o terreno sem dar satisfação a ninguém, comprei e construi. O segundo (trabalho) foi a tributação da Companhia Docas do Estado de São Paulo, o ISS (Imposto Sobre Serviço) e até hoje todos os prefeitos se vangloriam dessa receita. Conseguimos tributar a Cosipa também com IPTU, a Utrafértil também. Isso alavancou a parte financeira do Município. A professora municipal era a professora mais bem paga do País de 1980 a 1984. Foi um trabalho sério, bom e tive aqui um dos melhores secretários de finanças. A cidade cresceu.
JV - Como foi seu relacionamento com os vereadores na época em que foi prefeito?
Paulo
- Nós tivemos um grande momento político, com divergências. Acho que a democracia valeu, nós dávamos liberdade a todos, nunca tivemos maioria. Naquela tínhamos 21 vereadores, 19 eram da oposição e dois eram da situação. Convivi com eles sem problema nenhum. Os meus projetos sempre foram aprovados. Era um governo sério, correto, ético. Nunca levamos comissão de ninguém, nunca ganhamos nada.
JV - Como e quando conheceu sua esposa?
Paulo
- Conheci a minha esposa no mesmo bairro. Minha esposa era da rua Alexandre de Gusmão, no casarão vermelho e azul que tem ali. Os pais tinham um restaurante no casarão. A conheci com 16 anos e nos casamos eu com 23 e ela com 19 anos de idade. Estamos casados praticamente há 45 anos. Casamos em 1961, no dia 19 de setembro. Temos cinco filhos maravilhosos.
JV  - O senhor é pai de cinco filhos. Foi um desafio educá-los?
Paulo
- Todos os meus cinco filhos são formados. Todos eles têm formação superior em duas áreas. Um é advogado e jornalista, outra é dentista e advogada, outra é fonoaudióloga e advogada, o Paulinho (Alexandre) é advogado e tem curso de administração pública. A maior riqueza da minha vida é que tudo que ganhei no café e na política eu investi nos meus filhos.
JV - O senhor acreditava que um dos seus filhos ia seguir o caminho da vida pública também?
Paulo
- Eu incentivei bastante (na política), principalmente os dois homens. O Paulo Alexandre e o Paulo Eduardo. Pensei mais no Paulo Eduardo, por ser o mais velho. A grande surpresa foi o Paulo Alexandre. Depois que saí da prefeitura comecei a ir muito à São Paulo e o Paulo Alexandre me acompanhava. Eu ia muito na bolsa e ele ia junto comigo e esse contato foi fundamental. Se acostumou muito comigo.
JV - Foi uma emoção muito grande ver um filho ser eleito deputado estadual pela primeira vez?
Paulo
- Eu fiquei muito emocionado porque nunca pensei que ele pudesse ter 182 mil votos. Fiquei contente e espero que ele seja um bom deputado e que faça tudo que é possível pela Baixada Santista. Que seja galgado no mesmo lado que eu fui, com muita ética, correção, com respeito a todos e briguento como eu.
JV - O senhor é vereador atualmente. É difícil abandonar a política?
Paulo
- Eu estou abandonando. São meus dois últimos anos, encerro com 72 anos a vida pública. Já fiz tudo o que tinha para fazer. Já fui presidente da Bolsa Oficial de Café de Santos, fui primeiro presidente da Associação de Melhoramento do Morro do Pacheco, presidente da Associação de Pais e Mestres do colégio Stella Maris, prefeito de Santos, presidente da Câmara, tenho meus cinco filhos criados. Acho que não preciso de mais nada. Deus me deu mais do que eu merecia.
JV - A família Barbosa vai ter um sucessor na Câmara de Santos?
Paulo
- Acho que todos têm vontade. Nós talvez podemos. Acordos políticos virão e não sei. A família Barbosa vai ter um sucessor.
JV - Como é presidir a Câmara da maior cidade da Baixada Santista?
Paulo
- É um orgulho muito grande. Fui o primeiro prefeito de Santos que chegou a ser presidente da Câmara Municipal. Fui presidente por unanimidade. Quero fazer um agradecimento a todos os colegas que me ajudaram bastante. Vereadores do PSB, PSDB, PMDB do PT inclusive, do PDT e a todos os vereadores da minha cidade. Vou dar em primeira mão que novo presidente da Câmara será o vereador Marcus de Rosis (PMDB). Temos 13 votos e estamos trabalhando depois das 22 horas teremos uma reunião ampla com outros partidos para que já fique certo o nome dele como presidente.
JV - O senhor disse que vai abandonar a vida pública. O que pretende fazer?
Paulo
- Tenho cinco netos (Paulo Alexandre, Pedro, Paulo Gomes Barbosa Neto, Lucas, Eduardo e o Gabriel) e pretendo curtir eles o resto de minha vida. Vou ter 72 anos quando largar a política e pretendo passear com eles, ir à praia, conversar, sentar no banco porque já prestei muito serviço à essa cidade. Quero rever São Vicente, passear de teleférico com a molecada. Essa será a minha vida. Também pretendo ajudar os políticos da minha cidade. Santos me deu tudo, aqui aprendi a ganhar dinheiro, criar meus filhos. São três coisas importantes na minha vida: minha família, meu trabalho e a política.

Obs:
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  1. 3 Comentários para “Paulo Barbosa”

  2. Dr. Paulo,

    Sua historia já está gravada.parabéns.

    Gostaria muito de falar com o Deputado Paulo Alexandre.

    Agende isto para mim. Acho que é de interesse d todos nós.

    um abraço

    luiz carlços

    tel. 13 - 3011-4052
    cel. 13 9178-2030

    Por luiz carlos gonçalves em out 8, 2008

  3. Ao
    Querido Paulo Barbosa, com certeza sua história de vida já esta marcada pelos grandes feitos a sociedade santista.

    A nossa gratidão
    Neto de Antonio Henriques Junior

    Radamés Henriques
    Presidente da Aceal
    Águas de Lindoia-SP

    Por Radamés Henriques em fev 14, 2010

  4. Foi um enorme prazer trabalhar e conhecer o Sr. como ser humano e pessoa maravilhosa que sempre foi.
    Obrigado por existir.
    Descansa em paz Dr. Paulo

    Por Vanessa em mar 21, 2011

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