Personalidades
- abril 2, 2007
Orlando José

A paixão pelo jornalismo começou na infância. Em junho de 1960, aos 19 anos, Orlando José estreou como repórter esportivo na Rádio Cultura São Vicente. De lá para cá são mais de quatro décadas dedicadas ao jornalismo esportivo na região.
Acarreira de Orlando José foi sem dúvida im-portantíssima para o desenvolvimento do jornalismo esportivo na Baixada Santista.
Foi locutor, repórter de campo, narrador, comentarista esportivo, apresentador de programas musicais, diretor de programação, numa carreira bem sucedida que teve início na década de 1960.
O trabalho desenvolvido em prol dos esportes olímpicos e o apoio que sempre manifestou às entidades esportivas da região são características marcantes na vida desse profissional.
Como apresentador musical ganhou destaque com o programa Sucessos em Revista, lançado na rádio Cacique e que permaneceu no ar, em várias emissoras, entre 1963 a 1993.
Durante a entrevista, o jornalista esportivo comentou sobre o regime militar e como conciliou sua carreira de jornalista com a de dirigente sindical.
Orlando José defendeu a organização dos Jogos Pan-americanos no Brasil e revelou que mesmo assim o País precisa melhorar no incentivo ao esporte.
O jornalista, que participa do programa Esporte por Esporte, comandado por Armando Gomes, comentou sobre momentos marcantes da carreira, como a entrevista realizada com Elis Regina, e sobre a família. Confira a entrevista.
JV - Onde o senhor nasceu e quais recordações tem da sua infância e adolescência?
Orlando José - Nasci no Centro, na rua da Constituição nº 54 e fui morar na praça Tereza Cristina, nº 26. Foi uma infância boa, diferente da de hoje. Tive uma maravilhosa formação dos pais. Tinha dois irmãos por parte de mãe, do segundo casamento de minha mãe eu era o único filho. Mas tinha um relacionamento extraordinários com meus irmãos, eles foram importantes na minha formação.
JV - Onde estudou e como foi essa época?
Orlando - Morava na praça Tereza Cristina e estudei o primário na Escola Portuguesa e depois ginásio no Colégio Santista. Ia a pé para o colégio, quando levava o guarda-chuva eu narrava jogo de futebol no cabo do guarda-chuva.
JV - Quando e porque optou pela carreira da área na comunicação?
Orlando - Foi sem querer, diria que foi até um acidente. Eu sempre gostei, mas aconteceu sem querer. Meu pai tinha uma lanchonete em Vicente de Carvalho e o Antonio Barazal, que era da Rádio Cultura São Vicente, frequentava lá. Um dia perguntei quando ele iria me levar para um jogo de futebol na Vila Belmiro. O Santos foi jogar contra o América (RJ) pela Taça Brasil no dia 1º de junho de 1960, na Vila. Conversei com meu pai, ele me rendeu na lanchonete e eu fui. Quando cheguei lá o Barazal ficou privado de repórter e comentarista, que eram irmãos e tiveram problema na família.
JV - Então aos 19 anos de idade o senhor deu início a sua carreira no rádio da Baixada Santista?
Orlando - Aí o Antonio falou para mim: “Sobrou para você!”, eu perguntei: “Para mim? Eu nunca fiz isso”. Ele me disse que eu conhecia tudo porque vinha comentando com ele sobre o time do América no carro e pensei: “que fria que eu entrei”. Acabei ajudando ele, fiz repórter de campo naquele jogo. O irmão dele Mário Barazal me convidou, gostou da minha voz, para participar do programa de esporte que eles tinham as 18 horas na Cultura que ficava na avenida Conselheiro Nébias esquina com a rua Sete de Setembro. Aí comecei e não parei mais.
JV - Quando surgiu a paixão pelo jornalismo esportivo?
Orlando - A paixão pelo jornalismo esportivo vem desde garoto. Eu narrava jogos de botão com meus primos. Aliás minha infância, grande parte dela, foi passada em São Vicente na rua Anita Costa, na Vila Melo. Tinha a casa da minha saudosa tia Cacilda e do meu tio Maneco, que tinha um casal de primos (Marília e o Gilberto). Tinha o gosto por isso (narração).
JV - Além de trabalhar com o esporte, o senhor também apresentou programas musicais como o destacado Sucessos em Revista, programa lançado na rádio Cacique e que permaneceu, em várias emissoras, de 1963 a 1993. Como foi essa experiência?
Orlando - Esse programa começou na rádio Cacique, primeiro era Sucesso a Três por Dois, aí peguei e mudei para Sucessos em Revista. Da Cacique levei para a Atlântida, que foi vendida e não acompanhei. Fui para a Tribuna, que era uma emissora AM elitista e depois virou popular. Apresentava lá, saí e fui apresentar na Cultura e era uma audiência fantástica aos domingos. Começava as nove da manhã e ia até as 14 horas, antecedendo a jornada esportiva. Todo domingo a gente destacava um cantor e isso dava um boom extraordinário. Foram trinta anos no ar, era uma parada de sucesso porque eu falava pouco e tocava muita música.
JV - O senhor também fez parte da vida sindical da região. Como foi esse período dentro do sindicato dos Operários nos Serviços Portuários de Santos, São Vicente, Guarujá e Cubatão?
Orlando - Trabalhei no antes e inclusive também na época da Ditadura Militar. Foi um momento difícil porque nós éramos rotulados como os marajás do Porto. Isso (participar da vida sindical) já vem de família porque um finado tio meu foi presidente do sindicato dos Portuários, meus irmãos também participaram do sindicato. Trabalhei 28 anos lá. Passou a ditadura e nós continuamos até que me aposentei.
JV - Como foi trabalhar no sindicato e no rádio?
Orlando - Era muito difícil porque trabalhava no sindicato, saia 11 horas para almoçar ia para a rádio, voltava da rádio para o sindicato, saia do sindicato e voltava para a rádio e chegava em casa oito horas da noite e não vi meus filhos crescerem. Saia de manhã, eles estavam dormindo, voltava de noite eles já estavam na cama. Mas para sobreviver tinha que correr.
JV - O senhor falou sobre seus filhos. Como conheceu sua esposa?
Orlando - Conheci minha esposa em frente a praia, pertinho do mar. Até tinha uma música (Moça da Praia) que eu tocava no programa Sucessos em Revista que era dedicada a ela. Começou aquele namoro, ela não sabia quem eu era e depois que falei ela ficou até surpresa. Namoramos três anos, casei e sou extraordinariamente feliz. São 37 anos de casamento.
JV - Na época em que iniciou sua carreira o País vivia sob o regime militar. Como foi trabalhar com jornalismo nessa época, sendo que o senhor também era dirigente sindical?
Orlando - Nós tínhamos uma perseguição e éramos muito cobrados naquilo que nós íamos falar. Tínhamos que ter cuidado com alguma manifestação. Teve uma vez um rapaz, que era assessor de imprensa da prefeitura de Santos, que ligou no meu programa dizendo que o presidente Costa e Silva tinha falecido, mas o presidente teve uma embolia e não faleceu. Meia hora depois estava o Exército na rádio perguntando quem havia dado essa informação e onde poderia encontrar essa pessoa. Falei que ele morava perto da Vila Belmiro e saíram. Avisei o assessor, o genro dele era prefeito biônico em São Sebastião, que foi para lá e ficou seis meses escondido. Depois que a poeira abaixo ele voltou. Era fogo o negócio, tinha a fita da censura porque o programa era obrigado a ser gravado.
JV - Por acompanhar a vida esportiva da região há mais de quatro décadas, como analisa a evolução do esporte na Baixada Santista?
Orlando - Acho que fui um privilegiado porque acompanhei a carreira inteira do Pelé como repórter. Acho que daquele momento para cá, claro que o esporte no geral era amador mas não é mais. Hoje com essas parcerias e patrocínios a coisa cresceu muito. Não existe mais o amor à camisa. Acho que o esporte na Cidade e na região até vive um bom momento, mas podia ser melhor. Se nós tivéssemos ter um apoio maior para o esporte. O esporte da cidade de Santos cresceu porque teve um esportista na condição de secretário de esportes, Marcus de Rosis. Ninguém pode negar isso. O esporte em Cubatão está evoluindo porque tem um esportista na secretaria de esportes, José Rubens Marino. O prefeito de Cubatão, Clermont Castor tomou a decisão certa. Não adianta colocar um técnico, tem que por um esportista.
JV - Com mais de quatro décadas dedicadas ao radiojornalismo na Baixada Santista deve ser difícil destacar uma passagem que tenha lhe marcado. Qual foi a passagem mais marcante de sua carreira?
Orlando - Foi uma entrevista com a Elis Regina em 1973 no antigo Clube XV, aonde funciona a Caixa Econômica Federal (esquina da Marcílio Dias com a praia, no Gonzaga). A Elis veio fazer um show lá e todo mundo falava que ela era terrível e que não iria me receber. Eu fui com nosso operador que levou o gravador, subimos na coxia, falei com o irmão dela (Rogério) e conversei com ela. Estava com o LP Menino das Laranjas e pedi para ela analisar faixa a faixa e começamos a gravar. Quando terminamos o primeiro lado do disco o presidente do clube proibiu que nós continuássemos. Faltava a segunda parte para apresentar no Sucessos em Revista. Ela falou que seu eu encontrasse uma tomada para ligar o gravador ela continuaria a entrevista após o show. O zelador do clube morava lá e tinha um banheirinho com um chuveiro elétrico, ele falou que eu poderia usar o banheiro. Nós gravamos a segunda parte numa luz turva e foi maravilhoso. Foi um momento marcante. Pena que sumiram com essa fita.
JV - O senhor comanda o programa TV Clube há 12 anos na TV Santa Cecília. Qual a opinião sobre as dificuldades pelas quais essas entidades passam?
Orlando - Os clubes vivem esse momento hoje principalmente por um motivo que é crucial: cresceu demais fora dos clubes o ambiente de lazer e de esporte nos condomínios. O segundo momento é o sócio remido, que após 25 anos pagando ele passa a não pagar a mensalidade e aí o clube não tem receita. O Clube Internacional de Regatas foi inteligente, quando o presidente era o senhor Carlos Lamberti, em 1974, quando acabou com a remissão. Você conta nos dedos os clubes que estão bem. São o Internacional, Tênis Clube, Clube dos Ingleses e o Clube 2004. O ideal seria procurar parceria com indústrias e empresas para trazer os funcionários para os clubes.
JV - O senhor também é conhecido como defensor dos esportes olímpicos. O que tem a dizer sobre os Jogos Pan-americanos que acontecem no Rio de Janeiro?
Orlando - Para o Brasil vai ser excelente. Está todo mundo com medo por falta de segurança, mas vai ter uma segurança extraordinária e nem poderia ser de outra forma. Tomara que isso seja um boom, porque está se olhando lá na frente a Copa de 2014 e até uma Olimpíada. Todas as tentativas de divulgar o País são válidas, desde que as coisas sejam bem feita e com o pé no chão. Se bem que na forma de administrar o evento eu entenda que está meio conturbado porque o governo não pára de por dinheiro.
JV - Gostaria que traçasse um paralelo entre o radiojornalismo esportivo na época em que iniciou sua carreira com o atual?
Orlando - Infelizmente o rádio esportivo em Santos hoje não vive o momento que viveu. Quando comecei era a rádio Clube, Atlântica, Cultura, Cacique, Guarujá e Universal que trabalhavam com esporte. Hoje infelizmente temos duas, a Atlântica e a Guarujá. Você vive do comércio, assim como um jornal também vive, se você não comercializar como vai fazer. É ruim porque o mercado de trabalho não absorve o jornalista formado. Há muito profissional sendo formado sem espaço físico para trabalhar. Isso é triste, é ruim. Não há renovação e daí você vê, lamentavelmente um jornalista esportivo trabalhando no cais porque o mercado está restrito. A televisão regional existe, mas é um negócio muito caro.
JV - O aumento de veículos de comunicação especializados em esporte (emissoras, jornais, sites) é um fator positivo?
Orlando - Quando você criou a TV à Cabo, você criou um leque enorme. É preciso sustentar esse público alternativo na TV à Cabo oferecendo programação de alto padrão. Como a televisão está muito globalizada, você liga a TV e vê um jogo do campeonato francês, alemão, italiano, a NBA, o mundial de natação, tênis. Acho que quanto mais emissoras tivermos com qualidade e voltada para a educação e cultura do povo é melhor.





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