TENENTE CORONEL NAYLOR SILVA

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Com 98 anos, Naylor Silva Carvalho traz na memória a participação no momento cívico mais importante do Estado: a Revolução de 32. Exemplo de vida, mostra como a solidariedade norteou toda a sua trajetória e conta um pouco mais sobre sua vida. Conheça agora um pouco do médico militar que vive há anos em São Vicente:

Na última terça-fei-ra (12), o tenente-coronel Naylor da Silva completou 98 anos de idade. Em uma breve conversa com esse vicentino de coração, uma lição de história e de vida. Não é para menos. O menino nascido em Mococa, interior de São Paulo, participou da Revolução Constitucionalista de 1932, movimento armado onde o Estado visava a derrubada do governo provisório de Getúlio Vargas e à instituição de um regime constitucional.
Atualmente, o dia 9 de julho, que marca o início da Revolução de 1932, é a data cívica mais importante de São Paulo. Por isso, seo Naylor é homenageado todos os anos com medalhas e honrarias das Forças Armadas Brasileiras como um dos heróis do maior movimento cívico da história do Estado.
Naylor teve poucas vezes em sua cidade natal, Mococa. Passou a infância na cidade de São Paulo, com seus pais e seus quatro irmãos, onde alimentava o sonho de se tornar militar. Mais tarde, decidiu cursar medicina e passou no concurso das Forças Públicas. Atuando como médico militar, passou por diversas lugares como Ribeirão Preto, Campinas, Minas Gerais, Santos, até chegar a cidade de São Vicente.

REVOLUÇÃO DE 32

Antes disso, ele participou como civil da Revolução de 1932. “Fui convidado para fazer parte da comitiva do Montenegro (Benedito Augusto de Freitas Montegro, médico brasileiro e diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e eu decidi ir como voluntário”, conta Naylor. Saindo de São Paulo, trabalhou como auxiliar na cidade de Itapetininga, grande pólo de revolta contra o Governo Federal, até o final da Revolução.
Ele tratou do primeiro combatente a morrer na revolução de 32, um soldado santista, e também foi responsável pelo atendimento de Pérsio de Queiroz, soldado alistado por São Vicente. Sobre o fim, ele diz: “A coisa mais triste que existe é a retirada após a Revolução”.

ESPORTE

Em sua trajetória, seguiu carreira até chegar ao posto de Tenente-Coronel. Como um grande apaixonado por esportes, Naylor também cursou a Faculdade de Educação Física. Foi por muito tempo diretor da Escola de Educação Física da Força. “Desde que eu me conheço por gente sempre pratiquei esportes”.
Corinthiano de coração, orgulha-se de ter nascido no ano em que foi fundado o seu time de coração. Como uma forma de lazer, gostava de correr e principalmente jogar futebol na várzea. Essa paixão lhe rendia vários problemas. “Não podia jogar bola com soldados, com pessoas que ocupassem cargos inferiores, mesmo assim eu jogava, e sempre recebia punições”, conta seo Naylor. “Cansei de ser punido”, diz.
Em uma passagem interessante, ele diverte-se contando que um dia, um amigo pediu para ele marcar o tempo de duas nadadoras, em São Paulo. Mas, ele achou que elas estavam demorando muito e decidiu ir embora. Muito tempo depois elas chegaram, ofegantes, para saber o tempo, e viram que ele não tinha marcado. Elas iriam bater um recorde. Uma delas era Maria Lenk, a primeira mulher sul-americana a disputar os Jogos Olímpicos, entre outras façanhas, e que hoje dá nome ao Parque Aquático no Rio de Janeiro, sede das disputas dos Jogos Pan-Americanos 2007.

ARTIGOS

Punição dada pela Força foi algo que ele conviveu por toda sua carreira. Não por causa do esporte, mas por causa dos seus pensamentos. Seo Naylor gostava muito de ler e escrever, gosto que inclusive lhe impulsionou a fazer mais tarde um curso de Jornalismo. Por isso, escrevia sempre artigos e mandava para os jornais. “Falava sobre tudo que pensava e achava. Não tinha medo. Mandava depois para todos os veículos”.
Entre os artigos, pedidos para o governador do Estado e até críticas a Força Pública. “Sempre que eu escrevia, eles achavam ruim e eu era punido. De todos os médicos acho que foi o que fui mais. Tinha que ficar dias trabalhando no hospital sem folga. Mesmo assim continuava escrevendo, nunca ia parar. Escrevia já sabendo que no dia seguinte estaria na punição”, fala.

DIREITO

Quem pensa que o curso de Jornalismo, as faculdades de Medicina e Educação Física encerram o currículo de Naylor da Silva, engana-se. Ele também decidiu cursar Direito em São Paulo. “Fui convidado e decidi fazer com a minha esposa (Maria Aparecida)”. Mas, deixou claro na faculdade que não queria ser um concorrente. “Fiz porque queria estudar, conhecer outra área, nunca exerci, tanto que nem peguei minha carteira da Ordem dos Advogados”. O tenente-coronel conta que aprendeu muito na faculdade e também ensinou. “Perguntavam o que um médico estava fazendo ali. Algumas vezes o professor parava e pedia para eu ensinar alguma coisa”, conta.

SOLIDARIEDADE

A cidade de São Vicente foi o último lugar onde Naylor veio para trabalhar e foi aqui que decidiu ficar. Chegou há mais de 40 anos, na época em que ainda passavam bondes pela Cidade. Naylor lembra-se que ajudou a fundar o tradicional Restaurante Boa Vista.
Ele afirma que gosta muito da Cidade. Aqui, fez muitos amigos e ajudou muitas pessoas. A solidariedade, com certeza, norteia a vida do tenente-coronel em toda sua vida. Depois de cumprido os 30 anos de carreira, abriu um consultório na Cidade e ajudou muitas pessoas. Em uma das passagens, lembra-se de uma época em que faltavam médicos no Hospital São José. Por isso, ele atendia gratuitamente no seu consultório. Nas suas palavras, a convicção de que o amor a sua profissão e as pessoas era maior do que qualquer dinheiro ou bem material.
Seus familiares lembram também outros casos interessantes da sua vida, como durante a Faculdade de Direito. Em determinados momentos, alguns alunos eram impedidos de entrar na aula por não ter pago a faculdade e Naylor fazia questão de pagar a dívida só para que seus companheiros pudessem retornar aos estudos.
Suas atitudes sempre mostram seus ideais de justiça e igualdade. Desde pequenos fatos como jogar futebol com soldados, o que não era permitido, até usar o seu posto para coibir o abuso da polícia em diversas ocasiões pela Cidade.

FAMÍLIA

Naylor emociona-se ao falar sobre sua família. Ele tem quatro filhos, além de quatro netos e três bisnetos. Considerado um exemplo por todos que o cercam, ele passa o exemplo e sua alegria de viver para todos. Além disso, faz questão que eles o mantenham informado de tudo que está acontecendo. Com uma deficiência visual, ele pede para que os filhos leiam sempre o jornal para ele, além de estar ligado sempre na televisão, considerando a informações essenciais para a formação e o desenvolvimento de todo ser humano.

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