Aloysio Azevedo

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Em entrevista ao Jornal Vicentino, o cientista político Aloysio
Azevedo, comentarista político do Programa Opinião,fala de sua trajetória profissional e comenta sobre o cenário político da Baixada Santista. Confira:

Aos 40 anos, após reorganizar a sua vida, Aloysio Azevedo pode dedicar-se a sua grande vocação: a ciência política. Mas, toda a sua vida, desde jovem em Minas Gerais, quando queria ser piloto de caça, a Faculdade de Arquitetura na USP e o trabalho com Publicidade foram de fundamental importância para embasar e construir o homem, que hoje é comentarista político de um dos principais programas da Região, o Opinião, da Record Litoral.
Conheça nessa entrevista um pouco mais sobre a sua história, a luta junto aos movimentos sindicais, a decepção com o Governo Collor, momentos marcantes no programa Opinião e sua opinião sobre o atual cenário político da Região e das próximas eleições municipais.
JV - O senhor nasceu em Araxá (MG). Como aconteceu sua vinda para cá?
Aloysio Azevedo - Vim para a Capital com 17 anos. Onde eu morava não tinha curso superior e o centro do mundo para nós era São Paulo. Por isso meus pais me encaminharam para cá.
JV - Quando você veio já sabia em que área queria seguir?
Aloysio - Antes de vir, tentei carreira na Força Aérea, queria ser piloto de caça. Mas sempre fui muito rebelde. Não gostaram de mim, acharam que eu era incompatível com a vida militar. Então tive que seguir a carreira civil. Primeiro fui tentar o ITA, Escola de Tecnologia Aeronáutica. Mas me frustrei e, em uma aula de cursinho, na aula de Desenho Artístico, achei que aquilo seria uma carreira interessante. Prestei vestibular para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e passei.
JV - Qual a importância da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na sua vida?
Aloysio - Foi muito importante para mim. Lá descobri minha verdadeira vocação, que era ciência política, fazendo política na minha faculdade. Na Faus, assumi a função de presidente da Associação Atlética Acadêmica. As pessoas não praticavam esportes e eu incentivei a prática. Depois fui para o Grêmio, onde continuei exercitando minha atividade política. Nessa época, comecei minha militância no Partido Comunista, com jovens de esquerda. Aos poucos eu abandonei a Faculdade, pois me casei, e como o curso era integral, não tinha condições econômicas de estudar e sustentar a família. Fui obrigado a trancar minha matrícula e fui trabalhar com Propaganda.
JV - Foi a sua iniciação no ramo da Comunicação?
Aloysio
- Sim. Foi muito importante para mim, porque foi quando entrei na Comunicação. Já tinha uma idéia muito grande de planejamento espacial, que tive na Faculdade, além de uma base de iniciação política. Essa área foi uma descoberta muito grande. Trabalhei na Denison Propaganda até os 38 anos, que foi quando eu estava reorganizando minha vida. Nasci de uma família conservadora e era muito rebelde. Me casei, me separei, minha vida foi muito atribulada, e naquele momento estava buscando o meu “eu interior”.
JV - Como foi o início de suas atividades políticas?
Aloysio
- Sempre me concentrei na vida sindical. De alguma maneira, mesmo que amadoristicamente, trabalhei para sindicato de trabalhadores. Quando estava beirando os 40 anos, e sai dessa revisão da minha vida privada, fiquei, como dizem os filósofos, em estado de disponibilidade. Nesse tempo surgiu o movimento sindical no ABC, surgiu o Lula, aquelas concentrações nas vidas deles, e eu participei de boa parte delas, sempre como um interessado, um curioso. Por isso fui fazer vestibular para Sociologia Política, e depois o curso de Ciências Políticas.
JV - Por esse motivo o senhor iniciou seu trabalho junto aos movimentos sindicais?
Aloysio
- Eu procurei o Barelli, que era o chefe do Instituto que assessora o movimento sindical, e ele me instruiu a procurar uma empresa que editava os jornais do sindicato. Eu já tinha uma idéia da minha função, eu tinha descoberto que era um planejador de ações sindicais. Ele me indicou para uma empresa e fui pra lá, foi aí o meu primeiro contato com a cidade de Santos. Quando cheguei o diretor viu meu perfil e disse que tinha o Sindicato dos Metalúrgicos da Cosipa que estava em uma situação delicada, precisando de um assessor com esse perfil para ter uma campanha salarial vitoriosa. Fizemos uma excelente campanha e eu descobri o meu caminho, a minha verdadeira vocação.
JV - A partir daí você começou a trabalhar com planejamento de ações sindicais?
Aloysio
- Comecei a trilhar por esse caminho, fazer assessoria para sindicatos dos trabalhadores em suas campanhas salariais. Tive um trajeto muito longo, de muitos anos, fui contratado pelo Sindicato dos Metalúrgicos, passei por outros sindicatos, e acabei montando uma consultoria de planejamento de estratégia e tática para trabalhadores de sindicatos.
JV - O senhor chegou a trabalhar em Brasília na época do Governo Collor e acabou se demitindo. Como foi esse período?
Aloysio
- Eu tinha uma visão muito crítica do PT, do Lula nem tanto, sempre tive uma admiração por ele. Tinha dúvidas sobre o radicalismo do PT. Por isso, me juntei aos sindicatos que não eram petistas e formulamos o sindicalismo de resultados. Esse sindicalismo alternativo ao PT se fortaleceu e cresceu muito, junto com o meu próprio crescimento profissional. Em 1888, a eleição era Lula contra o Collor. A CUT foi para o lado do Lula e o meu pessoal teve que ir para o lado do Collor. O Collor foi eleito e o (Antônio Rogério) Magri que era do meu grupo foi indicado há ministro, não sabendo quase nada, numa incrível irresponsabilidade. Tive que ir para Brasília para poder assessorar o Ministério da Previdência e do Trabalho, que eram juntos. Fiquei lá um ano e três meses. De repente foi ficando claro que o Collor não era a pedida. O Magri não tinha ninguém para levar para lá, fui eu que levei uma equipe com 25 pessoas. Quando ficou claro que o Collor não era o que a gente pensava, eu pedi demissão. 23 saíram comigo e dois continuaram. Nessa época tive a visualização que tínhamos perdido a capacidade de influir, que o movimento sindical tinha praticamente acabado, e eu abandonei a vida sindical.
JV - O senhor chegou a tentar a carreira como Político?
Aloysio
- Os sindicatos chegaram a lançar minha candidatura como Deputado Federal mas eu não consegui me eleger. Nunca tive talento para ser candidato, para pedir votos. Depois disso, já tinha tido experiência como político, assessor, tinha uma visão muito boa e me reservei bastante, pois foi uma paulada muito dura. Essas divergências com o governo devido as descobertas que fiz, fez com que tivesse um período de grande reflexão e fui alterando minha empresa, saindo dos sindicatos. Vi que os sindicatos tiveram o pior caminho e hoje não significam mais nada para o trabalhador. Aí surgiu o convite daqui da Baixada Santista, a TV Mar (hoje Litoral Record) me convidou para ser comentarista do Programa Opinião e eu estou aqui há 8 anos.
JV - Como é trabalhar em um programa formador de opiniões na Região?
Aloysio
- Hoje o Opinião é um programa muito valorizado, que forma opiniões. Cheguei aqui apenas com a minha experiência da Cosipa, de muitos amigos que criei, e com minhas observações sobre a Baixada, que sempre me interessou muito politicamente. Essa Região foi muito importante durante o Golpe Militar, a mais avançada do Brasil politicamente. Com o Golpe, a auto-estima da Região foi para zero. Recentemente, nas últimas eleições, e com a colaboração do nosso programa, vimos que a Baixada Santista recuperou essa auto-estima. Prova disso foi o resultado fantástico eleitoral, quando três deputados da base do Lula (Telma, Mariangêla e Cascione) foram levantados aqui, todos santistas, e  até essa modificação atual, com o deslocamento dessa liderança política da Região para São Vicente, com o deputado Márcio França, que atualmente é a grande liderança da Região.
JV - Você atribui muitas mudanças da Região as discussões políticas do programa?
Aloysio
- Acho que se deve muito. Foi aqui que se colocou na agenda a discussão dos principais problemas da Região, como o Porto de Santos. Fizemos o Condesb priorizar suas ações em torno do porto, da regionalização da saúde e da integração do transporte de massa, pelo VLT. Colocamos que a regionalização da Administração Portuária era a questão mais importante, porque o Brasil tinha encontrado sua vocação de celeiro do mundo e o porto seria o canal de importações e exportações do novo Brasil. O PT colocou isso como prioridade e quando assumiu a presidência, traiu a proposta, parou de falar isso, porque ia perder o poder central sobre o Porto. Acusamos isso de traição. O deputado Márcio França entendeu a posição, e com essa parceria, conseguiu a criação da Secretaria dos Portos. Ela nasceu nesse programa. Acredito que ele seja o principal agente dessa nova fase de auto-estima da Região. A hegemonia política passou de Santos para São Vicente. É algo muito interessante. A mãe de todas as cidades recuperando as suas raízes. Acho isso algo muito positivo.
JV - Quais foram os programas que mais te marcaram nesses oito anos?
Aloysio
- Tem muitos. Por exemplo o programa com o (Paulo) Maluf. Ele veio para cá com todo aquele jeito prepotente e achando que ia triturar todo mundo. Acho que ele não se preparou, mas eu me preparei. O Maluf nunca mais volto em Santos por causa desse programa. Tenho a gravação desse programa e me orgulho demais. Sinto que contribui um pouco para a destruição do Maluf. Também foram vários com o Lula. Em um eu falei que o Brasil devia algo muito importante a ele, que, com a criação do PT, ele tinha conseguido domesticar os grupos egressos da luta armada e transformar os que eram contra a democracia em democratas. Ele me deu um sorriso de entendimento muito interessante, foi algo marcante. Alguns casos também como do (Aloísio) Mercadante , que se elegeu senador de São Paulo, e, como santista, veio pedir votos. Eu falei para ele que ele era senador do PT, não de Santos ou de São Paulo e fiz várias colocações. Falei que a população ia votar nele com o compromisso que ele fosse o senador de Santos e ele reconheceu e prometeu mudar. Depois voltou aqui, esqueceu e eu cobrei de novo. Agora, finalmente, ele mudou completamente de atitude, veio aqui, demos uma “amaciada” e estimulamos seu trabalho.
JV - Ganhou algum inimigo político nessas discussões?
Aloysio
- Sempre tive no Tancredo Neves, nosso ex-presidente, uma máxima que eu sempre cumpri. Na política, tem que fazer o seguinte. Todas as pessoas tem pelo menos duas qualidades, ninguém é totalmente mau. Primeiro cita as qualidades e depois ataca as idéias, se elas estiverem erradas. Nunca ataca as pessoas, sempre as idéias e eu faço isso. Por isso sempre me dei bem com as pessoas. Quando não concordo com a idéia, elogio e depois ataco.
JV - O que você acha das disputas municipais para a Prefeitura na Região onde os atuais prefeitos aparecem disparados na liderança?
Aloysio
- É o reflexo da realidade política. Se você tem a recuperação da auto-estima, em São Vicente, no caso, que foi com a eleição do Márcio, consagrado na sua reeleição, e depois com a indicação do Tércio, que está cumprindo seu mandato de maneira elogiosa, a região fica satisfeita e tem que reeleger. Se o sujeito está ruim, tem que tirar. Por isso a reeleição. Aprovo reelege, caso contrário, não. O Papa também fez excelente gestão. Para que mudar? A Mariangêla é uma excelente candidata, mas não tem dinheiro, não tem estrutura partidária, como vai enfrentar ele? O problema em Praia Grande é complicado. Tiveram as denúncias contra o (Alberto)Mourão (atual prefeito), agora foi apurado que não houve desvio de dinheiro, e o Mourão fez uma revolução na Cidade. O povo que tem que julgar, mas pelo que sinto, é esse caminho que tem que continuar. O candidato da oposição é o atual vice dele (Alexandre Cunha), mas o Mourão fiz que a continuidade do governo dele é o Roberto Francisco, de qualquer maneira não há duvidas de que essa gestão deve continuar.
JV - Na sua opinião, a população é consciente na hora do voto?
Aloysio
- O povo está sempre consciente. Se engana quem pensa que o povo é idiota e não sabe votar. O povo não é besta. Veja, o Lula está surfando em cima do novo Brasil que está surgindo, com uma boa condução, deixando o País se viabilizar. O que fazer contra o Lula? O povo não faz. O Collor foi eleito com esperança muito grande do povo para acabar com os marajás. Depois descobre-se que ele não era exatamente isso e ele cai. No Tancredo Neves, o povo viu uma possibilidade de esperança e o Brasil chorou a morte dele. Quando não se tem nenhuma força, não é capaz de levantar nenhuma bandeira, o povo não quer. Toda vez que uma parte da elite levantou uma bandeira realista, o povo caminhou por ela. Ninguém vai mais atrás de bandeiras doidas, gente sem força, para expor o povo à humilhação. Já basta a humilhação do dia-a-dia. O povo não é bobo, sabe votar.
JV - O senhor tem algum novo projeto?
Aloysio
- A fase de projetos já acabou. Estou envelhecido, com 70 anos, me casei recentemente pela sexta vez, estou curtindo a minha experiência de vida incrível. Tenho cinco filhos, quatro mulheres e um homem, que são as coisas melhores que eu tenho. Uma família muito unida, todos muito bem, e seis netos. Agora, estou no programa que me dá uma condição de pensar nessa Região, que é de grande importância para o Brasil. Estou num ponto de vista ultra-privilegiado. O destino quis que eu viesse para cá culminar meus conhecimentos nessa Região, que realmente vale a pena!

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