Antônio Tenório

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Tetracampeão Paraolímpico. Esse é Antônio Tenório, o maior vencedor brasileiro da história da competição. Conheça mais sobre a vida do judoca que é deficiente visual desde criança e que voltou ao esporte para conquistar diversos títulos na categoria convencional e fazer história no esporte paraolímpico.

Um vencedor. Esse é o judoca Antônio Tenório, maior nome brasileiro das história dos Jogos Paraolímpicos. No seu currículo são quatro medalhas de ouro em uma trajetória de conquistas que começou em 1996 em Atlanta. De lá para cá se passaram 14 anos, as edições de Sidney (2000), Atenas (2004) e Pequim (2008), e Tenório manteve-se no posto de melhor do mundo.
O reconhecimento pela carreira do atleta veio com o convite para ser o porta-bandeira da delegação brasileira na abertura da competição no Ninho do Pássaro. Uma emoção inigualável na vida do judoca, que é deficiente visual desde criança, quando em uma brincadeira perdeu a visão do olho direito. Anos mais tarde, uma infecção tirou a visão do olho esquerdo.
Mais do que um vencedor paraolímpico, Tenório também conquistou inúmeros títulos na categoria convencional. Um exemplo de atleta que servirá de tema para um filme da Editora Globo que irá para os cinemas no ano que vem. Em uma entrevista para o Jornal Vicentino, o judoca conta sobre a sua trajetória de vitória, a rotina de treinamento e a atual situação do esporte paraolímpíco nacional. Confira:
Jornal Vicentino - Onde você nasceu e quais as principais lembranças de infância?
Antônio Tenório - Nasci em São Bernardo do Campo, em 1970. Era um menino muito levado, brincava e aprontava muito (risos). O judô entrou na minha vida aos 7 anos por causa dessas peraltices que eu fazia tanto. Entrei por intermédio do meu pai no Círculo do Menor Patrulheiro para me acalmar e descarregar a adrenalina.
JV - Logo se adaptou ao judô?
Tenório
- Rapidamente. Desde o começo me adaptei com o judô. Gostava muito de brincar de lutinha, foi uma luva que caiu em mim. Aos 9 anos, mudei para o Volkswagem Clube, quando comecei a competir. Nas competições internas eu já me dava muito bem.
JV - Quando que você perdeu a visão?
Tenório
- Foi aos 13 anos, com um deslocamento de retina provocado por uma brincadeira de estilingue. Mesmo assim eu não parei o judô, continuei treinando. Aos 19 anos tive um acidente no olho direito, uma infecção alérgica que ocasionou o deslocamento da retina.
JV - Nesse momento decidiu parar com o judô?
Tenório
- Eu não quis, eu tive que parar. Os médicos me determinaram isso. Somente em 1992, eu pude retornar aos treinamentos.
JV - Foi um período difícil?
Tenório
- O processo de adaptação é muito difícil e cruel. Você começa a se iludir achando que vai ficar bom e as suas esperanças a cada dia que passa vão ficando menores. Foi aí que decidi voltar para o judô para tentar me colocar novamente como atleta e consegui.
JV - Quando retornou imaginava que poderia vir um dia a se tornar o maior vencedor paraolímpico brasileiro?
Tenório
- Não, não só porque eu não conhecia o desporto paraolímpico. Eu retornei para o judô regular, comecei a competir e me dar bem nas competições. Eu só tive conhecimento em 1993 sobre a existência do esporte paraolímpico, voltado para os portadores de deficiência.
JV - Precisou modificar seu estilo de luta ou mudar algo no seu judô para poder lutar contra pessoas com visão normal?
Tenório
- Não, não desempenhei nada diferente. Muita gente fala que quando se perde um sentido, aguça outro. Na verdade você só começa a prestar mais atenção nas coisas, no olfato, tato. Começa a ficar mais atento e a luta fica de igual para a igual. Quando você faz a pegada no seu adversário, fica tudo igual e você vira um atleta convencional.
JV - Foi muita emoção voltar a competir após o acidente?
Tenório
- A maior emoção desde que eu voltei aos meus treinamentos foi quando me tornei campeão regional. O primeiro portador de deficiência a ganhar essa competição no judô regular. Era uma região extremamente forte, com atletas de todo ABC, Baixada Santista e outras regiões. Me senti muito bem e pronto para competir novamente.
JV - O primeiro ouro paraolímpico foi o mais marcante da sua carreira?
Tenório
- Acho que sim. Em 1996, em Atlanta, acho que foi o mais especial. Me marcou muito pelo aprendizado como pessoa e pelo amadurecimento como atleta. Vi que o atleta tinha que depender do esporte, mas também tinha que buscar mecanismos para que isso viesse a acontecer.
JV - Você passou a viver do esporte?
Tenório
- Não. Ninguém vive apenas do desporto amador. O cara precisa trabalhar, treinar e estudar. Eu sempre trabalhei para poder manter meus afazeres. Atualmente, faço coordenação de projetos do Estado de São Paulo, mas já trabalhei em diversas outras áreas, principalmente a de vendas.
JV - Passou a se planejar para poder obter sucesso nas Paraolímpiadas que é a competição de maior visibilidade?
Tenório
- Não. Nunca planejei minha vida esportiva de quatro em quatro anos. Não dá para fazer isso. Apenas no último ano é ano de sonhar em conquistar a Paraolímpiada.
JV - Mas você sempre se achou 100% preparado para trazer o ouro?
Tenório
- Acho que aquela pessoa que está 100% preparada está na verdade pronta para perder, porque vai com confiança demais. Pensa que vai levar e acaba se decepcionando. Eu sempre entro respeitando cada um dos meus adversários.
JV - Qual foi a Paraolímpiada mais difícil? Você acha que o nível vem aumentando a cada edição?
Tenório
- Todas eu considerei muito difíceis, mas o nível aumenta cada vez mais. Mas não por estarem descobrindo o desporto paraolímpico, porque ele só é novo aqui no Brasil. No exterior ele é muito divulgado e está há anos-luz da gente. Ele vivem do desporto paraolímpico e podem se dedicar exclusivamente a isso.
JV - Qual foi a emoção de carregar a bandeira brasileira na abertura dos Jogos em Pequim? Sentiu mais responsabilidade?
Tenório
- A emoção de levar a bandeira brasileira e conduzir 188 atletas no Ninho do Pássaro é inigualável. Minha vitória em Pequim começou ali. Mas eu não me sinto responsável por nada, nem quando conduzi o pavilhão, nem quando disputo um campeonato. A única coisa que me sinto responsável é corresponder a minha classe social, que são 25 milhões de portadores de deficiência. As outras coisas eu me sinto muito tranqüilo em fazer.
JV - Em termos de estrutura, o que achou de Pequim?
Tenório
- Eu nunca vi uma Paraolímpiada tão organizada como em Pequim, com recorde de público. Foi a melhor de todas. A gente sempre vê uma evolução, mas essa evoluiu muito em relação as outras, tanto em investimento, como em respeito com o portador de deficiência, tudo adaptado da melhor maneira possível. Londres pode superar Pequim, mas vai ter que se esforçar muito.
JV - Você se considera um exemplo de vida?
Tenório
- Eu sempre digo que eu não sou exemplo para ninguém. Posso ser na área esportiva. Não gostaria que ninguém me pegasse como um exemplo de vida, não gostaria de ser colocado dessa forma. Posso ser um exemplo para os atletas que querem chegar lá em cima.
JV - Recomenda que todos procurem um esporte e levem a sério como você?
Tenório
- Todo trabalho que você está praticando e realizando você precisa levar a sério, seja no campo profissional ou esportivo. Se você não fizer isso, não vai chegar em lugar nenhum.
JV - Qual é atualmente a sua rotina de treinamento?
Tenório
- São quatro horas de treinamentos diários quando estou me preparando para competição. Atualmente, eu treino no Projeto Futuro, em São Paulo. Estou sem clube de competição e, como portador de deficiência, defendo o IBDD do Rio de Janeiro.
JV - O que você acha das comparações feitas entre o desempenho do esporte olímpico e paraolímpico?
Tenório
- Primeiramente, a gente não pode comparar o esporte paraolímpico e o olímpico. Um exemplo é o atletismo 100 metros. No paraolímpico são mais de 10 categorias diferentes, enquanto no regular é só o masculino e feminino. Nossa possibilidade de trazer uma medalha é muito maior.
JV - Acredita que falta incentivo?
Tenório
- O investimento precisa vir da área privada. O Governo Federal faz a parte dele, fez a Lei de Incentivo Fiscal, a Agnelo Piva, e a grande maioria das empresas que apoiam os atletas brasileiros são as estatais. Ou seja, a lição de casa é feita. Falta a conscientização dos empresários brasileiros.
JV - Você tem 37 anos, ainda pensa em disputar os Jogos Paraolímpicos de Londres, em 2012?
Tenório
- Não sei, só vou saber disso em 2011. Se quando chegar lá estiver bem preparado, começo a me preparar para mais uma Paraolímpiada.
JV - Tem ainda algum sonho como atleta?
Tenório
- Acho que dentro da minha modalidade esportiva consegui todos os títulos possíveis. Agora é viver o dia-a-dia e todos as glórias que ainda vierem serão muito bem vindas.

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