João Ibañez

Conheça a trajetória de vida do advogado João Maurício Ibañez, autor do livro “A Ponte Pênsil e o Menino”, obra lançada em 1994 e relançada este ano, na Casa Martim Afonso.
Nascido em Adamantina, mas vicentino de coração. Esse é João Maurício Ibañez, advogado que veio à Cidade com apenas 15 dias de nascimento e adotou São Vicente como a cidade do seu coração.
Autor do livro “A Ponte Pênsil e o Menino”, João Maurício conta um pouco sobre a sua admiração por esse monumento histórico e por que resolveu escrever um livro que utiliza a Ponte Pênsil como pano de fundo. Além disso, o advogado fala sobre momentos de sua infância, adolescência e fatos que o marcaram durante sua estadia na Cidade, já que mora atualmente na cidade de Valinhos, interior de São Paulo. Confira a entrevista na íntegra:
Jornal Vicentino - Onde você nasceu e quais as suas principais lembranças de infância?
João Maurício Ibañez - Eu nasci em Adamantina, noroeste de São Paulo. Minha família (Caiaffa dos Santos) é toda daqui, e o sobrenome Ibañez vem do meu pai, que é argentino, um lado que não é muito bom (risos). Mas meu nascimento em Adamantina foi um acidente geográfico, pois meu tio, irmão da minha mãe, era diretor clínico da Santa Casa de lá, e ela teve problemas no parto, por isso acabei nascendo lá. Entretanto, voltei para São Vicente com apenas quinze dias. Na verdade, fui conhecer Adamantina com vinte anos de idade, ou seja, a minha terra é São Vicente mesmo. Fiz vários amigos por aqui. Lembro também que fazia aulas de natação e, às vezes, pulávamos da Ponte Pênsil, o que é uma imprudência, é verdade, mas essa era uma das principais brincadeiras que fazia durante a minha infância. Mais tarde, quando estava com vinte poucos anos, tive uma banda de rock que, inclusive, era produzida pelo apresentador Serginho Groisman. Isso durou de 1981 a 1988, lembro que participávamos de diversos festivais na Região e até em São Paulo. Começamos juntos com toda essa galera do Titãs, RPM. Eu era contrabaixista, cantor e compositor, tive até músicas tocadas nas rádios. Meus filhos seguiram esse meu lado musical, pois um toca guitarra e o outro, teclado. Já minha filha seguirá a carreira de advogada.
JV - Onde você estudou e como era como aluno?
João Maurício - Estudei no Itá, em São Vicente, e no Colégio Santista, em Santos. Eu era ‘levado’, sempre dei trabalho para a minha mãe. Eu só estudava as matérias humanas, pois era as que eu gostava. Matéria como Matemática, por exemplo, estudava apenas o suficiente para ser aprovado.
JV - Sempre gostou de escrever, contar histórias?
João Maurício - Sempre gostei de redação, desde a época de colégio. Inclusive, tirei 7,5 na redação da Fuvest, que é considerada uma nota alta.
JV - Apesar de ser advogado, o senhor escreveu um romance. Por que?
João Maurício - A idéia do livro nasceu quando eu estava na Secretaria de Cultura. Na época, em 1994, a Ponte Pênsil estava completando 80 anos. Como eu conhecia a histórias de diversos monumentos históricos da região e também gostava de escrever, me pediram para fazer um trabalho que retratasse a Ponte Pênsil. Quando comecei a minha pesquisa para escrever o livro, percebi que não podia abordar apenas dados cronológicos, mas, sim, retratar um apelo romântico que a ponte possui, até para deixar a obra mais interessante, uma vez que ela é direcionada até para um público jovem.
JV - Por que o enfoque na Ponte Pênsil e não em outros monumentos históricos?
João Maurício - Acredito que o fato da Ponte Pênsil completar 80 anos foi o principal motivo. Além disso, a Ponte Pênsil talvez seja o principal cartão postal da cidade. Tenho uma amiga que é juiza e não mora aqui, mas sempre lembra da ponte quando fala de São Vicente.
JV - Por que resolveu mesclar histórias do João Calunga, protagonista do livro, com as suas próprias experiências de vida?
João Maurício - Eu acredito que o autor, quando ele escreve, sempre coloca coisas de sua vida na obra, mesmo inconscientemente. Embora o João Calunga tenha nascido em 1904, o que faria dele até meu avô, existem algumas relações, sim. Aliás, eu dedico esse livro ao meu avô, Osias Isidoro dos Santos. Ele, inclusive, tem uma rua com o nome dele no bairro do Catiapoã. Meu avô foi vereador aqui na Cidade e, também, prefeito em exercício durante uma época.
JV - Qual a sensação em saber que a sua obra foi utilizada pelo Aprendiz de Turismo, projeto da Prefeitura de São Vicente com a USP (Universidade de São Paulo)?
João Maurício - Foi muito legal, pois a obra estava ‘esquecida’, uma vez que a obra tinha sido lançada em 1994. De repente, chegou um e-mail da professora Márcia Regina, secretária de Educação, dando a notícia que meu livro foi selecionado e perguntando se eu autorizava a fazerem uma peça baseada no meu livro, além de um filme curta-metragem. Posteriormente, conversei com os alunos sobre a obra e a Ponte Pênsil, foi muito gratificante.
JV - Por que resolveu relançar a obra?
João Maurício - Atualizei justamente por causa do projeto da Prefeitura. Eles não tinham os primeiros exemplares em mãos e, naquela hora, tive a idéia de fazer uma versão atualizada da minha obra. Falei com a editora Vale do Mogi que, inclusive, ja editou alguns artigos jurídicos que escrevi, pois sou diretor do Procon na região de Campinas atualmente. A editora fez o trabalho em tempo recorde.
JV - Quais as modificações para o relançamento?
João Maurício - A nova edição tem o dobro de fotos em relação à primeira. Inclusive, tem algumas fotos desconhecidas do público. Ampliei a parte que fala sobre os presidentes do Brasil, o tema está mais aprofundado. Enfim, o livro está todo repaginado, uma vez que a parte gráfica mudou completamente.
JV - Como foi a experiência de ser diretor do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente?
João Maurício - Foi muito gratificante, apesar da cultura no Brasil não ser vista da forma ideal, sendo muito minimizada e pouco valorizada. Nós conseguimos juntamente com Olivério Perote, secretário de Turismo na época, e a Beth Mendes, secretária de Estado da Cultura, que era santista, até demos um pouco de sorte, tombar a Casa do Barão. Elas estava para ser demolida, pois pertencia à Caixa Econômica Federal e, na última hora, no apagar das luzes, conseguimos tombá-la e livrá-la da demolição. Isso exigiu muito esforço da nossa parte e acredito que essa foi a principal conquista em termos culturais na época. Hoje, a casa está aí com diversas opções culturais, caso contrário, teria se transformado em um prédio provavelmente.
JV - Hoje, você mora em Valinhos. Por que saiu da Cidade?
João Maurício - Fazem 12 anos que estou em Valinhos. Eu e a minha mulher, Renata, somos advogados. Surgiu uma oportunidade de irmos para lá em virtude de oportunidades e contatos profissionais na região de Campinas. Posteriormente, abrimos um escritório lá. Eu era funcionário de carreira aqui em São Vicente, mas pedi exoneração, pois eu teria mais oportunidades como advogado na outra região. Hoje, sou diretor do Procon da Prefeitura de Valinhos e, recentemente, fui eleito diretor regional de Campinas junto à Fundação Estadual Procon. Agora, eu represento 40 Procons municipais da região de Campinas. Mesmo assim, eu adoro São Vicente e estou sempre por aqui.
JV - Sente saudade de São Vicente?
João Maurício - Sinto muita saudade da Cidade. Venho aqui, no mínimo, três, quatro vezes ao ano. Sempre estou vendo a praia, a Ponte Pênsil (risos), sempre passo por lá. Eu noto que muitas pessoas tem amor pela ponte, até pessoas que não moram aqui. Tenho um amigo de São Paulo que sempre relembra dos barulhos que a Ponte Pênsil faz quando os pneus dos carros passam por ela. Ou seja, pessoas de diversas partes do País fazem essa ligação entre a Ponte Pênsil e São Vicente. Mesmo quem não conhece a história da Cidade, que não sabe que São Vicente foi a primeira vila, conhece a ponte. Existem outras pontes, como em Santa Catarina, por exemplo, mas nenhuma tem a beleza da ponte vicentina. E esse apelo romântico que a ponte tem, eu abordo no livro por meio do João Calunga, retratando partes das histórias verdadeiras, como ele conhecendo a sua mulher na Ponte, pois os casais iam namorar no local. Além disso, retratei também a quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929, que coincide até com a crise econômica atual, pessoas que se suicidivam na ponte devido às grandes perdas por causa do café, entre outras coisas.
JV - Hoje, olhando a Cidade, você acha que São Vicente preserva seu patrimônio histórico?
João Maurício - Acredito que essa questão melhorou bastante. A atual administração tem dado uma atenção maior à preservação dos monumentos, mas, infelizmente, muitas coisas foram perdidas com o tempo. São Vicente poderia ter sido melhor conservadade desde 200 anos atrás, pelo menos, uma vez que muitas casas e lugares foram demolidos. Mas dentro do possível, a atual administração está fazendo um bom trabalho, porque está incentivando o que ainda existe e divulgando muito mais a Cidade do que no passado.
