Nasi

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Um rockstar bem humorado e sem papas na língua. Assim pode ser definido Marcos Valadão Rodolfo, o Nasi, ex-vocalista do Ira! e que, agora, está de volta aos palcos com sua nova banda. Em entrevista exclusiva ao Jornal Vicentino, Nasi conta um pouco sobre a origem dos apelidos “Nasi” e “Wolverine”, sua paixão pela música, além de seu novo projeto e a polêmica separação do grupo Ira!.

Em setembro de 2007, Nasi anunciou seu desligamento da banda após uma briga com o seu irmão e então empresário do Ira!, Airton Valadão Rodolfo Júnior. Na ocasião, Airton chegou até ameaçar seu irmão empunhando uma faca. Um ano se passou e, agora, “Wolverine Valadão” retorna em grande estilo com seu novo projeto musical: Nasi e Banda. A seguir, confira a entrevista na íntegra:
Jornal Vicentino - De onde vem a origem do apelido Nasi?
Nasi
- Eu sou filiado ao Partido Comunista do Brasil, cantor de Blues e ogã de Candomblé. Se apelido tem algum sentido na vida, no meu caso não teve muito. Ganhei esse apelido no colégio por questão de anarquismo, não tem nenhuma ligação com a ideologia nazista, pelo contrário, eu abomino. Talvez o nazismo tenha sido a página mais sub-humana da história da humanidade. Acredito, inclusive, que a ideologia possui um complexo de inferioridade com recalques sexuais. A única relação que eu tenho com o apelido é o preconceito com os nazistas.
JV - E por que essa aparência semelhante ao personagem de histórias em quadrinhos Wolverine?
Nasi
- Eu já uso costeletas há muito tempo, apesar de também ser fã dos personagens do Stan Lee, principalmente do Wolverine. Eu acredito que ele marca um momento mais adulto da história dos quadrinhos. Saímos daquele relação com a Guerra Fria, com o Capitão América e o Super-Homem, que representavam os Estados Unidos como defensores da liberdade contra o fascimo e o comunismo. Até o próprio Homem-Aranha e sua crise de adolescência eterna. Acredito que o Wolverine seja o personagem mais rock n’ roll, pois ele tem jaqueta de couro, anda de moto, não recebe ordens, bebe, fuma, enfim, é maravilhoso (risos). O Wolverine, até por causa de suas costeletas, ele é associado, naturalmente, ao rock n’ roll. Eu não conheço nenhuma história que mostre ele em um bar curtindo blues ou falando sobre suas preferências musicais, mas se você fechar os olhos, você colocaria o rock na trilha sonora do Wolverine. Associaram isso a um ensaio fotográfico que eu fiz para a revista da MTV, em 2003, e também ao apelido de “Wolverine Valadão” que os caras do programa “Rockgol” me colocaram (risos). Isso é muito interessante, pois vejo garotos que não conhecem a minha música, mas sabem que eu sou o “Wolverine Valadão”.
JV - E como você convive com mais esse apelido?
Nasi
-  Esse fato do apelido mostra que nós perdemos um pouco de controle sobre as coisas na vida. No idioma de iorubá, que é uma língua africana, existe uma palavra que chama “odu”. Odu não é o destino e, sim, a predestinação. Eu vejo que algumas coisas que fugiram de controle na minha vida, até o estereótipo sobre mim, serve hoje para eu continuar sendo aquilo para o que eu nasci, ou seja, um artista, um cidadão que procura pensar e agir para um mundo mais humano; não comunista, mas menos injusto. Às vezes, eu penso que eu tenho que lutar mais que as outras pessoas nesse sentido, caso contrário, restarão dúvidas sobre eu ser nazista ou não.
JV - Atualmente, você conta com um desenho animado na MTV e, recentemente, lançou até um DVD com os programas. Como é essa experiência de trabalhar como um personagem?
Nasi
- Isso é muito legal. Se por um lado, eu tive algumas decepções grandes no ano passado, eu tive, ao mesmo tempo, essa experiência de participar de um desenho animado, que foi muito boa. Nesse desenho, eu pude interpretar a mim mesmo numa situação paralela, como se eu tivesse uma vida paralela de caçador de fantasmas do rock. O desenho aborda aquela lenda urbana de rodar o disco ao contrário e brinca também com a necrofilia do rock n’ roll. Na minha opinião, rockeiro bom é aquele que já está morto, pois o artista pop, de uma forma geral, precisa lutar sempre contra a decadência quando está vivo. Já o morto é canonizado (risos). A experiência foi muito divertida, pois se os primeiros capítulos foram mais simples, até por respeitar a questão didática do desenho, os últimos episódios foram roteiros feitos a sete, oito mãos, onde pude abordar diversas fatos que estavam acontecendo comigo no Ira!, e até tiro sarro dos ex-integrantes, enfim, foi mais uma psicanálise (risos).
JV - Quando descobriu aptidão para música?
Nasi
- Cheguei a estudar piano quando era garoto, mas depois acabei largando. Tive outras opções na vida, uma vez que pensei em ser oceonógrafo, agrônomo e acabei cursando História. Mas a música, com certeza, sempre fez parte da minha vida; não como um instrumento, mas, sim, como o amor ao disco. Sou colecionador de disco desde os 13 anos, daquele que vai em sebo, que comprava discos usados com a mesada ou com o salário de funcionário de um banco. O amor à música nasceu do amor ao vinil. Hoje, tem a sotisficação da air guitar (simulação de tocar guitarra com os braços), mas eu já fazia isso com uma vassoura desde 1962. Foi por meio dos discos que eu comecei a imitar os primeiros cantores. Esse amor ao disco foi uma aventura, como montar uma banda na garagem e tocar em um festival de colégio. O rock me tomou para si e não o contrário.
JV - Por que a banda Ira! acabou?
Nasi
- A banda já tinha acabado antes, essa é a verdade. Nada melhor que você ver o making-off do nosso último DVD. Eu era o cara de mais bom humor, pois estive na praia durante todo o processo de gravação do CD (risos). Gravei praticamente sozinho todas as vozes apenas com a companhia do produtor. Pelo DVD, você já percebe todo o clima e as indiretas que existiam. Chegou em um determinado ponto que eu me perguntei: Por que terei uma banda de rock para isso? E a banda já estava com esse clima há um bom tempo. Todos os ex-integrantes, sobretudo o Edgar (Scandurra, guitarrista), sabem disso. Mas chega uma hora que parece que você fica refém de um dinheiro garantido em todo final de mês, entendeu? Entretanto, eu não nasci para isso. Gosto de dinheiro, sei que preciso, quero que meu cachê fique cada vez melhor, mas não quero me submeter a tudo aquilo que a banda representava no momento, como descobrir que tinha um patrão - no caso, meu empresário - e trabalhar com pessoas que não se identificavam comigo. Eu não montei uma banda para isso. Internamente, eu já saí do Ira! duas vezes, mas isso não vazou para a imprensa. No entanto, dessa vez eu disse “chega” e ressaltei que todos saberiam que a banda daria um tempo. Depois, infelizmente, descobri que eu não estava sendo devidamente apresentado aos contratos e valores devidos. Com isso, juntou uma banda dividida, um empresário em litígio comigo, enfim, todos contra o Wolverine. Mas eles se deram mal, pois bateram, bateram e bateram, mas eu levantei do escombro e disse: Agora, é a minha vez.
JV - E como é o seu relacionamento com os ex-integrantes?
Nasi
- Hoje, só com o Gaspa (Ricardo, baixista). Ele, inclusive, voltou a tocar comigo. Como o Gaspa tem um projeto de rockabilly, ele é substituído, eventualmente, por outro baixista. Ele (Gaspa) foi um cara que sempre teve a mesma opinião que eu, mas foi levado ao erro em um momento que a ruptura foi traumática, até pelas vias de fato com o irmão-empresário, enfim, foi uma salada muito grande. Quanto ao Edgar Scandurra, apesar de termos montando a banda juntos, ele foi leviano e covarde comigo. Eu poderia quebrar a cara dele, mas eu não faria com ele o que ele fez comigo. Na história do rock, você já viu Stones batendo em Stones, Clashs já bateram em Clashs, mas eles preservaram algo muito maior, que é a dignidade. Já o André (Young, baterista), não quero ver nem como músico, amigo ou ex-baterista do Ira!
JV - Agora, você está com uma nova banda. Como foi feita a composição dos novos integrantes?
Nasi
- É um quarteto tradicional, guitarra, baixo, bateria e teclado. Para a guitarra, eu trouxe um guitar hero da década de 80 chamado Nivaldo Campobiano, que era de uma banda chamada Muzak. Para a bateria, eu trouxe um instrumentista que eu descobri pelo Brasil afora chamado Evaristo Pádua, que é originamente de Ribeirão Preto. Ele é um dos melhores bateristas que eu já vi e fiz questão de chamá-lo para vir a São Paulo para tocar comigo. Já no baixo há um revezamento entre o Gaspa e o Johnny Boy. O teclado fica por conta do André Youssef, que já é do cenário do jazz e blues de São Paulo e um jovem tecladista de muito bom gosto. Eu montei um time que está funcionando, estamos fazendo shows em locais pequenos e médios, como esse que fiz no Guarujá, além de festivais para dez mil pessoas, como no interior de Minas, Salvador, Fortaleza.
JV - Então você está muito mais motivado para tocar?
Nasi
- Muito mais. Agora é diferente, pois são um por todos e todos por um. Não tem mais aquela coisa de, por exemplo: você viu aquela camisa que ele colocou? você viu o que ele falou para o público? (risos) Hoje é todo mundo se divertindo e torcendo um pelo outro. Faço um show que sei que vou me divertir e que divirtirei o público também. Para mim, precisa ter discernimento de um rock com bastante energia, mas também com elementos de blues e um swing black, que eu gosto. Eu não sou faço black music, mas eu gosto de um rock negro.
JV - Qual sua avaliação sobre as novas bandas que estão surgindo no cenário do rock, sobretudo as independentes?
Nasi
- Para te falar a verdade, eu acompanho muito pouco. Apesar de montar um site (www.nasioficial.com.br) com todo acervo disponível para download gratuitamente, desde meus quatros discos solos até materiais raros como jam sessions (apresentação espontânea, sem nenhuma preparação prévia), eu não sou internauta e nem tenho e-mail. Ao mesmo tempo, eu reconheço que isso é uma maravilha para revolucionar e democratizar a produção independente. Eu já fui e sou músico independente, pois o fato de ter assinado com multinacionais em determinados momentos não tira a minha independência. No entanto, antes da internet, você fica sujeito a teste do sofá com diretor da gravadora. Mas tem vários tipos de testes do sofá, viu? Conheço vários artistas do rock nacional que passaram, literalmente, pelo teste do sofá (risos). Brincadeiras à parte, eu não posso analisar com propriedade sobre essa nova safra.
JV - Mas existe alguma banda que chamou a sua atenção?
Nasi
- Eu gosto muito do Forgotten Boys. Eles não são uma novidade, mas acredito que eles sejam uma verdadeira banda de rock, com um som de rock de garagem. Hoje no Brasil e no mundo inteiro temos o hype (promoção extrema de uma pessoa, idéia ou produto). Qualquer coisa é capaz de criar um hype tão grande, que você não tem noção, como um cantora de 16 anos acabar virando a Joni Mitchell. Mas voltando ao Forgotten Boys; eles fazem um rock n’ roll que poderia tocar em qualquer parte dos Estados Unidos ou da Inglaterra. Os caras têm uma identidade própria e passaram da fase do hype. Quando passa dessa fase e continua, eu aprovo. Até como diz o comentarista esportivo Oscar Roberto Godói, eu “carimbo” (risos).
JV - Você é compositor, cantor, intérprete, produtor e arranjador. Qual a função que te dá mais satisfação e qual é a mais difícil?
Nasi
- Boa pergunta. Acredito que interpretar seja a que me dê mais prazer e, às vezes, é a mais difícil, porque a interpretação leva um pouco de tudo. O meu último disco, “Onde os Anjos Não Ousam Pisar”, eu acabei assinando a produção, pois participei do processo de gravação e mixagem. Eu gosto de produzir também, pois a interpretação não está somente na questão se eu vou cantar rouco ou suave, mas, sim, como fazer a banda imprimir um certo tipo de tonalidade da música para me impulsionar. Acredito que o processo de interpretação seja um pouco mais completo como compor e produzir.
JV - Como resumir 27 anos de carreira em um show?
Nasi
- Tem que voltar para o começo, para a mesma energia do início de carreira, cantar músicas que tenham um significado para mim. Hoje, por exemplo, fiz uma nova versão para o “Tempo Não Pára”, do Cazuza, e “Música Urbana”, do Capital Inicial. Além disso, acredito que preciso ter uma sintonia com o público. Como cantor, eu tenho essa função mais clara do que os outros integrantes. O instrumentista fica muito centrado no seu próprio pinto e esquece de ver as meninas, entendeu? Eu quero continuar impressionando as garotas e deixando os namorados delas com raiva. Isso é fazer rock n’ roll (risos).
JV - Dentre todos os sucessos que você compôs e interpretou, qual a música que mais te marcou?
Nasi
- Das músicas que compus no Ira!, não tenho nenhum grande sucesso. Mas a música “Rubro Zorro” é de minha autoria e eu gosto bastante. Mais importante do que compôr é interpretar, porque quando você ouve “O Bêbado e a Equilibrista”, você lembra da Elis Regina. O João Gilberto, por exemplo, tem apenas três ou quatro composições. Às vezes, o trabalho do intérprete não é apenas cantar e imprimir a sua voz, mas, sim, construir todo um cenário e até trazer uma letra que tenha um sentido forte para o momento. Atualmente, canto “O Tempo Não Pára”, uma música que diversos artistas já gravaram, desde cantores de MPB até o Ney Matogrosso, mas duvido que algum deles tiveram tanta identificação com a letra como eu tenho agora. Para isso, eu fiz um arranjo que é melhor do que o do próprio Barão Vermelho. Tirando a parte técnica, eu consigo passar uma emoção para os outros músicos e, depois, eles até repararam que a letra tem muito a ver com o que estou vivendo atualmente.

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