Personalidades
- dezembro 26, 2008
Ozires Silva

Depois de presidir empresas como a Embraer, Varig e Petrobrás, e exercer o cargo de Ministro da Infra-Estrutura, Ozires Silva é o novo reitor da Unimonte. Em entrevista ao JV, ele conta um pouco mais sobre sua a trajetória de sucesso. Confira:
O oficial da Aeronático e engenheiro formado pelo ITA, Ozires Silva é sempre lembrado pela contribuição no desenvolvimento da indústria aeronáutica brasileira. No currículo a presidência da Embraer, uma das maiores empresas aerospacias do mundo, da Varig, além de capitanear a equipe que projetou e construiu o avião Bandeirante.
Sua rica trajetória também passa pela presidência da Petrobras e pelo cargo de ministro da Infra-Estrutura, entre diversos outros postos ocupados. Ozires já recebeu diversos prêmios e publicou livros como: A decolagem de um sonho, Cartas a um Jovem Empreendedor e Nas Asas da Educação: A Trajetória da Embraer.
Todo conhecimento obtidos ao longo dos 78 anos de vida, agora, trabalham em prol da educação da Baixada Santista. Desde outubro deste ano, Ozires é reitor do Centro Universitário Monte Serrat. Conheça um pouco mais sobre a sua vida, em entrevista exclusiva ao Jornal Vicentino:
JV - Onde o senhor nasceu e quais as principais lembranças da infância?
Ozires Silva - Nasci em Bauru, no interior de São Paulo, e fui muito influenciado pelas iniciativas do presidente da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, cuja sede era em Bauru. O presidente, um Coronel do Exército, Américo Marinho Lutz, decidiu criar uma Escola de Aeromodelismo, uma outra de Pilotagem de Planadores e uma terceira para formar Pilotos Privados. Investiu na construção de instalações modernas para o Aeroclube, transformando Bauru em um importante centro aviatório. Eu e um grande amigo de infância, Benedicto Cesar (conhecido pelo seu apelido Zico) nos agregamos às escolas, inicialmente a de Aeromodelismo e, após, a de Planadores. A Segunda Guerra Mundial estava para terminar e o Coronel Marinho Lutz conseguiu que um expatriado da Suíça, Hendrick Kurt, se estabelecesse em Bauru, contribuindo enormemente para o ensino de pilotagem em planadores. Ele, trazendo a experiência do seu país natal, começou a projetar e fabricar um novo planador, que denominou ‘Flamingo’. Estávamos em 1945. Zico e eu com 15 anos de idade. Nos tornamos entusiastas das invenções realmente maravilhosas, com as quais tomamos contato graças ao Kurt, as quais funcionavam e faziam voar planadores ou aviões. Estava iniciando algo que nos induzia a nos envolvermos em fabricação de aviões. Não compreendíamos por que entre o Brasil e Estados Unidos, ambos com a mesma idade desde a descoberta das Américas, somente os americanos fabricavam aviões, muitos deles operando no próprio Aeroclube de Bauru. Nunca me esqueci das discussões que esse quadro desvantajoso para nós, os brasileiros, ensejou.
JV - Onde estudou e como era como aluno?
Ozires - Estudei no antigo Ginásio do Estado, hoje Instituto Ernesto Monte, em Bauru. Zico e eu pertencíamos à mesma classe. Como aluno, Zico era melhor do que eu. Sempre me situei na média das turmas. Somente me destaquei um pouco melhor no ITA - Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos, quando me graduei como Engenheiro Aeronáutico, em 1962, graças a uma bolsa de estudos Integral concedida pela Força Aérea Brasileira.
JV - O senhor é oficial da Aeronáutica e engenheiro formado pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Desde pequeno era apaixonado por aviões?
Ozires - Sim. Formei-me Piloto Militar e Oficial da Força Aérea em 1951. Pelas experiências das quais participei no Aeroclube de Bauru, a paixão por aviões foi se desenvolvendo. A Força Aérea Brasileira (FAB) me ofereceu todas as oportunidades que consegui na aviação.
JV - Como foi participar da construção do avião Bandeirante?
Ozires - O Bandeirante foi uma resposta às nossas dúvidas, entre muitas, sobre qual tipo ou modelo de avião que poderíamos tentar fabricar no Brasil e que pudesse ser razoavelmente diferente daqueles que eram normalmente produzidos nos países mais desenvolvidos. Ele surgiu da idéia de que as pequenas cidades do futuro deveriam ter à disposição o transporte aéreo. E essa idéia deu resultados, pois, por muitas décadas, as grandes empresas produtoras sempre se dedicaram a criar aviões maiores e mais velozes, crescentemente distantes das infra-estruturas pouco preparadas das comunidades menores.
JV - Além disso, como foi liderar o grupo que promoveu a criação da Embraer?
Ozires - Creio ter sido um processo quase natural. A FAB concedeu-me uma bolsa de estudos para me graduar como engenheiro aeronáutico no ITA de São José dos Campos. Como engenheiro tornou-se possível tentar convencer pessoas que se poderia fabricar aviões no Brasil. Não foi simples nem rápido o processo de convencimento de mais gente para colaborar do processo. O nível de dúvidas era grande e as chances de sucesso pequenas. Todavia, progressivamente, fomos conseguindo conquistar espaço. Na FAB, meus colegas de Academia da Força Aérea foram galgando postos mais elevados e sempre me ajudaram. Enfim, confesso que foi um processo árduo, mas sem dúvida gratificante.
JV - O senhor presidiu a Petrobras, uma empresa que não possui ligação com o setor de aviação. Foi um desafio na sua vida?
Ozires - Sim. Foi um interessante e novo desafio, o qual me pareceu necessário na época, em 1986. Deixar a Embraer não foi fácil, mas estava convencido que, dirigindo a empresa por quase 20 anos, ela poderia, com novos dirigentes, avançar mais para o futuro, embora o cenário no final de 1989, para o transporte aéreo mundial, indicasse claros e sombrios prenúncios de crise, o que de fato aconteceu. Chegar à Petrobras como engenheiro aeronáutico, mais conhecedor da estratosfera do que as profundezas do planeta, foi menos difícil do que esperava. Também fui melhor recebido do que esperava.
JV - Como o senhor avalia a descoberta de bacias petrolíferas na região?
Ozires - A descoberta de petróleo e gás na região da Baixada Santista foi identificada em 1987, mas os desafios de recuperar essa energia sempre indicaram que não seria fácil, como tem sido discutido na atualidade pelos especialistas. A bacia produtora da região encerra dificuldades técnicas e tecnológicas de monta que, tenho certeza, serão superadas pelas equipes realmente competentes da Petrobras, mas podem levar tempo e necessitar de expressivos investimentos em pesquisas e equipamentos.
JV - 8. E por que retornou à Embraer? Acredita que a privatização da empresa foi benéfica para o Brasil?
Ozires - O quadro de depressão no sistema mundial de transporte aéreo persistiu durante vários anos no final dos 1980 e no início dos 1990. O meu retorno à Embraer foi pedido pelo Alto Comando da Força Aérea, então presidido pelo Ministro da Aeronáutica da época, meu colega de Academia, Tenente Brigadeiro Sócrates da Costa Monteiro. Ele falou comigo e acreditava que eu, como um dos fundadores da empresa, poderia gozar da confiança dos empregados e da comunidade, para empreender as mudanças necessárias tanto na produção da empresa como do seu sistema corporativo.
JV - O senhor também presidiu a Varig. Como foi dirigir uma companhia área?
Ozires - Creio que sou um dos poucos exemplos mundiais que fabricou aviões e posteriormente presidiu uma operadora. São experiências absolutamente diversas. A Varig, sob o comando dos empregados, representado pela Fundação Rubem Berta, tinha dificuldades para encontrar consensos no sentido de administrar a crise que a empresa estava mergulhada, devido a um endividamento elevado. A Varig contestava o endividamento afirmando, o que parece ser verdade em face de várias decisões de tribunais brasileiros, que os débitos atribuídos pelo Governo na realidade foram produtos de decisões governamentais, de não permitir ajustes das tarifas de forma adequada, no quadro de enormes índices inflacionários observados na economia nacional no final da década dos 1980 e início da de 90. O que acabou acontecendo, determinando a saída da grande empresa brasileira dos mercados nacional e internacional, foi uma grande perda para o país e para os usuários. Ainda hoje o Brasil vive problemas, muitos decorrentes de sua falta.
JV - Apesar dos recentes desastres aéreos no País, o avião ainda é considerado o meio de transporte mais seguro que existe. Como avalia a situação da aviação brasileira?
Ozires - Realmente o avião é aceito mundialmente como o meio de transporte entre os mais seguros, graças ao desenvolvimento tecnológico e a grande experiência acumulada pelas operações, em que pese o fato de se tratar de um modal relativamente recente. A aviação brasileira é moderna e razoavelmente equipada, apenas expressando minha opinião pessoal, ela é menor do que as necessidades do nosso grande país. Isto se deve, muito certamente, ao excesso de regulamentos e exageros da burocracia típica da nossa cultura. Há um espaço enorme para o seu crescimento e as necessidades existem, como existem também empreendedores interessados. Apenas aqueles que desejam investir no transporte aéreo têm receio de entrar em um sistema de concessão pública, pesado e lento, longe da dinâmica exigida para operar produtos caros e de custos operacionais grandes, como é o caso dos aviões.
JV - Quais foram os aprendizados como ministro da Infra-estrutura?
Ozires - O Ministério da Infra-Estrutura foi minha primeira experiência no serviço público e fiquei surpreendido pelo peso e complicação dos processos decisórios. Passei a defender, ao lado dos meus colegas de Ministério, a adoção de regras mais simples e de simplificação da legislação para melhor servir aos interesses do povo brasileiro. Não foi possível conseguir resultados. E, embora algumas decisões importantes tomadas, nos quatro setores do Ministério – Transportes, Comunicações, Minas e Energia -, acabei pedindo minha saída com pouco mais de um ano no Governo. Desejo assinalar que, ainda hoje, realmente precisamos enfatizar muito a necessidade de se alterar essa cultura e esse quadro pouco positivo, pois é possível se pensar que a insuficiência do desenvolvimento do nosso país seja conseqüência dessas condições realmente adversas do referido processo decisório oficial.
JV - Agora como reitor da Unimonte, qual a sua expectativa? Como tentar passar o seu sucesso como empreendedor para os alunos?
Ozires - Uma das características que mais temos de admirar na juventude é o apetite pelo novo. Os jovens alunos do ensino superior estão se preparando para a vida e cabe às instituições de ensino aprimorar seus programas e desempenho de modo que a capacidade de aprendizagem nas aulas sejam os melhores possíveis. Na atualidade, o mundo é global e temos de pensar de forma global. Produtos de todo o mundo são vendidos em todo o mundo. A competição e as oportunidades também se globalizaram, requerendo novas aproximações em termos de métodos, processos e ações. Assim, seguindo os passos da Unimonte dos últimos dois anos, vejo que o progresso ainda maior da instituição é possível. O corpo docente é competente e motivado, os quais, trabalhando com entusiasmo, poderá influir decisivamente para que os graduados pela Unimonte possam realmente serem vencedores no mercado de trabalho, agora também global, e sobretudo na vida.





1 Comentário para “Ozires Silva”
Sr. Diretor do JV,
Li com toda a atenção que merece o nosso ilutres brasileiro, Ozires Silva, e cada vez mais me envaidece de tê-lo como irmão em cristo. PARABÉNS. A folha de serviços prestados à nação é linda.
Espero um dia ter a oportunidade de conhecer a UNIMONTE e quem sabe, ter o prazer de apertar a mão do Dr. Ozires.
Muito obrigado,
João Carlos Ferreira da Silva
Por João Carlos Ferreira da Silva em mai 29, 2009