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- fevereiro 25, 2009
“Queremos nos aproximar ainda mais do Hospital São José”

Controlar a Saúde em São Vicente não é tarefa fácil. O problema nacional se agrava na Cidade devido ao baixo orçamento e aos valores defasados pagos pelo Governo para o atendimento SUS. Mais uma vez quem comanda a pasta é Cláudio França, que fala sobre a atual situação dos equipamentos do Munícipio e os projetos para esta gestão. Confira:
JV - O serviço de saúde é um problema nacional e o que se vê é muita reclamação sobre o repasse SUS dado pelo Governo para os munícipios. O senhor poderia explicar essa situação aqui em São Vicente?
Cláudio França - A gente divide a saúde pública em dois grandes eixos principais, a atenção básica, que são os postos de saúde, UBS´s, medicamentos, e o atendimento de média e alta complexidade, que são relativos aos pronto-socorros, hospitais, cirurgias e exames. Além disso há também assistência farmacêutica, vigilância de saúde (epidemiológica, sanitária, zoonoses), entre outros. Cada bloco tem o seu financiamento e onde se deve investir. Hoje o recurso que mais consome dinheiro não é a atenção básica, mas sim a alta e média complexidade. As internações, cirurgias, exames sofisticados despendem maior valor, que varia de município para município. O repasse do dinheiro do Ministério é baseado no número de habitantes per capita e do quanto você faz. Durante muito tempo fomos dependendes de Santos. Depois da municipalização cada cidade foi se organizando e começou a fazer suas coisas. Santos ficou como munícipio-base e passou a ter um financiamento maior. Com o decorrer do tempo passamos a fazer mais coisas, não usamos o recurso de Santos, mas embora se amplie as ações, os recursos não vem com a mesma velocidade. Precisamos financiar para depois de três anos a União reconhecer isso. Embora o Governo tenha sido um pouco mais socialista, o patamar de diferença é bastante significativo. O grande problema é que o valor pago não consegue subsidiar as internações, o valor é muito aquém do necessário. Internar um paciente pelo SUS nos hospitais tem sido cada vez mais difícil porque representa prejuízo. Toda internação subsidia com outras coisas, da atenção básica, do dinheiro do Município, não tem mágica. A atenção básica é a área que consome menos, mas deveria ser o inverso, se desviasse o dinheiro para prevenção, evitaríamos que as pessoas ficassem internadas.
JV - Estruturalmente, pronto-socorros e unidades básicas de saúde estão preparadas para atender a população?
Cláudio França - Na atenção básica estamos perfeitamente preparados para atender, bem estruturados, devemos ainda neste mudar algumas instalações para melhor, mas temo espaço e material de consumo à vontade, desde medicamento até material de limpeza, tudo devidamente abastecido. Recurso humano ainda há a rotatividade e a dificuldade para recolocar alguém no lugar de quem sai. Mas isso não é de ontem, não é de hoje, nem vai ser de amanhã. Mas com o médico na unidade, temos um bom índice de satisfação. Na média e alta complexidade temos o Samu muito bem estruturado, o serviço veio, ficou e a comunidade gosta muito, a estrutura dos pronto-socorros tem sendo vista periodicamente, temos tentado melhorar o atendimento e conseguido manter a regularidade, com 95% do preenchimento de médicos. Temos dificuldade na pediatria. Nos três PSs da Área Continental temos 100% de preenchimento, mas no Crei ainda falta. É bom lembrar que temos o menor indicador de leitos por habitante, que é de 0,16. Esse é um complicador e por isso vemos pacientes no corredor, nas macas. Usamos o leito do Hospital São José mas é um prejuízo, por isso sempre trabalhamos em sintonia com o hospital, com a UTI NeoNatal, o Hospital da Mulher, temos 30 médicos lá, funcionários da prefeitura, para diminuir o prejuízo dessas internações.
JV - A Área Continental está equipada da mesma forma que a área insular? Há possibilidade da construção de um hospital?
Cláudio França - Está equipada do ponto de vista de urgência e emergência. Precisa melhor a atenção básica. Esse ano vamos ampliar o Saúde da Família, que é uma meta do prefeito e do Governo. Construir o espaço físico de um hospital é a coisa mais fácil, com recursos, difícil é colocar para funcionar. A estimativa é que você gaste por mês o valor que você gasta para construir. Não sei se teríamos perna para tudo isso. Há o projeto do Governo do Estado para a construção do ambulatório de especialidades (AME), que terá uma ótima estrutura com projeção de mais de 15 mil atendimentos mês. Já doamos o terreno para o Estado. Há também o projeto de um hospital de 30 leitos anexo ao PS do Humaitá, mas de pequeno porte, em breve teremos novidades.
JV - Como São Vicente lida com esse problema da falta de médicos?
Cláudio França - Lida como todo Brasil. A carência médica é nacional e até internacional, já vi anúncio de médico para a Austrália. Na nossa região especificamente é difícil, o número de médicos é pequeno e o número de especialidades é cada vez maior. Há também o desinteresse em algumas áreas como a pediatria. Fizemos concursos com 10 vagas e apareceram 3 candidatos. No Crei tínhamos 3 pediatras, passamos para 2 e agora eu brigo por 1. A Rede privada também abriu pronto-socorros e os profissionais vão para onde ganha mais. Temos a dificuldade salarial porque são funcionários e é o salário da prefeitura. Não tem como mexer. Santos paga melhor, todo mundo corre para lá, São Vicente paga mais, voltam. Não sei se na região tem profissionais suficientes para todas as áreas que os pronto-socorros exigem.
JV - Não vê perspectiva de melhora no futuro?
Cláudio França - Depende de ação do Governo, do Ministério da Saúde e da Educação. A Saúde pública não precisa de um super especialista. Isso é coisa para a saúde privada. As residências públicas só deveriam oferecer opções para saúde básica como pediatria, cardiologia, obstetrícia. Você faz uma residência, a mais sofisticada, que só trata de um segmento do corpo, fica 4 anos, depois não vai fazer um serviço público e sim privado. A residência tem que ser voltada para as necessidades do serviço público. Um cirurgião que só sabe tirar a unha do pé esquerdo deixa para quem quiser ficar pagando. Talvez seja uma forma de ter mais profissionais na saúde básica. Não que não vá ter, nem precise de especialista, mas a saúde básica precisa de uma atenção maior.
JV - Como está a Cidade em relação ao combate a Dengue e às DSTs?
Cláudio França - Graças a Deus estamos bem. A dengue diminuiu muito em São Vicente e Região. Aqui foi a primeira da região com baixos novos casos da doença. É um trabalho que a gente tem conseguido controlar, mesmo sabendo que é sazonal. É preciso intensificar as campanhas e fazer com que o pessoal participe, porque depende da população. Esperamos chegar até julho neste patamar. No DST também temos um serviço de bastante qualidade, conseguido uma grande diminuição no decorrer dos anos. No ano passado tivemos apenas 2 casos de transmissão vertical de mãe para filho. Há agora uma incidência de casos da Aids na Terceira Idade, então estamos fazendo um trabalho nesta faixa etária. Estamos dentro do padrão nacional e contamos com uma equipe bastante comprometida, que está fazendo a lição de casa e conquistando bons índices.
JV - São Vicente também tem se destacado no tratamento ao portador de deficiência. Pode ser vista hoje como um exemplo?
Cláudio França - Fomos bem avaliados pelo Ministério da Saúde, que veio aqui de surpresa e verificou nossas instalação e serviços classificando como ótimo e bom. Melhoramos o atendimento com a abertura do Reabilitar na Área Continental, principalmente em relação a pediatria, temos o São Camilo, que já é um ícone que oferece um ótimo serviço para crianças portadoras de paralisia cerebral. Fora isso conseguimos entregar para todas as crianças e adolescentes cadeiras especiais, não temos mais filas, assim como próteses de membro inferior debaixo do joelho e órteses de membro superior. Ficam faltando as próteses a nível de coxa que pretendemos zerar neste semestre.
JV - Os mutirões da saúde continuam neste ano?
Cláudio França - Continuam sim. Foi uma bandeira que levantamos bastante interessante e que ajudou muito a população. Teremos novidades neste ano, porque queremos acrescentar algumas coisas para poder dar respostas imediatas para a população, para não ficarem apenas na consulta, ou seja, ampliar as ações. Devemos começar no final de março ou no início de abril.
JV - Quais são os objetivos traçados pela Sesau?
Cláudio França - Até por opção do prefeito Tércio vamos investir no Programa da Saúde da Família, levando mais médicos para as casas. Temos 5 equipes e a meta é chegar a 15 até o final do ano, principalmente direcionadas para Área Continental. Do ponto de vista hospitalar queremos nos aproximar mais do Hospital São José com serviços, com formas para equacionar a parte financeira, já que é o lugar que hoje poderia nos oferecer leitos. Essa é a forma mais imediata para diminuir as dificuldades. Também estamos na expectativa da instalação do AME que vai ajudar na Área Continental de forma bastante significativa.
JV - Qual a sensação de estar mais uma vez a frente de uma pasta tão complicada como a Saúde?
Cláudio França - Tenho formação de médico, comecei a minha vida e estava nesta área até poucos anos. Lá é você e o paciente, é uma relação de um para um. Temos a responsabilidade sobre ele. Depois passa a gerenciar uma clínica, são mais pessoas, depois fui para a Caixa de Saúde, onde atende todos os usuários e agora sou eu e os 330 mil munícipes de São Vicente. O coletivo é muito agradável. Me entusiasmei muito porque nossas ações beneficiam muita gente. Quando você trata individualmente de uma criança, é muito bom ver os pais satisfeitos, mas satisfazer um número tão grande de pessoas é mais gratificante. Tenho despertado cada vez mais interesse e enquanto for convidado continuarei aqui.



