Márcia Rosa

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Comemorando o Dia Internacional da Mulher, prefeita da Cubatão ressalta importância da mulher na política do
País e diz o que ainda precisa ser feito para construir uma sociedade mais igualitária e justa

Uma mulher resistente, perseverante, com espírito de luta e, ainda, bem humorada. Essa é Márcia Rosa, prefeita de Cubatão, que em entrevista ao Jornal Vicentino fala sobre sua infância, a experiência como educadora, bem como fatos curiosos que aconteceram na sua trajetória política. Além disso, a prefeita destaca também a constante briga pelos direitos da mulher na sociedade. A seguir, confira a entrevista na íntegra:
Jornal Vicentino - Onde você nasceu e quais as principais lembranças da sua infância?
Márcia Rosa
- Eu nasci em Cubatão, morava na rua Antônio Lemos, próximo à praça Princesa Isabel. Morei na Antônio Lemos até os meus sete anos e, depois, mudei para o Jardim Casqueiro, onde moro até hoje. Descendente de português com mineiro, sou a filha do meio e isso não é fácil (risos). Não é fácil, pois minha outra irmã é a caçula e o mais velho é homem. Como somos frutos de uma sociedade machista e conservadora, que, infelizmente, foi construída dessa forma, naquela época as meninas ao completarem sete anos já tinham que lavar louça, limpar a cozinha e a casa. Acredito que essa minha luta a favor da igualdade da mulher vem um pouco disso, pois meu irmão era mais velho e podia jogar bola. Enquanto isso, eu ficava limpando a casa. Lembro que falava para o meu pai: “Poxa vida, ele vai jogar bola e eu tenho que limpar a casa?” E meu pai dizia: “Não, eu vou mandar ele te ajudar também”. Meu pai era mais democrático que a minha mãe (risos). Ele veio de Minas Gerais para trabalhar na construção da Cosipa. O pólo petroquímico da Cidade foi construído por essas pessoas que vinham de fora, sobretudo da Região Nordeste e Sul de Minas. Aqui, meu pai se casou com a minha mãe e tivemos toda nossa vida em Cubatão. Eu costumo dizer que eu tenho uma relação afetiva com a Cidade, algo muito profundo.
JV - Onde você estudou e como era seu desempenho na escola?
Márcia
- Estudei em Cubatão mesmo. A escola pública era chamada Grupo Escolar Jardim Casqueiro, onde hoje encontra-se outra escola, a Ortega. Cursei o primário e ginásio nessa escola. Já o colegial cursei na escola estadual Castelo Branco, desde a sua inauguração. Depois, por meio de concurso público, me tornei professora de Química dessa mesma escola. Além disso, a minha filha mais velha, que cursou vestibular para Matemática, também é professora efetiva do Castelo Branco. Quanto ao meu desempenho, eu sempre fui estudiosa, mas, ao mesmo tempo, era bagunceira. No entanto, eu sempre soube separar bem as coisas. Aprender as coisas sempre foi algo que me atraiu muito. Me formei na área de Exatas, mas gosto de estudar tudo. A vida só tem sentido a medida que você continua aprendendo as coisas. No dia que eu achar que sei tudo, é por que nada sei e não tenho mais nada para contribuir. Como eu sei só um pouco, continuo buscando as coisas.
JV - Desde pequena, você já se interessava por política?
Márcia
- Eu fui criada numa família que não discutia questões políticas. Mas meus posicionamentos sempre foram políticos, como exigir mudanças em regras já estabelecidas. Assumi a Prefeitura, inclsusive, para quebrar regras e não para me acomodar. Sempre digo que temos duas opções na vida: ou nós nos acomodamos, ou nós nos incomodamos. E eu sou uma pessoa que sempre me incomodei. Quando estamos incomodados, nós interferimos para causar mudanças. Não sei dizer exatamente de onde veio esse meu interesse por política, mas acredito que não há um marco de “aqui se iniciou seu interesse político partidário”. A política não foi uma coisa que determinei para a minha vida. Mas como disse, sempre tive meus posicionamentos políticos, como na escola ser uma aluna questionadora. Quando cheguei para dar aula, lembro que vi a fila de meninos e meninas. Questionava isso, pois isso era algo da minha época e que existe até hoje. Lembro que eu até fazia diferente, montava uma fila mista, e era questionada pela direção da escola. Acho que são em pequenas coisas, como discutir uma fila, que você debate a simbologia de valores na sociedade. Isso me gerou muitos conflitos nos local em que trabalhei, mas valeram a pena e não me arrependo.
JV - Quando você decidiu que gostaria de seguir carreira política?
Márcia
- Eu me envolvi diretamente na política quando entrei para a Educação. Como professora, com 22 anos, fazia parte da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo). Eu era representante de escola na Apeoesp, depois me tornei conselheira regional e, posteriormente, conselheira estadual. Depois, comecei a atuar na área jurídica da Apeoesp e descobri um mundo que não conhecia. O mundo jurídico me atrai muito, como do ponto de vista dos direitos, deveres, toda essas questões. Como fiquei mais de 20 anos dentro da Apeoesp, as pessoas falavam: “Você precisa ser vereadora e se filiar a um partido”. Na época eu não pensava nisso, mas quando foi instalado o primeiro Conselho Municipal de Educação de Cubatão, lembro que os cargos eram indicados pelo prefeito e um deles era indicação de uma associação. Como era membro do conselho, levei essa questão para a Apeoesp e questionei o formato da mesma. A Apeoesp realizou uma grande plenária, me candidatei e, depois, fui eleita. Após minha eleição, apresentei o documento para o prefeito, que na época era o Nei Serra, mostrando que o sindicato me indicou por eleição. Falei que achava um absurdo toda a composição do conselho não ser eletiva. Enfim, todas essas discussões jurídicas sempre me atraíram muito. Lembro que, na época, eu procurava os vereadores para que mudassem a lei, mas ninguém a fez. Quando assumi a prefeitura, meu primeiro projeto de lei foi mudar essa lei. Hoje, todos os cargos que compõem o Conselho Municipal de Educação são cargos eletivos.
JV - E por que a escolha pelo Partido dos Trabalhadores (PT)?
Márcia
- Eu escolhi um partido que tem afinidade com as minhas idéias. Fui convidada por muitos partidos, tanto que demorei para me filiar a algum partido. Não digo que todas as minhas idéias cabem no PT, mas a escolha por ele foi pelo fato de que é aquele que mais se aproxima dos meus ideais.
JV - Como você avalia a sua experiência como vereadora?
Márcia
- Em 2000, fui eleita pelo PT, como a única cadeira do partido na Câmara, com o menor número de votos (410) dentre todos eleitos. No dia da diplomação, o juiz resolveu chamar por ordem de votação. O primeiro colocado recebeu o diploma, a família bateu palmas e, em seguida, todos foram embora. Depois vieram o segundo, terceiro, quarto colocado e assim por diante. Quando chegou a minha vez, olhei para o lado, vi que estava tudo vazio (risos). Outro fato curioso foi que a Câmara possuía um local destinado às esposas dos vereadores. Lembro que meu marido era o único debaixo da placa reservada às esposas (risos). Eu questionava aquilo, pois achava aquilo o símbolo da sociedade machista, construída pelos homens e para os homens. Eu sempre pedia a retirada da placa para o presidente da Câmara. No entanto, ele não concordava com a minha opinião, e a placa continuou. Mas toda sessão eu voltava a falar sobre a placa, até que um dia ele disse: “Márcia, você venceu. Não aguento mais, estou mandando tirar a placa”. Lembro que, em seguida, pedi para ele levar a placa para o museu e o pedido foi atendido. A sinalização foi levada para o arquivo histórico da Câmara Municipal de Cubatão. O que denota uma placa como aquela? Que vereador tem que ser um homem. E não venham me dizer que isso é algo insignificante, porque não é. Tanto que, antes da retirada da placa, sugeri que sinalizassem como “local dedicado aos familiares dos vereadores”. Certo tempo depois, no Dia Internacional da Mulher, lembro que fui avisada que não poderia discursar, devido a um protocolo. Questionei aquilo, pois eu, mulher, não poderia discursar no meu dia? Quebrei o protocolo, pedi a palavra, discursei e todo auditório me aplaudiu de pé. Lembro, inclusive, que meu discurso começou com “demorei 40 anos da minha vida para chegar num lugar predominantemente masculino. E ninguém ia me impedir de falar neste dia” (risos). Já em 2004, obtive 1327 votos. Fui a única na história de Cubatão que foi reeleita com mais que o triplo da votação anterior. Para mim, isso foi uma satisfação muito grande, pois as pessoas querem que você represente e esperança dessas pessoas.
JV - E quando decidiu que gostaria de concorrer à prefeitura de Cubatão?
Márcia
- Eu sou uma pessoa que não planejo muito as coisas da minha vida. Lembro que as pessoas diziam para mim: “Não voto mais em você para vereadora, porque você tem que ser a prefeita da Cidade”. Devido a isso, a minha candidatura foi algo que aconteceu de fora para dentro. Tanto que, em determinado momento, nosso partido tinha três pessoas para concorrer ao cargo de prefeito, mas elas acabaram retirando seus nomes posteriormente devido a esse apelo da população comigo.
JV - Vencer a eleição com quase 30 mil votos sobre o segundo colocado te surpreendeu?
Márcia
- Eu não me preocupei se o sonho daria certo, mas sempre entro em disputas para ganhar, não admito desistir. Sou uma pessoa extremamente resistente, teu peito dói, pois a mulher é muito violentada, sobretudo na época da campanha eleitoral. O que se faz com a mulher nessa época é algo desumano, mas não no ponto de vista político, e, sim, no ponto de vista pessoal, na condição de mulher e mãe. No entanto, quanto mais agredida eu fui, mas para a rua eu fui, mais para perto das pessoas. E foi assim, perto do povo, que consegui energia para conseguir lutar.
JV - Cubatão conta com um grande pólo industrial e é uma cidade rica. No entanto, ainda há muita pobreza no município. Como administrar um desafio como esse?
Márcia
- É uma situação extremamente atípica. Você vai na reunião do Condesb, encontra outros prefeitos e, ao falar sobre a receita de Cubatão, eles ficam espantados. Querem saber como uma cidade com grande receita ainda conta com tanta pobreza. Acho que a pergunta expressou bem, pois comandar Cubatão é um grande desafio. É algo inconcebível sermos uma das cidades mais ricas e, ao mesmo tempo, tão pobre. Quase 70% da população moram em palafitas e em locais inadequados. Cubatão é, também, a cidade com maior número de analfabetos e semi-escolarizados. Costumo dizer que é a cidade que gera emprego, mas é a cidade dos desempregados. O maior desafio é melhorar a condição social dos nossos munícipes, lutar para mudar essa história. Para isso acontecer, a responsabilidade é de todos nós, fortalecendo a parceria entre o poder público, econômico e a sociedade. Temos uma cidade que cresceu, que produz riqueza para a Baixada Santista e para o Estado de São Paulo, além de uma significativa riqueza para o Brasil, mas é incabível que a cidade permaneça numa situação como essa. Parece que Cubatão é formada por duas cidades: uma é a indústria, a outra é o povo. Esse sentimento de pertencimento que precisa ser recuperado, fazer com que as pessoas adquiram essa auto-estima de volta.
JV - Quais a prioridade para os próximos quatro anos?
Márcia
- Cubatão é uma cidade que precisa abrir suas cortinas para ser conhecida, não só pelo povo que aqui vive, mas por todos que vem de fora. O Turismo é uma das nossas prioridades. Se você pede para alguém desenhar Cubatão, a pessoa faz uma casa e uma chaminé. A Cidade é muito mais do que isso, e ela tem muitas coisas para serem exploradas, como o ecoturismo, o turismo histórico, bem como o turismo de negócios. Peço o apoio aos deputados da nossa Região e partidos políticos, pois ela precisa ser incluída como estância turística. Cubatão deve ser conhecida e respeitada no que lhe cabe como uma cidade tão importante para o desenvolvimento da nossa Região.
JV - Você pensa numa possível reeleição como prefeita?
Márcia
- Por enquanto, estou pensando em mudar a história dessa Cidade. Todas as minhas energias estão sendo gastas para isso. A questão da reeleição ainda tem quatro anos para pensar, tem muita água para passar debaixo da ponte.
JV - Como você avalia o ingresso cada vez mais frequente da mulher na política do País?
Márcia
- Tem muito ainda para ser construído. A mulher começou a votar no Brasil só em 1932. A Constituição de 1988 é que esculpiu a igualdade entre os sexos. Nos Estados Unidos, por exemplo, que é um país mais novo, a mulher tem direito a voto desde o século XIX. Mesmo que todos esses dispositivos estejam nas letras jurídicas, ainda há muito o que se caminhar para uma sociedade mais justa e igualitária. Acredito que mudou, mas muito menos do que nós merecemos. A velocidade dessa mudança que deveria ser muito maior.

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