Personalidades
- junho 29, 2009
Nina Rosa

Lutadora. Assim se define Nina Rosa. Nas-cida no Brasil, mas educada no Líbano, ela enfrentou as dificuldades de viver em um País em guerra, para vencer. Formada em Ciências Política e Administrativa, com diversas especializações, voltou para o Brasil, mas especificamente para São Vicente, onde administra um dos principais empreendimentos da Cidade: o Memorial de São Vicente.
Em entrevista ao Jornal Vicentino, Nina Rosa fala sobre a sua infância dividida entre o Brasil e o Líbano, sua formação, momentos marcantes da vida em um país em guerra, além do seu retorno para o Brasil e suas expectativas em torno do crescimento do Memorial de São Vicente. Confira:
JV - Onde você nasceu e quais as principais lembranças de infância?
Nina Rosa - Eu nasci em São Paulo e aos 11 anos fui morar no Líbano. Tive uma infância muito feliz, conheci minha avó e ela ficou muito tempo do nosso lado, mimando a gente. Éramos uma família muito unida. O fato de ter ido ainda criança para o Líbano foi também uma experiência muito empolgante para a gente. Sair de São Paulo e ir para uma cidadezinha no Oriente Médio foi uma novidade.
JV- Porque foi morar no Líbano?
Nina Rosa - Até os 12 anos eu já tinha ido várias vezes para lá por causa da minha família. Mas meu pai é libanense e tem uma mentalidade oriental. Ele queria que eu fosse para lá para ser educada lá. Estava entrando na adolescência e não podia continuar com a educação no Brasil. No Líbano foi uma experiência muito interessante. Logo que cheguei lá já estava dominando quatro idiomas, árabe, francês, inglês e português, porque é obrigatório saber francês, que é a segunda língua do país. Foi uma experiência gratificante.
JV - Sentiu o choque dessa mudança do Brasil para um país no Oriente Médio?
Nina Rosa - Acho que é uma experiência nova. Fomos lançados naquela realidade: “vocês estão aqui, vocês tem que aprender”. Então tínhamos que aprender mesmo senão íamos ficar excluídos na sociedade. É um meio de integração forçado. Fomos para lá eu, meu irmão, que tinha 9 anos, meu pai e minha mãe. Meu pai colocou um professor particular para eu aprender o árabe clássico e o francês. Minhas aulas de piano, ballet, que tinha no Brasil, tive que eliminar tudo para poder estudar e me integrar.
JV - Em que momento a ciência política entrou na sua vida?
Nina Rosa - Primeiro entrei na escola, um ano anterior ao meu, depois de aprender os idiomas segui o curso normal. Fiz faculdade na University São José e optei por Ciências Administrativas e Políticas. Na realidade eu gostava muito de política. Meu pai trabalhava em um ambiente político, era responsável por um partido da região, tinha contato com deputados, ministros, e eu achava muito legal tudo aqui e acabei decidindo por causa disso.
JV - Na universidade descobriu que essa era mesmo sua vocação?
Nina Rosa - Depois que entrei fui vendo as coisas de outro ângulo. Vamos ficando mais críticos e fiquei longe do meio que me apaixonava antes. Olhava com um outro olhar a realidade, mas vi que era isso mesmo que eu queria. Ciência Administrativa e Política. Administrativa para poder trabalhar no Ministério, em uma grande empresa internacional. Política para poder dar orientações para ministros, deputados, me integrar neste meio. Era um grupo de apenas sete alunos fazendo o curso. Não era qualquer um que fazia. Mas fiz o que queria mesmo.
JV - Como foi seu ingresso no mercado de trabalho?
Nina Rosa - Eu me especializei em Sociologia Política e Relações Internacionais, depois fiz mestrado em Ciências Políticas na França e como depois os professores franceses foram para Beirute eu voltei para o Líbano para fazer o meu pré-doutorado. Escrevo a minha tese até hoje, onde estudo a sociedade no Oriente Médio. De ano em ano vou lá ter minhas orientações e vou fazendo meu estudo e minhas atividades profissionais paralelamente. Lá eu trabalhei no Ministério de Relações Exteriores, todos os tratados internacionais passavam pelo nosso Centro para nossa avaliação. Tínham muitos inclusive entre Brasil e Líbano, o país onde nasci e o meu país atual, a mistura dois meus dois mundos. Como viajava muito por causa dos meus estudos acabei deixando o Ministério.
JV - Durante esse período no Líbano, um país com vários conflitos, passou por situações difíceis devido a guerra?
Nina Rosa - Eu lembro de situações difíceis. Ás vezes estávamos no apartamento e soava o alerta. Tínhamos que descer para o abrigo ou ir para um lugar mais reforçado da casa. Desligavam a eletricidade, porque não podíamos chamar atenção e minha mãe ficava gritando para eu ir para o lado dela e me chamava atenção no escuro da noite aquelas cores vermelhas no céu explodindo depois. Meu pai viajando, minha mãe não sabia o que fazer, não podíamos sair do prédio, ficava até tarde para chegar um motorista e depois passando de carro por debaixo das bombas. Vivendo em guerra a gente aprende a dar menos valor para coisas materiais. Perder apartamento, carro, depois a gente recupera, mas a vida não dá. Há alguns anos estive lá de novo e tive que passar por uma cidade em guerra para chegar ao aeroporto. Fiquei com muito medo pela minha filha.
JV - Em que momento decidiu retornar para o Brasil?
Nina Rosa - De vez em quando eu vinha para o Brasil e vi que muita coisa era diferente. Mas morar em São Vicente, uma cidade nova, facilitou a minha volta para o Brasil, porque São Paulo era muito grande comparada a Beirute. Vim para São Vicente porque meu pai era um dos sócios-fundadores do Memorial de São Vicente e estava aqui cuidando dessa empresa. Meu marido trabalhava como engenheiro na Arábia Saudita, um país muçulmano sunita puxado. Lá as mulheres tem que se cobrir, não podem trabalhar, dirigir e seria muito difícil eu, uma mulher emancipada, que viajei para vários lugares, morar na Arábia Saudita. Ele perguntou para onde eu queria ir e eu decidi pelo Brasil.
JV - Como foi esse retorno para o Brasil?
Nina Rosa - Meu marido conheceu e achou um ótimo lugar para abrir um negócio. Como trabalhava com engenharia agrônoma na construção de palácios, jardins, utilizava muita pedra brasileira. Como estávamos do lado do maior porto da América Latina decidiu trabalhar na exportação dessas pedras. Ficou muito fácil, ele fez uma escritório em santos, então recebia a mercadoria, vistoriava e mandava.
JV - E como você ficou nessa história? Como se encaixar no mercado formada em Ciências Políticas?
Nina Rosa - É verdade. Primeiro pesou o lado do fortalecimento da família. O meu marido não falava português e eu tinha que ficar um pouco com ele. Então no início eu fiquei do seu lado na importação e exportação de pedras. Pegava no telefone, falava, ajudava nas negociações. Ele fala francês e inglês, mas era difícil pedreiros que falassem inglês. Fiquei dois anos nisso e nesse meio tempo eu encaminhava o meu doutorado. Subia sempre para São Paulo para bibliotecas para fazer minhas pesquisas.
JV - Como foi assumir uma empresa com toda sua bagagem de estudos?
Nina Rosa - Meu pai pediu para eu assumir. Fiquei entre meu pai e meu esposo, mas minha formação administrativa pesou para que eu enfrentasse esse desafio. Estou aqui há três anos e dou aulas. Não podia cancelar, eliminar, tudo que estudei. Continuei dando aulas na PUC, até que teve um problema com pagamento de professores e eu não queria mais dor de cabeça. Dei e continuo ministrando palestras e seminários em várias faculdades, tratando sobre os problemas do Oriente Médio como Irã-Iraque, Guerra do Golfo, Palestina-Israel. É muito bom porque lido com alunos de 18 a 68 anos, um público diferente, com perguntas e ideologias diferentes.
JV - Como é administrar o Memorial de São Vicente?
Nina Rosa - Aqui o Memorial é como qualquer outra empresa. Mesmo assim lidamos com o lado emocional, vemos o sofrimento das pessoas e a morte é sempre algo muito triste, um tabu para muitas pessoas. Ás vezes quando falo que sou dona de um cemitério as pessoas se assustam. Mas sempre falo para os funcionários verem como qualquer outra empresa, mas com um relacionamento com as pessoas mais delicados, porque ela está no seu momento de deficiência, fragilidade. Temos que saber respeitar esse momento.
JV - Qual avaliação que faz desses três anos no controle do Memorial? Seu pai ainda ajuda na administração?
Nina Rosa - Acho que depois que entrei aqui gostei dos resultados e sinto as melhorias que aconteceram. Muitas coisa eu ainda pretendo fazer, mas o que consegui fazer até agora é bem perceptível. Quando entrei aqui para conseguir entender a empresa chegava as 7 horas da manhã e ia até tarde. Estudei bastante para conseguir administrar e acho que estou dando um bom andamento. Meu pai atualmente está no Líbano cuidando de suas coisas. Ele dá muitos conselhos quando tenho dificuldade, sempre pergunto sua opinião. Acho que é muito importante pegar experiência dos mais velhos, principalmente dele, com a experiência de um jovem de origem humilde, que veio novo para o Brasil e lutou para chegar onde chegou. Hoje é um dos grandes proprietários do Líbano, abriu empresas e conseguiu dar o melhor de tudo para a gente, a melhor ferramenta, que foi o estudo, com as melhores escolas e faculdades.
JV - Você pensa em expandir o Memorial ou abrir novas empresas?
Nina Rosa - Eu gosto de abrir outras empresas. Mas o Memorial ainda muito o que crescer, tem muito o que melhorar. Tudo está sendo feito aos poucos por causa da situação econômica do Brasil e do Mundo, que não permite de possamos investir apenas em um empreendimento.
JV - Como vê atualmente a cidade de São Vicente?
Nina Rosa - Do dia que eu cheguei até hoje teve grandes melhorias. Temos muitos parceiros que nos ajudam bastante e acho que o ponto de vista da administração atual tem feito com que a cidade cresça muito. A gente pode perceber tudo mudando. O Memorial de São Vicente mesmo foi criado a partir de uma iniciativa da Prefeitura para a construção de um cemitério vertical. O cemitério horizontal tem mais de 110 anos, é o primeiro da Cidade depois daqueles cemitérios feitos do lado das igrejas. Construímos o cemitério vertical e assumimos a administração há 10 anos, graças a esse olhar longe da administração atual que já imaginava a necessidade da ampliação, além de mais investimentos.
JV - Você pensa em voltar para o Líbano ou quer ficar no Brasil? Sua filha será educada aqui?
Nina Rosa- Como eu estou já há um tempo no Brasil sinto muita saudade de ir para o Líbano. Dá aquela nostalgia. Quando estou lá é a mesma coisa. Acho que tenho essas raízes que não deixam eu falar se vou ficar aqui ou lá. Essa rota Brasil-Beirute vai ficar por muito tempo na minha vida. Minha filha vai ser educada no Brasil. Ela já fale o árabe perfeitamente, estuda em uma escola bilíngue e já é poliglota. Eu aprendi muito quando fui para o Líbano, mas gosto da educação brasileira porque aqui as pessoas incentivam o crescimento de cada um no seu ritmo, estimular a imaginação, a descoberta, e lá é um estilo mais clássico, tem que estudar isso e pronto. Minha filha tem uma imaginação muito fértil e eu gosto muito disso.





9 Comentários para “Nina Rosa”
como nao ficar orgulhosa da nina ???
ela é 1 lutadora e vencedora !!!
sempre atenta a tudo e a todos ; amável , generosa e querida por todos que a conhecem.
vc é muito especial para mim!
1 abraço bem carinhoso e saudoso .
Por graziella em jun 30, 2009
Que grata surpresa ler a entrevista com essa lutadora mulher, esposa e mãe carinhosa.
Minha alma se encheu de emoção ao acompanhar e reviver alguns momentos da vida de Nina Rosa.
Que ela e a sua familia recebam os nossos votos de realizações e sucesso. Obrigada a São Vicente por recebê-la como uma de suas filhas.
Com carinho da prima Regina Celi e familia.
Por Regina Celi Villas Boas Coelho Mendes em jun 30, 2009
Maravilhosa reportagem com esta mulher maravilhosa! Linda, inteligente e amável. Parabéns por todo sucesso, Nina!
Por Tatiane e Fatima Pinheiro em jun 30, 2009
Nina, vc é uma guerreia e tb uma vitoriosa, vc merece o melhor.
keep on Knocking!
Por Fabiana Calfat Abussamra em jun 30, 2009
Tive muito prazer em conhecer a Sra. Nina Rosa, seu marido Abud e sua filha. Espero podermos estreitar mais nossa amizade. Achei muito interessante sua entrevista, não sabia de sua formação política.
Desejo a vocês toda a sorte do mundo e muito sucesso profissional.
Grande abraço de joão, Lucienne e Pedro Guido.
Por João Carlos Mendes de Vasconcellos Guido em jun 30, 2009
Linda reportagem! E mais linda ainda, a história de vida da nossa amiga Nina!
Quem a conhece, sabe no seu olhar que ela tem muito para contar e muito para ensinar.
Os valores verdadeiros e os princípios importantes que devemos considerar para se viver com dignidade e respeito, exalam na sua pessoa.
Parabéns a você, Nina e à sua família!
Por Lucienne Guido em jun 30, 2009
Nina, além de tudo isso que ela descreveu de sua vida, infância e tudo mais é uma mãezona e disposta a ajudar a quem precisar. Quase sem tempo pra mais nada, ainda encontra aqui e ali um tempinho pra fazer e realizar algo mais…Parabéns pela trajetória linda, pelos resultados fruto da sua história, parabéns pela família e nossa amiguinha linda Sophie…
Beijos,
Fernanda, Luiza e Gabriela.
Por Fernanda em jun 30, 2009
Salut! Je suis très fière de toi!!! You’ve always been a fighter and I always knew you would reach somewhere
Gros bisous de Beyrouth ya 7elwi
Por Marie-Chantale em jul 1, 2009
Meus parabéns a Diretora Administrativa Nina Rosa pelo brilhante empreendimento que é o Cemitério Vertical de São Vicente, hoje intitulado como o 1º Cemitério Vertical do Brasil, com uma equipe maravilhosa ao lado do seu Diretor Financeiro Daniel Lee, esta empresa veêm superando cada vez mais os obstáculos do negócio, sempre inovando e acima de tudo apostando alto na capacidade empreendedora de cada um colaborador, abraços!
Por Dinart Azevedo em out 4, 2009