Ciro admite disputar Governo de São Paulo

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Dar um futuro aos brasileiros a partir da institucionalização e ampliação das conquistas sociais do Governo Lula. Esta é e meta pessoal do deputado federal Ciro Gomes (PSB), seja como presidente da República ou governador de São Paulo. Calcado nas suas experiências práticas como governador do Ceará, prefeito de Fortaleza e larga vivência no parlamento, Ciro afirmou, em entrevista coletiva no dia 9 de julho, durante congresso da Unimed, em Guarujá, que tem propostas para o País e para o Estado de São Paulo. O caminho político que irá tomar vai depender de conversas com o presidente Lula, do seu partido, e de reflexões pessoais. Acompanhado do deputado federal e presidente do PSB no Estado, Márcio França, Ciro Gomes admitiu que pode aceitar o desafio de disputar o Palácio dos Bandeirantes já nestas eleições.
Conheça algumas opiniões de Ciro Gomes, que foi duas vezes deputado estadual pelo Ceará de 1983 a 1988; prefeito de Fortaleza de 1989 a 1990; governador do Ceará de 1991 a 1994 e, agora, deputado federal com mandato até 2011. Ciro foi, também, ministro de Estado da Integração Nacional, de 2003 a 2006 e ministro de Estado da Fazenda, em 1994.
JV - O senhor tem 30 anos de vida pública. Valeu a pena?
Ciro
- Excepcionalmente. Sou uma pessoa agraciada por Deus, com o privilégio de ter podido exercer minha vocação, que num País como o nosso, nem sempre um jovem filho de classe média, uma pessoa mais pobre, tem essa chance. Política para mim sempre foi uma vocação, nunca foi meio de vida. Eu entro quando quero, quando estou com vontade, quando acho que posso ser útil e saio quando quero. O carinho e o respeito que recebo das pessoas não tem preço. As pessoas podem eventualmente, como é natural, não concordar comigo, não votar em mim, mas eu sou recebido com o maior carinho. As conquistas obtidas como governador, prefeito, deputado estadual e federal, além da atuação como ministro, me deram enorme satisfação.
JV - Ao contrário da maioria dos brasileiros, que vieram do Nordeste para o Sudeste, o senhor fez o caminho inverso, saiu de São Paulo para trabalhar no Ceará. O fato de ter crescido politicamente no Nordeste não seria um problema para sua candidatura ao Governo de São Paulo?
Ciro
- Eu nasci em Pindamonhangaba na Rua dos Andradas, 64, onde ainda hoje mora minha tia Eunice. Fui criado ali, depois mudamos, fomos morar em Adamantina. Minha mãe, professora, meu pai, professor e advogado e depois mudamos para o Ceará. Na verdade, desde 1973, quando eu pude voltar pela primeira vez, sempre foi uma relação que eu cultivei muito. Vim visitar minha avó a primeira vez em 1973 e, de lá para cá, nunca deixei de atuar nas campanhas presidenciais, participei do processo político de São Paulo, de todas as candidaturas a governador e a prefeito, fui convidado para participar, dei depoimentos na televisão, fiz reuniões. Ninguém faz política no Brasil sem respeitar o pedaço legítimo e exuberante que São Paulo representa. O Brasil é muito rico nestes exemplos de atuação pessoal. Foi em São Paulo que o pernambucano Lula começou sua carreira e se tornou presidente de todos os brasileiros, com enorme sucesso. Dessa forma, digo que sou um brasileiro que conhece todos os estados do País profundamente.
JV - Há em São Paulo uma elite que poderia rejeitar sua possível candidatura ?
Ciro
- Existe uma elite no Brasil, predadora, escravocrata e há um pedaço dela em São Paulo. Mas eu não falo isso, eu sei que há muita intriga, querendo extrapolar, eu não falo isso porque quero falar mal. Eu falo isso como explicação dos valores que eu defendo. O Brasil, entre todas as economias organizadas do mundo, é a mais desigual. Se você fizer uma aplicação prática desse raciocínio, você pega um país da África subsaariana vê toda a riqueza que eles têm, divide por cabeça, restam países muito pobres. Se você fizer isso pela América Latina, a mesma coisa. No Brasil, se você vê a riqueza que já existe e dividir a metade, todo mundo viveria com dignidade, sem precisar que ninguém deixasse de ter sua riqueza, o seu conforto. E esse é o compromisso essencial que me orienta na vida pública. Não é para destruir ninguém. É para fazer com que as pessoas mais pobres tenham oportunidade de criar seus filhos com dignidade, viver pelo suor do seu rosto, não viverem a humilhação da miséria. Há segmentos minoritários da sociedade que se beneficiam das enormes desigualdades sociais, mas que hoje também já clamam por soluções que incluam os desvalidos.
JV - O senhor disse recentemente que há uma sensação de acomodação no Governo de São Paulo?
Ciro
- Há setores com teia de aranha. O PSDB teve importante papel no Estado de São Paulo, com nomes como Franco Montoro e Mário Covas. É preciso oxigenar o Estado, fazer surgir novos talentos.
JV - Dentro da sua vivência política, como qualificaria os governos dos presidentes que acompanhou até agora?
Ciro
- Tenho 30 anos de experiência. Eu vi o resto do Governo Geisel, que foi um presidente que a gente não pode perdoar jamais pela origem autoritária e ilegítima do processo que dominou o Brasil em 64, mas foi um presidente que fez muito pelo Brasil, inclusive descomprimindo o autoritarismo, a repressão e a violência. Ele fez talvez um grande plano nacional de desenvolvimento, foi ele. Figueiredo tem o mérito de ter permitido a redemocratização do País, uma negociação da qual eu já fiz parte, como deputado. Para que o Tancredo Neves pudesse ser presidente da República, tinha participado vastamente como deputado estadual. Naquela época, uma parte dos eleitores do colégio eleitoral era escolhida pelas Assembleias Legislativas. Essa minha participação, eu coordenei a campanha do Tancredo lá, na Assembleia do Ceará, e tem uma foto que me honra muito, que ele me chamou para agradecer e eu tirei uma foto com ele, e tenho guardada. Na época eu conheci o Aécio, um garoto, o secretário particular do Tancredo. Quando eu era prefeito de Fortaleza, o Sarney era presidente e foi um governo ruim para o País. Mas seu espírito tolerante, conciliador acabou ajudando a consolidação das instituições. Apesar de ter lutado até o fim pelo impeachment do Collor, reconheço que ele teve a grandeza de sair seguindo a legalidade, o que até então não era comum em um País com tradição golpista. Há uma presença benfazeja e injustiçada na história recente do Brasil, que foi o Itamar Franco, que reuniu as forças para desfazer o pacto inflacionário e criou o Real, além de dar início a inúmeras obras complementares para acabar com a inflação. O Fernando Henrique foi uma decepção, mas soube manter a estabilidade da moeda, projetou o Brasil no exterior com sua postura digna. Mas conduziu um processo desastrado de privatização, menos porque a privatização seja ruim, mas da forma como foi feita. O desemprego aumentou de 5% para 14%, a carga tributária que subiu de 27% para 35%, a dívida que saiu de 38% para 78% do Pib em oito anos, a decadência da infraestrutura, o apagão, perdemos 1/3 dos mestres e doutores, e que fez acordos com o FMI prejudiciais ao País. O Lula foi uma surpresa agradável, um Governo que faz bem ao País em todos os números, todos. O PAC é a primeira tentativa de sistematização da intervenção federal em infraestrutura, terminando com o clientelismo. Também terminou com o apagão energético e elevou os ganhos dos trabalhadores.
JV - Mas o PAC parece que não gerou tantas obras como era esperado…
Ciro
- Se não tivéssemos enorme problema de capacitação, de despreparo técnico, o que chamo de pé-de-barro na máquina pública em todas as esferas, estaríamos em enorme escalada desenvolvimentista, pois pela primeira vez em três décadas temos mais dinheiro para aplicar do que projetos. Isso se dá por conta da ausência de projetos, caos legislativo, e uma burocracia despreparada, que um dos desafios do próximo presidente. Houve uma destruição do serviço público profissional. Em outubro de 2008, por exemplo, faltavam engenheiros. Falta capacitação da gestão pública profissional, que deve ser premiada por desempenho.
JV - Não seria a culpa de um Estado gigante e autofágico?
Ciro
- Este é um jargão que precisa ser desmistificado. Nosso Estado é desorganizado. Isso precisa ser corrigido, precisamos incentivar o mérito. Como pode um ascensorista do Senado ganhar R$ 7 mil por mês (com todo o respeito pela profissão) e um professor universitário é R$ 2 mil? O Brasil tem um aparato de saúde que é quase genocida, um aparato de defesa quase impotente. Um exemplo da luta pela melhora no setor público foi o aumento, no Governo Lula, de 5 mil para 8 mil policiais federais. Mas ainda é pouco.
JV - Quais os desafios para quem quiser governar o Brasil e o Estado de São Paulo?
Ciro
- Temos duas tarefas. A primeira é institucionalizar os avanços conquistados pelo presidente Lula. O salário mínimo saiu de 76 dólares para 240 dólares no Governo Lula. Fazer com que as melhorias sejam inseridas institucionalmente como direito de todos os brasileiros. A Petrobras com FHC virou empresa privada na prática e começou a fazer compras de bilhões de dólares fora e destruiu a indústria naval brasileira, além de produzir um déficit de 12 bilhões de dólares só na conta de frete do Brasil. O Lula obrigou a Petrobras a fazer compras governamentais no Brasil e assim reativou em 100%, por exemplo, nossa indústria naval. A segunda tarefa é dar um futuro para os brasileiros. O Brasil é um País por fazer se olharmos os padrões internacionais, se olharmos a vida real do povo aqui e agora. Temos que redesenhar a saúde pública, é preciso um projeto nacional de desenvolvimento. Falta método. Olhando pelo retrovisor vejo que o Governo Lula fez um excelente trabalho. Mas olhando para a frente vejo que ainda há muito por fazer. O povo ainda precisa de mais atenção, mais perspectiva, de um futuro. O Barak Obama teve agora este papel nos Estados Unidos, uma esperança, um estadista jovem produzido pela política, que precisa ser protegida, pois é um espaço do cidadão. No Brasil é mais fácil ainda porque temos um operário na Presidência, que teve grande sucesso. Se os políticos se dessem ao respeito, teríamos como fazer a imprensa tratar a vulgaridade na proporção correta e tratar dos grandes temas.
JV - O senhor acha que a doença da ministra Dilma atrapalhará a candidatura à Presidência? Ela será uma boa sucessora do presidente Lula?
Ciro
- Tenho certeza que ela vai se recuperar. Ela já acabou a quimioterapia e já está pronta. Mas ninguém será igual ao Lula. É muito raro na história dos povos produzir um líder como ele. Ele se compensa no enfrentamento do reacionário golpista, se compensa no simbólico, ele consegue ser acreditado pela população apesar de 100% da grande mídia estar dizendo coisa ao contrário. O próximo presidente terá que estar lastreado em um grande programa de idéias. Acredito mais na idéia do que na força do líder.
JV - A sua possível candidatura ao Governo de São Paulo, ao contrário do que se esperava, teve uma boa recepção pela Imprensa, com a qual o senhor já teve grandes embates. Como explicar isso?
Ciro
- Minha relação com a Imprensa é uma relação de amor mal resolvida, mas é de amor, não é de ódio. Isso porque, como eu, a Imprensa quer a mudança, quer a melhora da qualidade de vida do povo, quer o aprimoramento das instituições, ou seja, quer o mesmo que eu. Numa democracia moderna, de massas, é essencial uma mídia plural, com todas as posições, com espaço para todos, e não uma abordagem que maniqueísa o fenômeno político, que vulgariza a linguagem da política, destruindo sem querer a própria democracia. O problema é que a mídia insiste e permanece muito tempo em temas menores, transformando assuntos em escândalos novelizados. Poderia também mostrar o que dá certo e se aprofundar em temas sérios. O que falta é mais pedagogia, debates, ideias, enfim, sair das discussões rasas. Mas falo isso para aprimorar, o que também quer a Imprensa saudável deste País e, não podemos esquecer, que a Imprensa foi responsável pela restauração da democracia.
JV - O senhor aceitaria o desafio de sair candidato a governador de São Paulo? Já tem residência aqui?
Ciro
- Eu quero ser candidato a presidente do Brasil. Mas a gente sabe que em política a gente não faz o que quer. Estou pensando com muita humildade, muito respeito e muito carinho nesta possibilidade. Prova disso é que, desde o início de julho, passei as contas de um apartamento da Patrícia para o meu nome e, desde então, já me sinto residindo em São Paulo, na Capital, em Higienópolis, num apartamento atrás do shopping, que hoje é onde eu passo a maior parte do meu pouco tempo livre. Claro, Patrícia vive no Rio e na ponte-aérea Rio-SP, tenho um irmão governador no meu querido Ceará, por onde sou deputado, e faço palestras profissionalmente e pelo partido em todo o País. Assim, embora a residência formal seja agora em São Paulo, sou um caixeiro-viajante a divulgar e pregar aquilo que acredito.. Um andarilho dos caminhos fascinantes do Brasil.
JV - Muitos afirmam que apesar de sua história como governador e prefeito, por conta das suas palestras, o senhor teria um viés muito mais teórico.
Ciro
- Estão enganados. Quando fui governador o Ceará ganhou prêmio mundial de combate à mortalidade infantil sendo o estado mais pobre do País. Sou um operador. Sou homem de aceitar desafios, de sair às ruas e fazer. Por isso estou na vida pública há 30 anos e me preparo cada vez mais para novas tarefas.

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