Personalidades
- agosto 24, 2009
Antoine Lascani

Presidente nacional da Academia Árabe-Brasileira de Letras, membro da União Brasileira dos Escritores de São Paulo, das academias Vicentina e Santista de Letras, além de profundo conhecer da história árabe. Esse é Antoine Lascani, poeta e escritor, que nasceu na longíqua Antióquia, viveu no Líbano e veio ao Brasil para fazer história.
Detentor da Medalha Internacional Gibran Khalil Gibran, laureado pela Academia de Letras de Paris e vencedor do concurso nacional de Poesia, realizado em Brasília e com mais de 14 mil concorrentes, o poeta-escritor conta ao JV sua história de vida, marcada por muito trabalho e sucesso. Lascani fala sobre a infância em Beirute, a vida no Brasil, seus projetos e realizações, bem como a influência árabe em terras verde-amarelas. A seguir, confira a entrevista na íntegra.
Jornal Vicentino - Onde o senhor nasceu e quais as principais lembranças da sua infância?
Antoine - Eu nasci na cidade de Antióquia, onde foram nomeados os discípulos do Cristo. De lá, partiram São Pedro e São Paulo anunciando o cristianismo ao mundo. Jerusalém foi o berço do cristiano, mas a mensagem partiu de Antióquia. Aos cinco anos de idade, me mudei para Beirute, capital do Líbano, um local onde concentrava uma grande civilização e modernismo. Na época de infância, o que me chamava atenção eram as montanhas do Líbano, que eram muito lindas, além da neve que caía nas regiões mais altas. Lembro também que, durante minha juventude, fui três vezes campeão universitário de futebol no Líbano. Lá, o campeão do Beirute enfrentava o campeão da Montanha pela disputa do título universitário. E, claro, tenho muitas recordações de amores da juventude que nos marcam.
JV - Onde você estudou? E como era seu desempenho na escola?
Antoine - Estudei no colégio Três Doutores, onde se formaram grandes pessoas, inclusive Nely Jafet, que veio para o Brasil e formou uma das maiores fortunas do País, além de grandes escritores e poetas. Como aluno, modéstia à parte, sempre fui primeiro lugar nas disciplinas de Árabe e Inglês. Quanto ao meu comportamento, sempre fui comportado e equilibrado. Quando alguém ia reclamar com o diretor da escola, era “Lascani para cá, Lascani para lá” (risos). Inclusive, eu representava o meu colégio na União Estudantil de Beirute.
JV - Quando e por que você veio ao Brasil?
Antoine - Fiquei no Líbano até os 21 anos, quando vim para o Brasil. Minha avó, mãe do meu pai, morava conosco em Beirute, mas se mudou para o Brasil, pois meus tios estavam aqui no País. Ela começou a escrever para o meu pai voltar, pois alegava que ela ia morrer, e acabamos vindo ao Brasil. Minha vida mudou e percebi que minha cultura iria mudar totalmente. Me preparei dia e noite, comprei diversos livros de gramática e outros que ajudassem a me desenvolver, como coleções do Jânio Quadros. Após dois anos e três meses, publiquei meu primeiro artigo em Português. Como eu já havia estudado Francês no Líbano, a língua me ajudou bastante no processo de aprendizagem da Língua Portuguesa. A partir desse momento, comecei a me dedicar ainda mais aos estudos. Certo dia, meu tio viu toda minha dedicação à literatura e me falou que o Brasil não era terra de estudos, mas, sim, de comércio e luta. Mesmo assim, continuei estudando e me dedicando à literatura e poesias. Quando comecei a ganhar prêmios, meu tio falava que eu era o orgulho da família. Nessa hora, eu pensava comigo mesmo se eu tivesse seguido a linha de não estudar, não teria conquistado nenhum prêmio (risos). Posteriormente, ingressei em entidades culturais e clubes de poesia. Fiquei dois anos em São Paulo e, depois, vim para São Vicente. Inclusive, tenho duas poesias escritas em homenagem à Cidade.
JV - E qual foi sua primeira impressão sobre São Vicente?
Antoine - Um fato curioso que me chamou a atenção foi o comércio. Nós, árabes, fomos os primeiros a fazer vitrines no comércio vicentino. Antes, todos penduravam as roupas, como as feiras fazem. Certo tempo depois, me tornei diretor da Associação Comercial. Naquela época, percebi que o comércio de Santos “engolia” o nosso, pois não tínhamos financeiras por aqui. As pessoas queriam comprar seus utensílios domésticos e só podiam parcelar em três vezes em São Vicente. Sendo assim, iam comprar em Santos, onde podia se comprar em até 24 vezes. Comecei a negociar com as financeiras e elas alegaram que o maior número de caloteiros vinha de São Vicente (risos). Mesmo assim, conversei um pouco mais com elas, disse que o nosso comércio tinha melhorado e, no final das contas, consegui trazer duas para a Cidade. Depois, para reforçar ainda mais nosso comércio, bolei um mês de liquidação em toda cidade. Além de tudo isso, anunciamos na televisão, o que ajudou muito no fortalecimento do comércio, uma vez que agora parcelávamos em 24 vezes. Lembro, também, que nos Natais eu e mais um comerciante corríamos atrás das decorações natalinas. Enfim, lutamos bastantes e, modestamente, conseguimos impulsionar o comércio de São Vicente.
JV - Na sua opinião, quais as principais semelhanças e diferenças entre Brasil e Líbano?
Antoine - O povo brasileiro tem semelhança de sentimento com o libanês. O brasileiro é amoroso, receptivo e nos recebeu de braços abertos. Inclusive, durante um evento dos 125 anos da Imigração Libanesa, escrevi uma poesia que ressaltava a hospitalidade do povo brasileiro. Já em questões de diferenças, o Líbano é um país próximo à Europa e muito avançados em diversas questões. Uma delas é a questão do estudo, onde as crianças passam estudando durante o dia inteiro, desde o primário.
JV - E como você vê a influência árabe na cultura brasileira?
Antoine - A influência árabe é muito grande no Brasil. Há pouco tempo, li uma reportagem que abordava o interesse das editoras brasileiras em traduzir diversos autores árabes. Inclusive, isso já começou, com o sucesso do livro “O Caçador de Pipas”, de autoria árabe. Na Europa, as livrarias estão cheias de autores árabes. No entanto, aqui existe a dificuldade do idioma, o que atrapalha a tradução das obras. O único autor que teve seu livro traduzido para Português e mais 81 idiomas foi Gibran Khalil Gibran, autor de “O Profeta”. Falando nele, eu fui condecorado com a medalha internacional Gibran Khalil Gibran. Sou o único poeta que escreve em Árabe e Português no mundo.
JV - Os povos árabes e israelenses já demonstraram diversos conflitos ao longo da história. Recentemente, em 2006, aconteceu mais uma guerra entre os dois povos. Como você avalia essa polêmica?
Antoine - Os EUA acabou implantando os israelenses no meio dos árabes. É como colocar um inimigo seu dentro da sua própria casa. De qualquer forma, os dois precisam ceder um pouco para alcançar a paz. Eu sou embaixador da paz pela Suíça, já escrevi inúmeros versos sobra a paz mundial e penso dessa forma. Se você está brigado com o seu vizinho, por exemplo, é ruim para os dois. Um dia, pode ser que um precise do outro. Há uns dias, estava no Guarujá com um amigo judeu e um outro amigo ficou espantado: “Como pode um judeu com árabe?”. Na hora, eu respondi: “Superei o fanatismo, racismo e segregação. Minha vida é idealismo, ascensão e elevação”. Respondi com rima e tudo mais (risos).
JV - O senhor é membro da Academia Santista de Letras e da União Brasileira de Escritores. Como surgiu a paixão pela escrita?
Antoine - Entrei na Academia por unanimidade de votos. E aconteceu um fato curioso sobre essa minha ingressão. No estatuto da academia diz que o membro só pode ser brasileiro nato. Lembro que eu falava com os amigos que poderia ser governador, mas não podia ser membro da academia (risos). Enfim, para tentar convencê-los, mandei todos os artigos que haviam escrito sobre mim para alguns membros e, no dia seguinte, me ligaram falando que a academia teve tantos votos a favor (risos). Dos 26 votos, tive 26 a favor. Quanto à paixão pela escrita, surgiu por influências dos familiares por parte da mãe, que são os Yázigi, detentores da escola de idiomas no Brasil. Inclusive, quem me ajudou a falar Português logo no início da minha chegada foi o primo da minha mãe, o dono da escola. A família Yázigi tem mais de 400 escolas no Brasil, além de outras espalhadas pelo Estados Unidos, mas o grande ela foi pioneira na literatura árabe. Na Síria, numa cidade onde nasceu os primeiros dos Yázigi, a influência literária é muito forte. Lá, desde cedo, as crianças já discutem poesias. Inclusive, dizem que Dom Pedro II era culto e queria conhecer melhor o idioma árabe. Quando chegou ao Líbano, quem foi indicado para ensiná-lo? Ibrahim Yázigi, meu bisavô materno. Enfim, acredito que tudo isso influenciou na minha paixão pela escrita.
JV - Além disso, você é presidente nacional da Academia Árabe-Brasileira de Letras. Como está sendo essa experiência?
Antoine - É um pouco complicado, pois a maioria dos membros são veteranos e a dificuldade de reuní-los é muito grande. Para você ter uma noção da dificuldade de reunir todos juntos, eu saía aqui do litoral e ia para São Paulo. E muitos deles, que moravam na própria capital, não iam às reuniões. Eles alegavam que São Paulo já era uma cidade perigosa, que o trânsito estava ficando cada vez mais complicado, enfim, fatores que atrapalhavam a reunião. De qualquer forma, eu ainda luto pela união de todos.
JV - Na visão de poeta e escritor, você não acredita que o povo brasileiro ainda dá pouco valor à leitura? E por que isso acontece?
Antoine - Realmente falta incentivo para o brasileiro ler mais. Acredito que, primeiramente, precisam baratear os livros, pois só assim o brasileiro alcançará as grandes obras e terá o costume de ler com mais frequência. Lembro que há muito tempo, eu estava numa livraria e vi uma mulher cutucando o marido falando que precisava ler determinado livro, mas que não tinha condições de comprá-lo. Para ler esportes e outras coisas fúteis, o brasileiro, de uma forma geral, até lê. Mas, infelizmente, livros bons custam caro, com um preço que varia de 40 a 100 reais. Hoje, o brasileiro já tem dificuldades para sobreviver e colocar o pão na mesa. Se ainda for gastar parte de sua renda para comprar grandes obras, não sobra nada.
JV - O senhor mora há mais de 30 anos no Brasil. Que fato marcante aconteceu nessa sua longa estadia?
Antoine - Graças a Deus, conquistei muitos prêmios ao longo dessa minha estadia. Em Brasília, conquistei um concurso sobre o menor abandonado, no qual participavam mais de 14 mil concorrentes. Outro fato que me marcou foi quando declamei em Árabe e Português e representei o Ministério da Cultura da Síria, algo que aconteceu pela primeira vez no Brasil. Inclusive, estou publicando um livro que é dividido nos dois idiomas. Ainda falando em publicações, estou publicando uma poesia chamada “Para Um Brasil Melhor e Conscientização do Cidadão”, que conta até agora com 524 versos, o que é um recorde. Na verdade, queria completar 509 versos em homenagem à idade do Brasil, mas acabei completando e ainda sobrou um pouco (risos). Enfim, amo essa terra, bem como a cidade de São Vicente.
JV - Quais são seus próximos objetivos como poeta e escritor?
Antoine - Além da publicação dos meus livro em duas línguas (Árabe e Português), algo inédito no mundo, quero publicar minha poesia dos 524 versos. Pretendo, ainda, gravar um CD com versos de amor, uma vez que escrevi diversos versos de amor. E essa gravação é algo que muitas pessoas me pedem. Eu já realizei, também, diversos eventos relacionados à cultura, como noites de poesias, encontro de poetas árabes, além da presença de cantores do mundo árabe, mas agora pretendo me dedicar apenas à escrita.





5 Comentários para “Antoine Lascani”
Caríssimo Lascani,
Uma pessoa com um talento ímpar, estilo proprio,sensibilidade, que expressa em sua poesia toda a sua historia.
Por Rita em nov 18, 2009
Caro Lascani,
enviei um e-mail para você, mas ele retornou. Preciso muito de seu contato atual. Poderia me enviar seu e-mail?
Parabéns pelas belas poesias!
Tamara Ramos
Por Tamara Ramos em jan 6, 2010
Fragmentos da infância
Viço da infância
Destituía a maioridade
Na leveza das consciências
Cegava a realidade
Ansiosos do futuro
Mergulhavam os puros
Sonhando com albores da vida
Transformavam suas idas
Desprovidos da sensualidade
Conhecimento era curiosidade
Música, intenso prazer
Como era sedutor aprender!
Por Eloisa Menezes Pereira em mar 21, 2010
Boa Tarde.
Eu tive o enorme prazer em conhecer o Senhor Antoine, e em poucas horas de conversa, ele me contou um pouco de sua vida e suas poesias.
Queria deixar apenas aqui um parabens e desejar todo o sucesso do mundo para ele.
Um Forte Abraço
Nelson Buchala Boulos
Allah Maac
Por Nelson Buchala Boulos em abr 28, 2010
Tive o prazer de conhecer o poeta em um evento promovido pelo amigo Yam Lopes, aqui mesmo em São Vicente.
Me encantou a disposição e a alegria do poeta e principalmente, me encantou a sua postura e humildade. Uma pessoa com tantos títulos internancionais ali, ao nosso lado, nos emprestanto conhecimento e amor ao próximo.
“Deus te abençoe poeta”
Por Juracy Francisco de Jesus em out 23, 2011