Personalidades
- agosto 31, 2009
Toninho Campos

Quem entra no CineRoxy do Gonzaga não imagina que o moderno empreendimento está prestes a completar 75 anos. Sobreviver ao tempo e se adequar às novas tendências são méritos do proprietário Toninho Campos, que com muita persistência fez manter a tradição do cinema de rua em Santos.
Seu nome já está marcado na vida de muitos. Foi ele que fez a casa de shows Heavy Metal, que trouxe as melhores bandas de rock do Brasil para Santos e marcou toda uma geração.
Em entrevista ao JV, ele conta sobre a infância, o início da trajetória profissional, as dificuldades para manter o Roxy, a vinda do cinema para São Vicente e a inauguração de novas salas no Pátio Iporanga. Confira:
JV - Onde o senhor nasceu e quais as principais lembranças de infância?
Toninho Campos - Eu nasci em São Paulo, mas me lembro de pouca coisa, porque vim para Santos com cinco anos e me criei aqui. Minhas lembranças são todas daqui, do Colégio Canadá, Canal 3 e do bairro do Gonzaga, onde passei toda minha infância e boa parte da minha juventude.
JV - Porque veio para Santos?
Toninho - Meu pai veio para cá cuidar do cinema. Meu avô se aborreceu, não quis mais e sobrou para o meu pai (risos). Na época, ele era engenheiro químico em São Paulo, mas teve que vir para cá porque meu avô pediu.
JV - Então, o cinema fez parte de toda sua infância?
Toninho - Sim. Na época eu via os filmes de dentro das cabines de projeção. Chegava a ver três, quatro filmes em um dia só. Eu tinha acesso a todos os cinemas.
JV - Essa influência foi determinante para entrar no curso de Comunicação?
Toninho - Sim, porque eu gostava de cinema, queria fazer cinema. Mas eu não aguentei, só fiquei seis meses em São Paulo. Era época braba da repressão. Todo mundo era esquerdista ou direitista, e eu não era “ista” nenhum, nunca fui. E naquele ambiente da USP, estudar sem se envolver com essas coisas era difícil, achavam que eu era agente do Dops (risos). Vim para Santos, fiz seis meses de Economia e também larguei. Aí fui trabalhar.
JV - Como foi o início dessa experiência profissional?
Toninho - Fui para Porto Alegre trabalhar com cinema, em uma sociedade que meu pai fazia parte. Estavam arrendando cinemas pelo Brasil e eu fui tomar conta das salas de lá. Foi a primeira vez que assumi sozinho e foi uma experiência traumática, uma fria (risos). Eu era muito novinho e lá só tinha “cobra criada”. Passei maus bocados, mas fui aprendendo. Quando deu um ano pedi transferência para outro lugar. Tinha cinema na Bahia, que ia ser muito melhor, Rio de Janeiro, São Paulo, e eu não aguentava aquele frio. Me transferiram para São Paulo.
JV - Em São Paulo as coisas melhoraram?
Toninho - Lá os sócios começaram a discutir, o negócio foi se perdendo, eu arrumei um parceiro e fiquei com a parte de São Paulo. Também aluguei cinema lá em Juiz de Fora. Então ficava nas duas cidades. Em São Paulo era um circuito alternativo que existe até hoje, o Palácio Cinema. Eu inventei duas salas passando dois filmes em cada uma, então você podia ver quatro filmes com um ingresso. Dava para trabalhar legal. Em Juiz de Fora alugamos as cinco salas da cidade que eram muito mal trabalhadas. Na época o prefeito era o Itamar Franco. Fizemos um trabalho legal e começamos a fazer lançamentos simultâneos com o Rio de Janeiro. Fiquei lá até voltar para Santos.
JV - Veio trabalhar com o seu pai no Roxy?
Toninho - Voltei em 1979, 1980, mas aqui trabalhava mais com publicidade, marketing no cinema. Em 1983 inaugurei uma casa chamada Heavy Metal, no Cine Glória, e entrou para a história do rock n’ roll. Passaram todas as bandas por lá. Paralamas, Ultraje a Rigor, Lobão, Lulu Santos, Kid Abelha, Titãs. Foi a época de ouro. Abriu no dia 1º com o show do Erva Doce. Lá ficou pequeno, cabiam só mil pessoas, passamos para o Clube XV e depois para o Caiçara. Foram dois anos com dois shows por mês como Legião Urbana, RPM, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Parei quando começou a entrar o axé music, o sertanejo, pois aí vi que não ia dar mais. Tinha prazer naquilo que eu fazia, mas já não era minha praia e voltei para o cinema.
JV - Como vê hoje a cidade de Santos com tão poucos shows?
Toninho - Vejo com tristeza, não tem mais show. Santos já foi a terceira no Brasil em número de shows. As bandas ficaram minha amiga, porque naquela época a Heavy Metal era a única do Estado. Santos foi a primeira cidade de São Paulo a ter show do Paralamas, Lobão, Kib Abelha. Eles tocaram em São Paulo bem depois, quando abriu o Radar TamTam, aí dava para dividir os custos da passagem aérea, porque antes eles vinham só para vir para Santos. Fizemos o primeiro show do Barão Vermelho e o outro quando a banda se desfez. Eles queriam cancelar o show e eu já tinha vendido três mil ingressos, eles fizeram e ainda me comprometi a fazer o primeiro do Cazuza. Até hoje se pegar os documentários todos sempre falam do Heavy Metal, Caiçara e agora não tem mais lugar para tocar, mesmo que você queira. Estamos ficando cada vez mais às margens. Temos shows apenas no Guarujá, no verão, para um público que não é daqui. Estamos vendo a banda passar.
JV - Quando voltou para o Roxy com seu pai como era a situação dos cinemas de rua?
Toninho - Na verdade eu só fui mexer com a administração quando meu pai se afastou. Trabalhar com o pai é complicado (risos). No final dos anos 90 o cinema de rua já estava decadente faz um tempo. O formato antigo de cinema é que estava decadente, grandes salas que passam só um filme. O americano fala de uma maneira que é mais fácil de entender o que modificou. Eu continuo tendo um cinema, como tinha antes, mas é um cinema com cinco telas, o que significa que posso exibir cinco produtos diferentes e dependendo da programação, até 10. É diferente do formato antigo, um cinema, uma tela, um produto. Essa que é a grande mudança.
JV - Como foi essa época de transição? O CineRoxy ficou perto de fechar as portas?
Toninho - O Roxy era um cinema com uma tela, estava fadado a desaparecer ou virar Igreja Universal, não tinha saída. Eu sabia que tinha que virar, sabia o que estava acontecendo e o que tinha que mudar. Todo mundo achava que era louco, mas tinha certeza que daria certo. Eu vi isso em Los Angeles, na praia, em Santa Mônica, um cinema de rua com a melhor média de público. Lá você anda pela estrada e em toda esquina tem 30 salas de cinema, e um cineminha de oito salas tinha média maior que esses megaflex. Tudo depende da localização e da infraestrutura e eu estou no melhor lugar. O cinema de rua já tinha saído do Centro, os cinemas de lá já tinham fechado há 20 anos. O Roxy foi o primeiro do Gonzaga, depois foram transferindo para cá aos poucos e conseguiu se manter aqui.
JV - Quando você fez o projeto para a mudança do Roxy Gonzaga?
Toninho - O projeto já existia há cinco anos. Os recursos só consegui em 2003. Foi no começo dos anos 90 que apareceu esse formato de cinema multiplex. Hoje não tem 20 anos, é algo novo e em cinco anos já tinha esse projeto. Era o único cinema de rua multiplex do Brasil. Esse ano inaugurou o Marabá, em São Paulo, que todo investimento foi feito em função do sucesso do Roxy, em Santos.
JV - Como lidar com a concorrência do cinema nos shoppings?
Toninho - A única desvantagem que tenho é em relação ao estacionamento. A concorrência é por causa disso. Mesmo se fosse pago, é uma comodidade que o cliente tem ali. Se não é pago é uma concorrência ainda mais forte. Mas tenho condições técnicas de atendimento superior, que compensam um pouco. Para ver como a situação do Roxy ficou complicada no início, eu tinha um cinema em São José dos Campos e no melhor shopping. A primeira praça que o Cinemark abriu no Brasil foi lá e eu fechei as portas em três meses. Aqui em Santos abriu, eu vi a coisa preta, mas para você vê como Santos é uma cidade diferente, mesmo sendo cinema de rua ele resistiu melhor a concorrência pelo hábito, pela tradição e por estar no Gonzaga.
JV - E porque a decisão de implantar o Roxy, no Brisamar, em São Vicente?
Toninho - É um shopping muito bem localizado e bem feito. Considero o mais confortável, com um projeto muito legal de estacionamento, passarela. Os cinemas de São Vicente são os últimos a serem feitos na Baixada, por isso são os melhores. A cidade passou de 0 a 100 em uma tacada só, passou de um extremo ao outro e eu sinto que o público sentiu isso e corresponde de uma maneira emocionante. Percebemos como eles gostam e como dão valor para o cinema.
JV - Até então São Vicente não tinha cinema. Como você vê isso?
Toninho - Infelizmente essa é realidade da maior parte das cidades do Brasil, não tem cinema. Isso talvez se torne possível reverter com a projeção digital que deve chegar nos próximos. Hoje em dia não se poder abrir um cinema em uma cidade e passar o filme dois meses depois em uma cópia de película. As cópias piratas já estão na internet. Para ter cinema tem que ter produto simultâneo. A projeção digital vai deixar isso acontecer e ai vai se abrir muito cinema. Espera-se também financiamento para isso. O Governo está se esforçando, é uma situação que pode ser revertida.
JV - O Roxy abre as portas para eventos como o Curta-Santos e diversos projetos sociais do Poder Público. Qual a importância dessa democratização do cinema?
Toninho - Acho que isso é uma facilidade porque eu estou aqui. Quando vem até mim pedir parceria é bom porque estamos criando um público. O cinema tem que criar público sempre, principalmente com a criança, porque estamos atacando lá na frente. Cinema é um hábito, se a pessoa perde esse hábito é difícil voltar. Se não tem quando é criança, é difícil criar. Em São Vicente eu vejo com satisfação algo impressionante, um público que aprendeu a ver cinema na televisão e agora está indo para o cinema. É muito bom sentir que você conseguiu capturar esse público, que é algo possível.
JV - Agora o Roxy lançará novas salas no Shopping Iporanga? Há público para tudo isso?
Toninho - Pretendemos abrir as quatro salas no Pátio Iporanga, possivelmente em dezembro deste ano e fazer o Gonzaga voltar a ser a Cinelândia. Serão 12 salas, 9 no Roxy, 3 no CineUnibanco, e já estamos com mais salas do que no shopping. Quanto ao público depende do que eu falei. Era impossível imaginar em São Vicente um público como tem hoje. Precisa se criar o hábito e Santos já tem um público fiel. Novas salas vão atender um público que reclama da falta de filme que eles gostam. Tem gente que não gostar de ir no cinema quando tem Harry Potter passando, muita molecada, cheiro de pipoca. O Iporanga vai atender aqueles que ainda não estão satisfeitos com os cinemas de Santos.
JV - Qual o sentimento de ver o Roxy completando 75 anos e superando tantas adversidades?
Toninho - É um sentimento de satisfação muito grande, principalmente para quem viu isso quase acabar a pouco tempo atrás. Hoje em dia um negócio que dura 10 anos já é uma loucura, ter 75 então (risos). E eu vejo o que vai acontecer com o cinema no futuro e é uma coisa muito louca. Está chegando o 3D, mas acho que o grande segredo do cinema é interagir, juntar em uma sala pessoas que estão ali por que gostam das mesmas coisas. O público do Harry Potter não vai ver um filme diferente, junta-se pessoas semelhantes, que se aproximam pelo gosto num mundo cada vez mais distante devido à internet.
JV - Consegue assistir todos os filmes? O que gosta de fazer nas horas vagas?
Toninho - Todos não, mas eu vejo a maioria. Gosto muito de ir para a praia, que é o maior concorrente do cinema aqui em Santos (risos), e gosto de ir a restaurantes também. Cinema eu vejo mais a trabalho, muito pouco a lazer, às vezes venho com a minha mulher, aí sento em uma cadeira que estava com defeito ou acontece algo e vão me chamar, é um problema (risos).





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