Toninho Dantas

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Nesta entrevista, você vai conhecer apenas um pouco de uma pessoa incrível chamada Toninho Dantas. Com uma rica história que começou em Vicente de Carvalho e passou por palcos de todo Brasil ao lado de monstros consagrados do Teatro, Toninho é um exemplo de talento e perseverança.
Um triste episódio na sua vida fez com que largasse o teatro, mas nunca o mundo da arte. Para a sorte de nossa Região, ele voltou para cá e brilhou produzindo festivais como o Festa e o Curta-Santos, projeto recente que já é um dos principais eventos culturais da Região e do cinema brasileiro.
JV - Quais as principais lembranças da sua infância?
Toninho Dantas
- A principal lembrança é a travessia de catraia. Sou filho de imigrantes nordestinos, nasci no Itapema e morei no Casqueiro, quando era mangue. Pegava caranguejo e girino perto do rio. Atravessava a catraia para vir para casa dos meus avós em Santos e achava tudo muito gigantesco. Quando saia do túnel, via os navios monstruosos e achava maravilhoso. Tive uma infância muito feliz, com meus pais, mesmo analfabetos, preocupados com minha formação, educação e sempre nos falando que deveríamos procurar ler e estudar para sermos cidadãos.
JV - Quando começa sua paixão pela cultura?
Toninho Dantas
- A cultura sempre permeou a minha vida. Meu pai e meu avô foram para guerra, conheceram vários países e sempre falavam como eram os locais. Na infância, meu pai me levava na barca e perguntava qual era determinada bandeira, a capital e explicava a história do País. No Golpe de 64, todos os amigos do meu pai foram presos, e ele, diretor do Sindicato dos Petroleiros, foi retirado com bomba de uma assembleia um dia antes do Golpe Militar. Esse processo cultural sempre esteve presente na minha vida, não apenas arte, cinema, teatro, mas a cultura humana, política, nosso jeito de comer, se vestir e entender a diversidade dos lugares.
JV - E a arte? Como ela surgiu na sua vida?
Toninho Dantas
- Eu tinha 12 anos quando fui convidado para fazer uma peça de teatro. Eu fiz, e quando fui estrear tive que tirar as amídalas. Fui tirado, fiquei magoado e passei minha juventude sofrida por causa disso. Fui estudar para fazer outras coisas. Em um momento na Prodesan, em Santos, tinha uma mostra e uma atriz fazendo um curso para vários professores e que precisava de uma improvisação. Lá fui eu, muito despachado. A atriz era Berta Zemmel, protagonista da novela Vitória Bonelli. No dia seguinte voltei, fiquei sentado e ela antes de começar foi simpática e falou “foi muito bom ontem, mandaram um ator para descondicionar a gente”. Aí, eu falei que não era ator, que só tinha ido para tirar sarro. Ela negou e, novamente, disse que eu era ator. Eu adorava aquilo ali, com 13 anos já adorava ler literatura francesa, russa, era algo que me fascinava. Entrei na Escola de Arte Dramática da USP, fiquei 12 anos morando em São Paulo, fazendo teatro profissional, trabalhei com feras como Antunes Filho, Regina Duarte e Ruth Escobar.
JV - Na sua trajetória profissional, quais espetáculos mais te marcaram?
Toninho Dantas
- Eu fiz Rasga Coração, uma peça muito importante para o teatro brasileiro, durante um ano e meio, com o Raul Cortez. Tinha um texto proibido pela Ditadura, inauguramos o Teatro Sérgio Cardoso e me marcou muito. Atuei com o Raul Cortez, que é para mim o maior ator do teatro brasileiro, além de uma série de pessoas importantes que passaram pelo espetáculo. Mas o que me lembra mais como teatro foi a Revista do Henfil em plena ditadura militar. Viajamos o Brasil inteiro, fui preso politicamente em Porto Alegre, esconderam a gente de quartel em quartel. Eu estava com muita gente, como o Paulo César Peréio, que era casado com a Cissa Guimarães. Ele estava na fase mais iluminada da sua carreira. Nessa época, ganhei a consistência e a seriedade do trabalho de ator e também fui entender que a arte é um veículo da melhoria da situação humana, que leva a reflexão, desperta o olhar sobre o real. Independentemente de ser música, teatro, literatura, você sai transformado e aprende mais sobre um lado seu, começa a olhar para o mundo de forma diferente, analítica, reflexiva. Através da arte você forma pessoas e leva consciência e cidadania.
JV - Algum momento inesquecível nessa jornada com a Revista Henfil?
Toninho Dantas
- Estavamos em Brasília, tínhamos acabado de ser presos em Porto Alegre e estavamos estreando o teatro. Na cena, cantávamos uma música dando uma bronca no presidente e sacudíamos as bandeirinhas verde e amarelas. Na hora que fui passar uma bandeirinha para Ruth Scobar, ela me perguntou o que estava acontecendo lá fora. Quando olhei, tinha exército, bombeiro, polícia, estavam querendo entrar no palco porque tinha uma granada lá dentro que ia explodir em 15 minutos. O teatro estava lotado, políticos, empresários, poetas, gente no chão e só tinha duas portas de saídas. Entrei de volta em cena, agradeci a presença e falei que tinha muita gente lá fora que também queria assistir. Disse que íamos continuar o espetáculo no ginásio, ao lado. Quando as pessoas saíram, viram tanques, gente com metralhadora e, realmente, tinha granada no teatro. Mas eram três, uma no som e duas embaixo de cadeiras. No dia seguinte, todo ator tinha que recitar um poema, e eu brinquei dizendo que adorava bomba e que haviam me falado que em Brasília tinha uma de chocolate maravilhosa; tudo mundo riu muito. Neste dia na platéia, estava com 16 anos, Herbert Vianna, que foi falar conosco e tocou para a gente.
JV - Você chegou a se apresentar em presídios?
Toninho Dantas
- Sim, em nove presídios do Brasil. Fiz na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, para presos políticos, outro em Salvador, além de uma série de apresentações no Carandiru para nove mil pessoas. Marcava muito, porque além de estar dentro de um teatro, você via a arte alcançando todas as pessoas. Minha mãe era analfabeta e foi a pessoa que me explicou Picasso. Ela olhou Guernica e falou onde via sofrimento, a guerra. Agora, infelizmente há muito pouco acesso a arte . Íamos fazer teatro no presídio, no cinema. Tinha o público burguês, formador de opinião, mas tem aquele trabalhador, favelado, índio, negro, as minorias também se expressam e tem uma cultura própria, apagada do grande sistema. E não é culpa do diretor do filme, do ator, porque eles precisam viver e é caro fazer espetáculo. As leis precisam ser bem mais distribuídas, sem privilegiar conglomerados econômicos ou grandes artistas. Apoiar um grupo de negros quilombolas do Maranhão é mais fundamental do que apoiar um show da Ivete Sangalo.
JV - Se hoje é difícil um ator se sustentar, naquela época era pior. Como você fazia?
Toninho Dantas
- Fazia o diabo. Trabalhava 18 horas por dia para estudar e me manter. Trabalhava em bares, fazendo shows, lavava copo para ganhar sanduíches, bem como teatro infantil para empresas, pesquisas para o metrô. Fiz tudo. Dirigia táxi, organizava grupos para visitar museus, o que pintasse para sobreviver, eu fazia. Mas sempre mantendo a minha integridade, para poder comprar meus livros, discos, filmes, ir aos museus que queria e ver peças de teatro que eram fundamentais para mim.
JV - Também chegou a atuar na direção de peças?
Toninho Dantas
- Dirigi bastante coisa, em uma fase quando Beth Mendes era secretária de Turismo. Eu viajei pelo Estado e levei teatro para outras regiões de São Paulo. Mas não é a parte onde eu me expressei melhor. Fiz coisas interessantes. Quando fez 200 anos da morte de Tiradentes, a gente fez uma performance com mais de 100 atores. Andamos pelo Gonzaga cantando uma música do Titãs. Fecharam o comércio achando que era um arrastão (risos). Terminamos na Concha com tochas, junto com mendigos e cantando “quem quer manter a ordem, quem quer criar desordem”. Sempre fui muito anarquista, acho que aí está o melhor de mim, meu jeito anárquico de viver, de me vestir, meu pensamento. Anarquia não é o caos, mas um modelo que tenta melhorar a qualidade de vida das pessoas e do próprio poder. Ás vezes, o poder precisa ser fracionado, para se romper e o humano sobressair.
JV - Em que momento você voltou para Santos?
Toninho Dantas
- Estava fazendo um espetáculo com Ulisses Cruz chamada Velhos Marinheiros, onde estava Alexandre Borges, Antonio Calloni. Lembro que teve uma crise de cachumba no elenco, eu não falei nada para ninguém e a minha desceu para o pâncreas. Fiquei muito mal e, para me salvar daquela pancriatite, tive que tomar remédios fortes para infecção; eu tinha rejeição à penicilina e não sabia. Queimei meus tímpanos e só sobrou 20% da minha audição. Não tinha mais como fazer teatro, pois não ouvia meus companheiros em cena, nem dava para ficar no palco. Foi um caos na minha vida, uma vez que você se prepara a vida inteira para aquilo. Depois que viajei, conheci pessoas, fiz contatos, comecei a ser convidado para fazer espetáculos, pontas na televisão, comecei a florescer minha carreira, aí vem algo e fala para você que acabou. Foi horrível.
JV - Logo encontrou um outro caminho para seguir com a arte por aqui?
Toninho Dantas
- Vim para cá e não tinha o que fazer. Meu amigo tinha um táxi na rodoviária e eu fui trabalhar de taxista, depois com imóveis em Praia Grande, fui me virar como todo brasileiro, sendo honesto que é o mais importante. Conheci uma senhora chamada Glorinha Vasconcelos, que estava fazendo um Festival de Música e eu comecei a participar. O Festhamar mobilizou mais de 500 composições e quem ganhou foi o Zinho, da União Imperial, e o Paulo Schiff, hoje apresentador de televisão. Em 1992, me colocaram para presidente da federação e, depois, veio a descoberta da Pagu, onde fui absorvido pelo mundo cultural da Cidade. Com isso, pude me redescobrir como ser humano, me readaptar a uma nova condição e reafirmar minhas convicções de que a arte é fundamental sempre; e se passou por você, nasce o compromisso de repassar isso. Não existe idade para troca, existem conceitos e preconceitos. Velho, magro, gay, preto, gordo, são pessoas e dentro delas existem seres humanos e cada um é unico. Temos que acontecer alguém antes de falar.
JV - Como foi a experiência de dirigir o Festa?
Toninho Dantas
- Maravilhoso! Hoje, eu cheguei ao meu ápice do que é minha lucidez, me enxergar como ser humano. Eu voltei a casar comigo. No Festa, eu aprendi a ter responsabilidade com o coletivo, pois tem que tirar muito do teu ego para fora por você responder por aquilo. Sua visão ética, estética, discurso político e filosófico vão até determinado ponto, mas é um coletivo que escolhe e você tem que trabalhar para que ocorra da melhor forma. Você tem que deglutir e voltar animado, com expectativa para funcionar; foi um período deslumbrante. Lembro do dia 1º de setembro de 2008, era reinauguração do Teatro Municipal e se comemorava 40 anos de carreira de Plínio Marcos. Ele chegou atrasado, entrou pela porta lateral, atendeu a imprensa e quando entrou, eu gritei “senhoras e senhores, com muito orgulho o patrono da festa: Plínio Marcos!”. As pessoas ficaram 15 minutos em pé aplaudindo sem parar e você estar naquele momento do lado daquele gênio e ver o respeito dos jovens pela obra daquele cara doce, simples, feroz naquilo que defendia, de uma poética tão forte, foi um momento inesquecível na minha vida.
JV - De onde veio a idéia da criação do Curta-Santos?
Toninho Dantas
- O Plínio sempre (risos). A gente fez uma festa para o Plínio e veio diversas pessoas. Depois, em uma conversa com o José Roberto Torero (escritor) e com a Beth Mendes, falávamos sobre Santos ter um festival de teatro, uma bienal, a X-9 fazendo 60 anos e o que faltava era algo relacionado ao cinema. Três meses depois entrou em contato comigo a produtora Zita Carvalhosa, aconselhada pelo Torero, e queria trazer o Festival Internacional de Curta-Metragem para Santos. Mesmo não sendo de cinema, eles nos quiseram na produção. Então, pensei em criar algo nosso. Vai que tivesse algo. Hoje em dia, todo mundo tem uma câmera, tem as faculdades, se aparecessem cinco já estava ganho. Entrou em contato a TV Tribuna, falamos do Festival Internacional e do Curta-Santos, fizemos regulamento e tudo mais. Depois, a TV Tribuna ligou e falou que ia dar o apoio. Ficamos satisfeitos porque era um Festival Internacional, mas, na verdade, era para o Curta-Santos. Ele entraram de cara no primeiro. Tivemos 26 filmes e oito roteiros inéditos. Vimos que era só arregaçar as mangas e continuar.
JV - Qual a importância do Curta-Santos para o cinema e para a Região?
Toninho Dantas
- A gente chama de monstrinho. Foi dobrando de ano a ano e, hoje, ocupa um lugar no calendário da Região. Diria sem pudor, sem falsa modéstia, porque não sou eu, não tem filme meu, mas pelo trabalho e pela organização, que é um dos principais eventos culturais da Região. Pelos meninos que estão produzindo, sabe-se Deus como. Já faz parte do calendário nacional de cinema, pertence a fórum dos festivais e está entre os 30 principais de Língua Portuguesa. No ano passado foram 1200 inscrições, mais de 100 do Japão e 70 da Argentina. Hoje, o mundo do cinema olha para o Curta-Santos e vice-versa.
JV - Quais são as novidades para esse ano?
Toninho Dantas
- Esse ano ele vem repaginado, com mostra de longas bem protagonizadas. O filme “A Festa da Menina Morta” será apresentado com Matheus Nachtergaele na sessão, ele que está no seu ápice como ator e pensador, vai acompanhar o filme e falar sobre o processo de criação. Teremos Belmont, que participou em Cannes, Carlos Manga, além do Festival Internacional de Manaus, o CinePernambuco. Eu acredito que o Curta-Santos se estabeleceu e ficou sua base caiçara. Não é feito pela Capital, mas, sim, pelos municípios da Costa da Mata Atlântica. É um dos festivais com maior assiduidade de público e já tem o seu cantinho. O Curta-Santos não é Toninho Dantas, são cada um desses menininos do Litoral Paulista, de São Sebastião até Iguape, que já produziram mais de 400 títulos, entre curtas, médias e longas metragens.
JV - Depois de tantos eventos, o que podemos esperar de Toninho Dantas?
Toninho Dantas
- Eu tenho várias respostas para te dar. (Toninho diz de forma decorada um discurso político). Agora, a resposta sincera é que nossos eventos são mal produzidos, a gente é pouco abraçado pelo Poder Público e as verbas são irrisórias. Esse ano, agradecemos muito ao Governo do Estado que está bancando o Curta-Santos, mas se você vê o que produzimos na Região, só é voltado para a Região. Ficamos num módo perpétuo, afogados dentro de um modelo que não se expande. Precisamos começar a pensar em eventos com orçamentos maiores para ampliá-los. Temos a riqueza do Porto, do Pólo Petroquímico de Cubatão e não temos grandes projetos culturais. Isso me deixa indignado, porque gera empregos, turismo, ajuda os atores e produtores, mas ficamos pensando em eventos só voltados para a própria comunidade. As empresas lucram tanto e não sobra um pouco para a pauta cultural, para terminar o Teatro em Cubatão, transformar o Festa num evento nacional ou dar dinheiro para a Bienal.

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