Personalidades
- outubro 26, 2009
Antônio Roberto Marchese

Ele respira arte. Antônio Roberto Marchese é ator, redator, roteirista, diretor e locutor. Um profissional ‘multiplataforma’,
mas que não esconde sua paixão pelo teatro e, sobretudo,
pela Encenação da Vila de São Vicente.
Marchese participou de movimentos políticos, tornou-se presidente da Federação de Teatro e, ao derrubar o sistema ditador da política teatral na Região, percebeu a oportunidade de idealizar uma peça que retratasse a história de São Vicente.
Em 1982, ano em que a Cidade comemorava 450 anos de fundação, Marchese inaugurou o evento que viria a se tornar
o maior espetáculo teatral em areia de praia do Mundo: a Encenação da Vila de São Vicente. Paulistano de nascimento, mas vicentino de coração, o diretor calou os críticos ao implantar um evento desse porte na Cidade. Hoje, quase 30 anos depois de sua primeira direção, Marchese comandará mais uma vez a festa que celebra o aniversário do Município.
Em entrevista ao Jornal Vicentino, o diretor fala sobre sua infância pelas cidades da Região, a vinda para São Vicente e seus trabalhos no cenário artístico. Além disso, ressalta ainda a importância da Encenação para a cultura vicentina. A seguir, confira a entrevista na íntegra:
Jornal Vicentino - Onde você nasceu e quais as principais lembranças de infância?
Marchese - Eu nasci no bairro Tatuapé, em São Paulo. Mas ainda morei em Campinas, Ubatuba, Santos e, depois, me mudei para São Vicente, no Parque Bitaru. Nessa época, não tínhamos muita liberdade para sair, como existe hoje. Na verdade, só fui ter mais oportunidade de sair na época em que meus pais se separaram, quando fui morar com a minha mãe. Éramos quatro irmãos sob o comando de uma mulher e, por isso, comecei a trabalhar muito cedo.
JV - Onde o senhor estudou e como era seu desempenho escolar?
Marchese - Em São Vicente, estudei no Grupão, Martim Afonso e no Itá. Lembro que algumas salas de aula eram divididas em duas disciplinas. Como eu era peralta, acaba respondendo questões referentes à outra matéria, na qual eu não estava. Isso, de certa forma, incomodava o professor (risos).
JV - Desde pequeno, já se interessava pela área artística?
Marchese - Minha família sempre teve uma veia artística. Meu tio, irmão da minha mãe, era um tenor de primeira voz no Teatro Municipal. E minha mãe canta muito bem, também. Além disso, eu tinha outros tios artistas. Mas para eles era difícil assumir a carreira artística, pois, naquela época, quem trabalhava com arte era taxado de vagabundo e prostituta. Os conceitos de arte eram muitos cruéis, digamos. Comecei a me interessar por arte devido à necessidade de trabalho.
JV - Após terminar os estudos, onde você trabalhou?
Marchese - Para ajudar minha mãe, comecei a trabalhar quando ainda era bem jovem. Trabalhei em lugares significativos, como a farmácia do Ruas e na Bacal. Mas o meu primeiro emprego foi aos 9 anos, na época que morei em Campinas. Eu tomava conta de um bar sozinho, pois nos fundos havia uma pensão e a dona do estabelecimento tinha que trabalhar. Com 16 anos, em Santos, conquistei um emprego no Parque Balneário. Hoje é um shopping, mas na época era um famoso prédio, o “Cassino da Urca” de Santos. Lá se concentrava grandes bailes e espetáculos, além do Teatro Íntimo de Comédia, onde comecei a trabalhar. Greg Filho e Paulo Lara que comandavam o teatro. O início dos trabalhos foi no escritório, escrevendo os textos dos oito atores. E o trabalho era duro, pois fazia numa máquina com folha de sulfite e mais sete de seda e carbono. Lembro que tinha que digitar com muita força para o texto poder sair nas demais folhas. Caso errasse, o ator que ficasse com as últimas folhas não entendia nada o que estava escrito. A primeira coisa que me chamou atenção no teatro foi a linguagem dramatúrgica. Para não sentir a parte chata de ter que digitar texto longo com oito folhas, comecei a ler os personagens e entender o que eles faziam. A partir daquele momento, comecei a me interessar e acompanhar até os ensaios. Depois, um pouco mais experiente, desenvolvi meus trabalhos com som e iluminação.
JV - Como iniciou seus trabalhos como ator?
Marchese - O espetáculo se chamava “A Canção Dentro do Pão”. Certo dia, durante o espetáculo, um dos atores brigou com o diretor e foi embora, o que deixou a peça sem um dos personagens. Como digitava os textos, eu sabia as falas de todos os personagens. O diretor estava desesperado e não sabia o que fazer. Eu, que trabalhava na sonoplastia, levantei o dedo e disse: “Eu sei fazer o que ele estava fazendo ” (risos). A princípio, o diretor torceu o nariz, mas, depois, acabou aceitando que eu fizesse o papel. Vesti a roupa e fluiu. Nessa época, frequentava o Teatro de Arena, em São Paulo, na época da ditadura. Trabalhava como assistente, mas como a situação era complicada, uma vez que havia violência por parte das autoridades, acharam melhor que eu saísse. Além disso, eu era menor de idade, e isso também contribuía para minha retirada. Voltei para Santos e fiquei por aqui. JV - O senhor dirigiu o primeiro espetáculo da Encenação da Vila de São Vicente, em 1982. Como surgiu o convite?
Marchese - Participei de muitos movimentos políticos e, consequentemente, me tornei presidente da Federação de Teatro nos anos 80. Comecei a tomar conhecimento sobre teatro amador e percebi que era uma vertente muito centralista, um reflexo da ditadura. Durante os festivais, os vencedores eram sempre os mesmos, além das diretorias da Federação serem sempre as mesmas, pois existia um conselho vitalício. Enfim, não existia eleição, muito menos participação popular. Talvez as pessoas da época não percebiam isso, mas estavam a serviço da ditadura. Eu e outras pessoas começamos a perceber a existência de muitos grupos de teatro na Região. A partir daí que começa a história da Encenação. Graças a uma luta política, conseguimos derrubar o sistema que existia em plena ditadura. No entanto, na medida que derrubamos esse sistema, perdemos verbas e apoio da Prefeitura, diversas regalias. Pois bem, resolvemos criar um movimento popular. As primeiras ações foram espetáculos em bairros, como “Capitães da Areia”, do Jorge Amado. Eu, inclusive, tenho uma carta dele elogiando o espetáculo que adaptamos. Acabamos revolucionando tudo. Em seguida, partimos para as mostras de teatro, objetivando fazer mostrar em todas as cidades da Baixada. Eu ia nas Prefeituras e falávamos sobre o projeto. Em São Vicente, pedi uma audiência ao prefeito Reis (Antônio Fernando dos) para podermos montar a primeira mostra calunga. Discutíamos muito sobre o que e como poderíamos montar. Numa das reuniões, havia um grupo liderado pelo Ronaldo Frutuoso, que era um cara extremamente ativo. Ele falou de uma peça sobre a história de São Vicente, mas tinha dúvida se poderia dar certo. Concordei com a ideia e expliquei que era algo válido tratando-se de cultura popular. Dias depois, o prefeito falou para mim que gostaria de comemorar os 450 anos de São Vicente de uma forma diferente. Na mesma hora, tive um estalo na cabeça e lembrei da conversa sobre a peça que encenava a fundação da Vila. E sugeri que a encenação fosse feita para comemorar o aniversário.
JV - E como foi a preparação do primeiro espetáculo?
Marchese - Eu tinha mais de dez grupos em minhas mãos. Garanti ao prefeito que a peça daria certo e que cuidaria de todos os detalhes. O cenário era feito na carpintaria, o figurino era feito por outras pessoas, enfim, tudo com recursos mínimos. Foi uma época difícil, pois eu e o prefeito fomos taxados de loucos por diversas vezes. Entretanto, no dia da Encenação da Vila, com mais de 150 atores em plena praia, muitas pessoas ficaram emocionadas. Lembro que muita gente veio pedir desculpas, inclusive. Depois, fiz mais quatro ou cinco edições da Encenação. Me ausentei, voltei em 2004 e, agora, comandarei o evento novamente.
JV - Qual a importância deste evento para a cultura do povo vicentino?
Marchese - Hoje, toda população sabe da importância da Encenação, que já se tornou um evento grandioso e conhecido no mundo inteiro. Em 2004, tive contato do Paul Simon, porque após a queda das torres, eles queriam fazer espetáculo semelhante para resgatar a auto-estima do povo norte-americano. A Encenação da Vila de São Vicente é um patrimônio criado por eles. Na última Encenação que dirigi, vi pessoas que haviam participado da primeira edição. Digamos que a Encenação transformou-se num evento catalizador ao longo dos anos. E acredito que se o evento tivesse sido feito com toda verba do mundo, não chegaria onde chegou.
JV - Diferentemente das outras edições, a Encenação 2010 contará com auxílios tecnológicos. Como será este trabalho?
Marchese - Uma das grandes virtudes da Encenação é a dimensão que ela tomou. E não é por causa do que é investido, pois conheço espetáculos dentro e fora do Brasil com muito mais investimento e que não engrenou. A Encenação 2010 dará um passo significativo com a inserção de tecnologia, pois já foi o tempo que as pessoas passavam três horas assistindo a um espetáculo. Hoje, a interação com o público e os conceitos de arte mudaram. Vemos atores sozinhos fazendo espetáculos cheio de ações multimídias. Se isso é válido, só o tempo irá dizer. Conheço, por exemplo, diversas encenações pelo Brasil que permaneceram com o mesmo formato desde a primeira edição. E estão sumindo e perdendo prestígio. A linguagem artística se modificou e não dá para ficarmos sempre com a mesma coisa. Essa é a diferença entre o regionalismo e o universialismo. Se você tem uma visão universal das coisas, a chance do seu espetáculo dar certo é muito maior.
JV - Dentre todos os trabalhos que você já dirigiu, qual te marcou mais?
Marchese - A Encenação de 2004 marcou bastante, pois a última Encenação que eu havia feito tinha 300 atores e não contava com uma grande estrutura. Além disso, foi uma auto-afirmação muito grande e ficará gravado para sempre na minha memória. Mas, de uma forma geral, todos os trabalhos que fiz me marcaram. Direção de filmes publicitários, bem como os trabalhos de ator me orgulham. Cheguei até a gravar um comercial com o Pelé, inclusive. O importante para mim é fazer bem feito, pois sempre demorei muito para fazer as coisas e, talvez, eu pague por isso. Não pego aquilo que acabei de aprender e, logo em seguida, monto algo para ganhar dinheiro. Só faço meus trabalhos depois de ter certeza da minha capacidade para fazer determinada coisa, como meus trabalhos de locutor, por exemplo.
JV - Como começou seus trabalhos na área da locução?
Marchese - Minha profissão mais recente é locutor. De repente, o Nízio Lemos falou que eu tinha uma voz boa para fazer locuções. Mas eu queria saber até onde poderia chegar com essa nova profissão. E só comecei a ganhar dinheiro como locutor quando fui fazer cursos do gênero e trabalhos com fonoaudiólogo.
JV - Quais são seus próximos objetivos profissionais?
Marchese - A carreira artística no Brasil é complicada, pois você é obrigado a fazer um pouco de tudo. Sou ator, redator, roteirista, diretor e locutor. Estou trabalhando num longa, mas não posso só depender dele, pois diferentemente de outros países, no País não conseguimos sobreviver de um único trabalho.





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