Personalidades
- novembro 23, 2009
Paulo Roberto Bonavides

O advogado criminalista conta sua história de vida ao JV e faz uma análise da estrutura dos cursos de Direito no País, bem como a preparação das universidades para formar futuros advogados.
Ele sempre teve uma certeza: queria ser advogado. Com boa parte da família atuando na área de advocacia, Paulo Roberto Bonavides já sabia desde pequeno o que queria ser quando crescer.
Ainda criança, Bonavides pegava o terno e as gravatas do pai para brincar como advogado. Gesticulava bastante e, naquele momento, representava algo que seria no futuro.
Nascido e criado em Santos, Bonavides sempre gostou do clima praiano e de jogar futebol com os amigos. Foi jogador da Portuguesa Santista, recebeu convite até para atuar no São Paulo, mas acabou não seguindo carreira, uma vez que sua paixão sempre foi advogar.
Com apenas 17 anos, ingressou na Universidade Metropolitana de Santos, e, logo cedo, já começou a trabalhar no escritório de seu tio, também advogado. Ainda jovem, realizou outro sonho de sua vida: ministrar aulas de Processo e Prática Penal na universidade.
Hoje, além de advogado e professor universitário, Bonavides também atua como coordenador do curso de Direito da Unimonte e, ainda, prepara sua tese de doutorado.
A seguir, conheça um pouco sobre a história de vida do advogado criminalista Paulo Roberto Bonavides.
JV - Onde você nasceu e quais as principais lembranças da sua infância?
Bonavides - Nasci em Santos. Meus avós e pais eram de origem humilde e moravam no bairro Chinês, próximo à entrada de Santos. Morei no Gonzaga, próximo à praia, onde íamos constantemente jogar bola com meus dois irmãos. Meu pai trabalhou na Cosipa por 30 anos, começando sua carreira como office-boy e, posteriormente, terminando como gerente. Falando em lembranças de infância, me recordo do Dia das Crianças promovido pela empresa dele. Era uma festa enorme, onde traziam grandes atrações, como Os Trapalhões. Além disso, faziam entrevistas durante o evento. Numa dessas festas, entrevistaram eu e meus irmãos, perguntando o que nós queríamos ser quando crescer. Um deles respondeu que queria ser jogador do futebol. O outro disse bombeiro. Eu, por incrível que pareça, respondi advogado. Desde pequeno já tinha essa vontade de seguir carreira no Direito. Talvez tenha sido influência familiar, uma vez que diversos parentes atuam na área de Direito Criminal. Mas voltando às lembranças, me recordo de pegar as gravatas do meu pai e seu terno enorme, e ficava gesticulando, como se fosse um advogado (risos). Entretanto, mesmo sabendo que queria seguir a área de advocacia, joguei futebol por muito tempo e quase me tornei jogador. Eu era meia esquerda e atuei pela Portuguesa Santista. Durante um campeonato em Poços de Caldas, Minas Gerais, um olheiro do São Paulo fez um convite para atuar no clube do Morumbi. Eu, são-paulino, fiquei entusiasmado com a oportunidade, mas minha mãe Nanci não gostou muito da ideia de eu sair de casa. Além disso, também joguei futsal durante muitos anos. Mas ao fazer 17, entrei na faculdade para cursar Direito.
JV - Antes de se formar advogado, trabalhou em outras profissões?
Bonavides - Sim. Quando tinha por volta de 15 anos, um amigo me chamou para trabalhar no estoque da loja de sua mãe no final do ano. Lá, eu montava aquelas caixas de guardar presente. Ficava de novembro a fevereiro para juntar uma quantia de dinheiro, pois sempre gostei de me virar.
JV - E como foi o início das aulas de Direito?
Bonavides - Estudei na Unimes e comecei a fazer estágio cedo, com o Dr. Almeida, um promotor que está na ativa. Ele foi uma pessoa que me ajudou muito. E outra pessoa que contribuiu para minha formação foi o Dr. Otávio Borba, que trabalha como promotor do júri em Santos. Ele é uma pessoa sensacional e tenho muita amizade com ele. Falando nisso, o primeiro júri realizado pela juíza Débora em São Vicente foi eu que fiz. Ela estava nervosa e eu lembro de ter falado: “você não pode ficar nervosa. Quem deve estar nervoso é o réu, que pode sair daqui preso e algemado” (risos).
JV - Quando montou seu escritório?
Bonavides - Eu tinha um tio que era um advogado respeitadíssimo, que também foi vereador em Santos, assim como meu pai. Enfim, como boa parte da minha família era ligada ao Direito, comecei a atuar na área criminal e iniciei meus trabalhos no escritório do meu tio.
JV - Além de advogado, você também ministra aulas em universidades?
Bonavides - Sim, ministro aulas de Processo Penal e Prática Penal. Outra pessoa que admiro bastante é o Dr. Marcelo Guimarães. Ele foi meu professor durante os cinco anos da faculdade, de Direito Civil, uma matéria que eu não gostava muito, pois é oposto ao Direito Penal. No último ano da faculdade, ele assumiu como diretor da Unimes. Me formei em 1993 e, em 1998, comecei a dar aulas. Certo dia, ele me ligou e fez um convite para eu assumir o cargo de professor. Fiquei pensando: “Será que ele sabe que eu quero dar aula e ele está brincando comigo?” Pois além de advogar, eu também tinha o sonho de ministrar aulas em universidades. E estou gostando de dar aulas, pois sou apaixonado por aquilo que faço. Aliás, trabalhando com Direito Criminal, você precisa ser apaixonado, pois acaba se envolvendo muito com as famílias para quem advoga. E além de advogar, agora sou diretor do curso de Direito da Unimonte.
JV - E como você avalia o trabalho de diretor de curso?
Bonavides - Estou há dois anos no cargo e entrego o cargo no final do ano. É uma experiência diferente, pois você precisa pensar no curso como um todo. Você se preocupa com o trabalho dos professores, a nota do MEC, além dos estágios. De qualquer forma, foi uma experiência significativa e creio que dei minha parcela de contribuição.
JV - Muitos estudantes de Direito não são aprovados no exame da OAB. Qual a importância dessa prova?
Bonavides - A importância é fundamental para o advogado, pois sem a aprovação do exame da Ordem ele é um bacharel e fica restrito. Com a carteira de advogado, o aluno terá oportunidades de trabalhar em diversos âmbitos. Infelizmente, a aprovação no exame da OAB vem sendo muito baixo em todo País. O exame da Ordem foi unificado, exceto Minas Gerais que não aderiu à unificação. E o Estado de São Paulo fico em penúltimo lugar.
JV - Na sua opinião, quais são os motivos que levam a esse baixo rendimento?
Bonavides - A proliferação dos cursos de Direito de forma desordenada contribuiu para esse índice baixo, bem como a má preparação dos alunos chegam ao Ensino Superior, com um ensino de base muito aquém do ideal. Hoje, faço parte da Comissão Estadual da OAB e verifico muitas irregularidades. Faculdades que contratam professores sem titulação; universidades que encerram as atividades às 22h para não pagar adicional noturno aos professores; faculdade que é feita em cima de uma padaria no interior de São Paulo, sem preparação alguma. Enfim, acredito que a OAB e o MEC precisam estar atentas a todos essas irregularidades, uma vez que a Educação é importante para o nosso País.
JV - Por que surgem tantas cursos ilegais no Brasil?
Bonavides - Acredito que devido às oportunidades que o curso de Direito proporciona. Com a carteira da Ordem, você pode advogar, prestar concurso público para ser juiz, promotor de justiça, delegado, procurador do município, procurador do Estado, além de trabalhar em cartório, também. Enfim, esse leque de opções atrai muito as pessoas.
JV - E está ocorrendo essa fiscalização atualmente? Há uma solução a curto ou longo prazo?
Bonavides - Tenho visto com bons olhos o trabalho exercido pelo ministro da Educação, Fernando Haddad. Ele vem trabalhando muito, de forma séria. Apesar do gabarito ter sido divulgado antes do previsto, o Enem, por exemplo, é um novo instrumento para que as pessoas possam ingressar nas faculdades. Além disso, tenho visto que o MEC está com os olhos atentos para as faculdades de Direito.
JV - Trabalhar como advogado e professor. Sua rotina parece atribulada. Como é seu dia-a-dia?
Bonavides - Três dias da semana pela manhã, eu advogo. Dois dias pela manhã, eu advogo. O período da tarde também é dedicado todo para meu trabalho de advogado. À noite, eu também ministro aulas. Devido à correria, abdiquei um pouco do trabalho como diretor, pois queria mais qualidade de vida. Agora, fico mais próximo dos meus filhos Pedro e Gabriel, além da minha esposa Patrícia. Jogo bola com meus filhos, ando de bicicleta, enfim, sou um pai presente. Além disso, levo um filho no futebol, outro no judô, acompanho eles sempre que possível.
JV - Seu pai foi vereador em Santos. Em algum momento da sua vida, pensou em fazer trabalhos no Legislativo?
Bonavides - Sou vice-presidente do PSB em Santos, mas a vereança nunca despertou uma paixão em mim. O Legislativo fiscaliza o Executivo, mas, muitas vezes, percebo que o Legislativo fica de mão atadas, uma vez que o Executivo quem realiza as ações. Já o Executivo me atrai um pouco, mas não é encarado como uma prioridade na minha vida. Mas dois cargos que eu encararia como desafio são o prefeito de uma cidade e provedor da Santa Casa. Essas duas funções são capazes de ajudar muitas pessoas e, se um dia, Deus quiser que eu assuma algo assim, eu encararia esse desafio.
JV - Quais são seus próximo objetivos profissionais?
Bonavides - Encerrando meus trabalhos na coordenação de Direito da Unimonte, vou dedicar minha atenção ao meu doutorado. Essa é a minha pioridade para 2010. Meu mestrado foi sobre as garantias condicionais das crianças e dos adolescentes. Já no meu doutorado, num primeiro momento, quero traçar um paralelo da menor idade penal no mundo, ou nos países mais relevantes. Quero analisar como funciona a responsabilidade em diversos países, fazendo um comparativo e, obviamente, trazer algum benefício para o nosso país.





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