Carlos Sosa

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Nascido na província de Las Villas, na República de Cuba, Carlos Eleuterio Trejo Sosa formou-se em Relações Internacionais no Instituto Superior de Relaciones Internacionales e em Direito, ambos em Havana, capital cubana.
Sosa, que cursou pós graduação na Academia Diplomática de Moscou, na Rússia, realizou intervenções humanitárias no Centro Internacional “Lester B. Pearson”, no Canadá.
Posteriormente, ingressou no Ministério das Relações Exteriores da República de Cuba, exercendo as funções de especialista em assuntos da Europa Ocidental, chefe de departamento de assuntos relativos à Europa Ocidental e Europa Socialista, além da sub direção da Europa Unificada.
Dentre as funções diplomáticas, atuou como primeiro secretário na Embaixada da República de Cuba no Reino Unido, na Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Além disso, exerceu a função de ministro conselheiro de Cuba na União Soviética, além de ser encarregado para assuntos internacionais na Albânia.
Como professor, ministrou aulas nas academias diplomáticas de Guiné Equatorial, Haiti, Equador e Venezuela, participando de importantes eventos científicos, tendo publicado ainda vários trabalhos em revistas especializadas.
Sosa também ministrou conferências na Universidade de Halifax, no Canadá, e no Ministério das Relações Exteriores da Nicarágua.
Em 2004, veio ao Brasil devido a trabalhos diplomáticos e acabou conhecendo a cidade de São Vicente. Aqui, foi peça fundamental na articulação da assinatura de um convênio de irmanação entre o Município e a cidade cubana de Holguin. O convênio teve como objetivo oferecer aos jovens de São Vicente bolsas de estudo para a carreira de medicina na Escola Latino Americana de Medicina (Elam), além de propiciar a troca de experiências nas diferentes áreas de administração pública, ciência e tecnologia, bem como fortalecer os laços de amizade entre os dois países.
Devido os relevantes serviços prestados ao Município, o cônsul foi homenageado na Câmara Municipal de São Vicente na última quinta-feira (10).
Em visita ao Jornal Vicentino, Sosa conta um pouco da sua história, recheada com diversos trabalhos humanitários pelo mundo, bem como experiências que marcaram sua vida. A seguir, confira a entrevista:
JV - Quais as principais lembranças da infância em Cuba?
Carlos
- Nasci no centro do País, numa cidada chamada Las Villas. Após 1976, após a divisão política administrativa do País, a cidade mudou seu nome para Vila Clara. A infância era muito difícil nessa época, pois só os filhos da burguesia que vivia bem.
JV - Na época de colégio, como era seu desempenho como aluno?
Carlos
- Eu era bom aluno, mas também bagunçava. Em Cuba, todo aluno que é bagunceiro tem um bom rendimento. Meus pais eram chamados toda semana na escola, pois eu dava muita dor de cabeça aos professores (risos). Depois de concluir o Ensino Médio, comecei a fazer o segundo grau, na época da revolução encabeçada por Fidel Castro. Em seguida, lembro que começou a campanha de alfabetização em Cuba. Fidel convocou diversos jovens para ajudar no processo de alfabetização, uma vez que o País contava com 28% de analfabetismo e 58% de analfabetismo funcional. O ensino em Cuba era público, mas o material era muito caro e boa parte da população não tinha condições. Pois bem, me inscrevi e, depois, fui chamado para ir a Sierra Maestra ajudar as pessoas analfabetas. Como era jovem e magro, minha mãe ficou preocupada com a minha saúde, ainda mais pelo fato de eu nunca ter saído de casa. Já meu pai, com seu espírito revolucionário, me incentivava a ir. Essas pessoas analfabetas vivam em situação precária, com um salário equivalente a 120 reais por ano. As aulas aconteciam no período da noite e recordo que alfabetizei oito pessoas e considero uma experiência de grande valia para minha vida.
JV - Você formou-se em Direito na Universidade de Havana. Como surgiu o interesse pela área?
Carlos
- Na verdade, nunca tinha gostado de Direito. Eu gostava de Engenharia e comecei a estudar isso, pois queria ser um engenheiro elétrico. Quando ia começar o segundo ano, fui chamado para estudar diplomacia. Não sabia direito como funcionava esse estudo, mas fui para saber como é. Me saí bem como diplomata e acabei seguindo essa carreira internacional. Certo tempo depois, fui chamado para trabalhar no Ministério de Relações Exteriores de Cuba e, em seguida, comecei a estudar direito. Apesar de não exercer a profissão de advogado devido aos meus trabalhos diplomáticos, a graduação me ajudou bastante na minha formação como pessoa.
JV - Quando foi sua primeira missão diplomática?
Carlos
- Fui para a Inglaterra e o fato de eu falar inglês fluentemente me ajudou bastante. A diplomacia é um trabalho que você prepara o terreno para confraternizações posteriores entre os dois países. Nessa época, lembro que conheci uma senhora, esposa de um político inglês que concorria a um cargo no País. Fiz amizade com ela e, posteriormente, com seu marido. Ele venceu a disputa, foi uma grande festa e fui convidado até para ir à sua casa. Por causa disso, conheci diversas pessoas e, consequentemente, exerci meu trabalho diplomático. Liguei para a Embaixada e disse que já tinha um grupo de pessoas para realizarmos um jantar de confraternização. Perguntaram para mim quantas pessoas eram; respondi que eram 34 e assustei a Embaixada. Eles perguntavam se eu estava maluco (risos). Mas, no final das contas, deu tudo certo.
JV - Posteriormente, o senhor realizou intervenções humanitárias no Canadá. Como foi essa experiência?
Carlos
- Essa experiência foi muito interessante, pois havia pessoas de diversas partes do mundo nesse projeto. Todos tinham consciência do trabalho de implantar a política da paz. Aprendi muita coisa com esse trabalho e pude ainda mostrar a cultura do meu país. Ajudamos muitas pessoas com as intervenções humanitárias. Não demos apenas o peixe, mas também ensinamos a pescar. Nossas opiniões foram muito bem aceitar e no final do curso fui o único professor de um paíse de terceiro mundo homenageado. Enfim, foi muito gratificante.
JV - O senhor também é professor e ministrou aulas em países como Equador e Venezuela. De uma forma geral, como você avalia o potencial do estudante sul-americano?
Carlos
- O estudante sul-americano é muito esperto. Acredito que o sul-americano tem um amor muito grande pelo seu continente e é o único que preserva totalmente a tradição, cultura e religião de 500 anos atrás. Acho que a inteligência do sul-americano vai além dos estudos dos livros, pois acaba entrando no âmbito da paixão pelo que faz, independentemente do que seja.
JV - Dentre todos os trabalhos que o senhor já exerceu, qual te marcou?
Carlos
- Além de Equador e Venezuela, dei aulas sobre diplomacia no Haiti. Me surpreendi bastante com o potencial dos alunos. Muita gente não sabe, mas lá existem pessoas extremamentes inteligentes, com ótima capacidade de aprendizado. Conheço outros diplomatas, inclusive, que falaram do sucesso de diplomatas haitianos que surgiram posteriormente. Creio que esse trabalho no Haiti me marcou bastante devido às surpresas que encontrei.
JV - Como ocorreu a sua vinda para o Brasil?
Carlos
- Nunca imaginei que viria trabalhar nesse país maravilhoso. Eu era especialista em Europa e estava trabalhando com assuntos relacionados a isso pelo Ministério. Voltei da Hungria numa época de diversificação de experiências e acabei recebendo o convite para ser enviado à Venezuela, objetivando atender uma determinada região. Esse plano foi traçado pela manhã, mas, no mesmo dia, acabei sendo informado que o plano havia mudado. Agora, meu destino seria São Paulo, no Brasil. Curiosamente, não sabia como era a cidade e nem o que iria encontrar por aqui. O tamanho do Brasil é surpreendente, muito maior que Cuba. Chegando aqui, percebi que a intensidade de trabalho é muito mais dura que em todos os outros países que visitei. Na verdade, eu não deveria ser surpreendido, pois Cuba leva muito em consideração suas relações com o Brasil. De qualquer forma, adorei conhecer este País.
JV - Quais suas impressões sobre São Vicente? O que lhe chamou atenção na Cidade?
Carlos
- Cheguei ao Brasil em 2004. Depois de chegar com a delegação em São Paulo, vim conhecer São Vicente. Gostei muito da cidade, mas, infelizmente, algumas pessoas maldosas diziam que a vinda do cônsul cubano era para trazer médicos que tomariam o lugar dos médicos vicentinos. Enfim, passado esse boato, começamos a elaborar o processo de irmandade entre as cidades de São Vicente e Holguin. No mundo inteiro existem diversos decretos de irmandade, mas muitos são firmados e, em seguida, colocados na gaveta. Este, diferentemente dos outros, realmente existe e está sendo concretizado.
JV - Você foi homenageado pela Câmara Municipal devido aos serviços prestados à Cidade. Qual a importância desta parceria entre São Vicente e a cidade cubana de Holguin?
Carlos
- As duas cidades são diferentes e, ao mesmo tempo, se completam. Ambas tem potencial turístico. Holguin é a terceira ou quarta cidade de Cuba com mais potencial turístico. Já São Vicente é uma cidade litorânea para turistas e que tem grande experiência nesta área. Creio que nossos irmãos vicentinos tem muito para ensinar aos cubanos. Acredito que essa parceria fomentará diversos investimentos em Cuba, não apenas no turismo, mas principalmente em aspectos sociais. Admiro muito o prefeito de São Vicente, Tercio Garcia, pois vi sua preocupação em investir no aspecto social.
JV - O que existe em Cuba que poderia ser implantado no Brasil?
Carlos
- Os programas de alfabetização de Cuba foram premiados por diversas vezes. Exemplificando, um camponês que não sabe ler e escrever, é alfabetizado em seis semanas. A ideia é unir letras com números, ajudando na escrita e na resolução de contas. Diversos países sul-americanos, como Venezuela, Bolívia e Argentina, já adotaram o sistema cubano de combate ao analfabetismo. Nova Zelândia e Austrália são outros países que também implantaram este sistema. Acredito que esse programa poderia ser adaptado ao tamanho do Brasil e, posteriormente, implantado aqui.

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