Tenente-Coronel Campanaro

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Ambiente militar desde os pri-meiros anos de vida. Esse é Sérgio Jurandir Souto Campanaro, tenente-coronel e atual comandante do 2º Batalhão de Infantaria Leve “Martim Afonso”. Ainda criança frequentava as festas do quartel em que o pai atuava, na cidade de São Gabriel, no Rio Grande do Sul.
Inevitavelmente, tornou-se militar. Aos 15 anos, Campanaro ingressou no colégio militar de Porto Alegre, onde começou sua preparação para a carreira no Exército. E hoje, com apenas 43 anos, já se tornou tenente-coronel, carregando consigo diversas experiências pelo Brasil afora, além de um trabalho em prol da paz no Timor Leste.
Em entrevista ao Jornal Vicentino, o comandante fala sobre sua infância em terras gaúchas, a construção da carreira militar, bem como suas primeiras impressões sobre São Vicente e o batalhão no qual assumiu. A seguir, confira a entrevista na íntegra:
Jornal Vicentino - Onde você nasceu e quais as principais lembranças da sua infância?
Campanaro
- Nasci em São Gabriel, no Rio Grande do Sul. Meu pai era sargento de cavalaria, prestando serviços na minha cidade natal, Rosário e Santa Rosa. Minhas principais lembranças dessa época eram as festas no quartel, que eram churrascos marcados pela corporação. Minha vida sempre foi ligada ao exército. Lembro também de momentos da infância que passei na fazenda da minha tia, que ficava em Ajuricaba, também no Rio Grande do Sul. Lá brincava com pneus de tratores, descia rios, comia frutas que eram plantadas na fazenda, enfim, sempre próximo à natureza. Aos 7 anos me mudei para Porto Alegre, onde as brincadeiras mudaram de cenário, pois eu frequentava mais parques na cidade.
JV - Onde você estudou? E como era seu desempenho na escola?
Campanaro
- Estudei no Cândido Portinari, colégio municipal de Porto Alegre, até a 4ª série. Em seguida, prestei concurso para o colégio militar, estudando lá do 5º ao 8º ano. Após essa etapa, comecei a fazer a preparatória. Sempre fui um aluno regular, não era o melhor da turma, mas tinha um bom desempenho. Eu gostava de bagunçar, é verdade (risos), mas me dedicava aos estudos quando precisava. Nunca fiquei de recuperação e também não repeti de ano.
Jornal Vicentino - Como surgiu o interesse de seguir carreira militar?
Campanaro
- Sem dúvida alguma foi devido a influência paterna. Ele sempre me mostrava fotos da época, pois eu me interessava bastante. Se eu tivesse que escolher minha profissão novamente, seria militar. Sempre procurei a me espelhar no meu pai durante toda minha estadia no exército.
Jornal Vicentino - Qual foi a maior dificuldade dessa escolha?
Campanaro
- Muitos reclamam da distância da família, mas eu não tive problema de adaptação, uma vez que era muito independente. Meus familiares moravam em Porto Alegre e eu só fazia visita nos feriados, porque era a única época que eu podia me deslocar da cidade onde estava instalado. Enfim, a independência da vida militar desde cedo me ajudou muito neste aspecto.
Jornal Vicentino - Antes de chegar ao comando do 2º BIL, quais os locais que o senhor atuou?
Campanaro
- Já rodei o Brasil inteiro. Terminei a academia em 1988 e, depois, fui fazer o curso paraquedista no Rio de Janeiro. Mas, nessa época, eu morava em Curitiba, onde morei por três anos. Voltei ao Rio em 1992 para fazer um curso de Educação Física. No término deste curso, fui designado para compor o batalhão de infantaria motorizada de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul. Fiquei dois anos lá e, em seguida, retornei ao Rio, onde trabalhei na brigada paraquedista. Fiquei lá até 1998, época que mudei para Salvador, onde atuei como instrutor da Escola de Administração do Exército até 2002. Depois, fui designado para uma missão de paz no Timor Leste, quando atuei como observador da Organizações das Nações Unidos. Em 2003 e 2004, trabalhei em Brasília na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Prestei concurso para este emprego e fui aprovado e, mais uma vez, voltei ao Rio de Janeiro. Em terras cariocas, fiquei até o ano de 2009.
Jornal Vicentino - E como surgiu a oportunidade de comandar o batalhão vicentino?
Campanaro
- Na época do Comando, o Exército solicita que os oficiais coloquem as organizações militares em ordem de prioridade. Dentro da especificação de cada oficial, bem como a necessidade de cada exército. Meu perfil se adequava ao batalhão de São Vicente e fui designado para o comando.
Jornal Vicentino - Seu primeiro trabalho fora do Brasil foi em missão de paz no Timor Leste. Qual avaliação dessa experiência?
Campanaro
- Foi uma experiência muito boa, pois convivemos com culturas totalmente diferentes da nossa, bem como atuamos com exércitos de outros países, que também tem suas diferenças em relação ao nosso. Acredito que em missões como essas, os brasileiros tem uma facilidade muito grande de conviver com outros povos. Nosso povo tem o hábito de fazer brincadeiras e criar vínculos de amizade com facilidade, ou seja, nos familiarizamos com rapidez, o que facilitou nosso trabalho no Timor Leste.
Jornal Vicentino - A tragédia no Haiti marcou o 2º BIL. Como foi lidar com essa fatalidade logo no início do seu comando?
Campanaro
- Foi difícil, porque a tragédia aconteceu quando eu estava no Rio de Janeiro, mas em processo de mudança para São Vicente. A todo momento eu conversava com o comandante Vilanova, que era o responsável pelo batalhão na época, onde recebia informações do que acontecia. Vim para São Vicente, fui ao sepultamento e, sem dúvida alguma, foi um momento muito triste. Não conhecia os militares, mas ver os familiares abalados com a dor da perda não é nada agradável. Além disso, eles eram jovens, o que também nos causa bastante tristeza.
Jornal Vicentino - Quais suas principais metas e objetivos a frente do batalhão?
Campanaro
- Quando assumimos um quartel, ficamos na expectativa do que vamos encontrar. Cheguei aqui e me deparei com uma unidade bem preparada, com soldados, cabos e tenentes muito entusiasmados com a missão. O Exército tem um regulamento de todas as atividades que devem ser feitas e acredito que minha principal meta é cumprir todas as regras que estão previstas, preparando e capacitando o 2º BIL, dos militares novos aos antigos. Missão de garantia da lei e ordem e de segurança externa. Já na parte administrativa, quero uma gestão focada em resultados, utilizando ferramentas avançadas para otimizar o nosso trabalho.
Jornal Vicentino - E como você vê a relação da população com o 2º BIL?
Campanaro
- O problema que tivemos no Haiti foi um exemplo da boa relação população-batalhão. Recebemos muitas doações da população, onde podemos ver uma mobilização dos munícipes em ajudar o batalhão na coleta e armazenamento de donativos.
Jornal Vicentino - Já conhecia São Vicente? Agora instalado na cidade, quais suas impressões sobre o município e a Região?
Campanaro
- Conhecia superficialmente, pois tinha vindo à cidade durante um feriado, conhecendo apenas os pontos turísticos. Hoje, instalado no município, percebo que a infraestrutura de São Vicente é muito boa. A sociedade da Baixada Santista te recebe de uma forma muito agradável, porque o vínculo com os militares é, de certa forma, próximo. São Vicente é uma cidade litorânea, mas tem uma estrutura de município de grande porte, com muitas opções de lazer e entretenimento. Outro ponto que me chamou a atenção foi a ótima estrutura oferecida para realizar serviços militares, ou seja, todos locais onde executamos o adestramento dos militares.
Jornal Vicentino - Atualmente, a ampla maioria que presta serviço militar é de forma voluntária. Como você avalia isso?
Campanaro
- A seleção é muito grande e o universo final é, basicamente, formado apenas por voluntários. Logicamente que procuramos aquele que tem interesse em prestar serviços ao exército, além de cidadão capacitado, pois queremos militares qualificados. Vejo esse voluntariado como algo natural nos dias de hoje, sobretudo com características regionalizados. No Nordeste, onde atuei por quatro anos, 100% dos soldados que servem são voluntários. Lá, devido aos problemas financeiros que existem na região, o exército serve como válvula de escape para muitos jovens. Já em São Paulo, por exemplo, a oportunidade de emprego é maior.
De qualquer forma, o Exército é uma instituição que possui muitos valores e forma homens e cidadãos melhores. O meio militar faz o homem dar valor a coisas que não estão impregnadas no seu cotidiano, uma vez que elas vem de mão beijada. Aqui terá que ser mais responsável, varrer chão, cuidar da higiene, ficar uma noite em serviço, enfim, ações que exaltam civismo e patriotismo. E em apenas um ano, já percebemos uma mudança significativa na maturidade do militar.

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