Antonio Sérgio Caiado

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Experiência de vida e muitas histórias para contar. Esse é Antonio Sérgio Caiado de Alencar, o atual comandante da Capitania dos Portos do Estado de São Paulo.
Com uma vida dedicada exclusivamente à Marinha, Caiado não teve muitas dúvidas sobre seu futuro. Natural do Rio de Janeiro e apaixonado pelo mar, o jovem garoto carioca já mostrava intimidade com as águas.
Ainda quando pequeno, ouvia os relatos de seu tio, um oficial da Marinha, sobre as missões a bordo, e imaginava como seria a experiência ao mar. Não teve dúvidas: cursou a Escola Naval e, devido a sua perseverança e força de vontade, tornou-se uma das principais referências do setor. Conheceu o Brasil e o mundo, adquirindo experiências que lhe marcaram por toda vida. A seguir, confira a história de vida do capitão-de-mar-e-guerra:
Jornal Vicentino - Onde o senhor nasceu e quais as principais lembranças da infância?
Capitão Antonio Sergio Caiado
- Eu nasci na capital do Rio de Janeiro e, como bom “carioca da gema”, frequentei praias e escolas de samba. Fui por diversas vezes à Praia da Urca, pois era de fácil acesso. Lembro que eu e mais três ou quatro colegas íamos de ônibus para nos divertir na praia. Frequentei também a Praia de Copacabana por muitas vezes, que é um local muito bonito do Rio. Sempre fui apaixonado por praia e mar.
JV - Onde você estudou e como era seu desempenho escolar?
Caiado
- Cursei no Instituto Nícia Macieira, que é um colégio particular. Sempre fui um aluno que teve próximo à média da sala Não era um dos mais brilhantes, mas sempre me comportei e cumpri com minhas obrigações.
JV - Antes de se tornar capitão-de-mar-e-guerra, exerceu outra profissão?
Caiado
- Ainda na dúvida sobre o meu futuro, fiz um curso de datilografia, além de sete anos de Inglês. Prestei vestibular para Engenharia Eletrônica na federal do Rio, fui aprovado, mas não cheguei a cursar, porque era na mesma época da Escola Naval, na qual prestei para seguir carreira na Marinha.
JV - Como surgiu o interesse pela Marinha do Brasil?
Caiado
- Tinha dois parentes ligados à Marinha. Meu tio era sargento e outro primo também havia ingressado na corporação. Me recordo das histórias de marinheiro que meu tio contava, o que também chamou a atenção. Apesar disso, minha família, de um modo geral, nunca teve muita ligação com questões militares. Além disso, eu morava em cidade litorânea, gostava do mar, e talvez isso possa ter influenciado.
JV - E como foi o início de suas atividades?
Caiado
- Bem, ingressei na Escola Naval em 1978. São quatro anos de curso e, no segundo ano, optei por me especializar na Armada, que trabalha com navios. No terceiro e quarto anos, estudei muitas teorias de navegação, além de geografia e oceanografia. A partir do último ano, participamos do navio-escola, que é a experiência ao mar. Muitos falam do lado romântico da viagem, que é poder conhecer diversos locais do Brasil e o mundo, mas esquecem que trabalhamos muito a bordo. Não posso esconder que conhecer diversas partes do meu país e até do mundo é muito bacana, mas treinamos e estudamos muitos durante esse período. Embarquei em dois navios que fizeram parte da Segunda Guerra Mundial, fator digno de uma ótima experiência, uma vez que a estrutura não é das melhores, o que gera uma vida espartana e, ao mesmo tempo, de muito aprendizado. Esses trabalhos duraram dois anos e meio.
JV - Qual foi sua especialização na Marinha e como chegou até a Capitania dos Portos do Estado de São Paulo?
Caiado
- Me especializei em armamentos na Marinha, quando tinha 26 anos de idade. O curso foi na Ilha das Enxadas, no Rio de Janeiro, local onde fiquei por um ano. Após minha especialização, embarquei para um navio no Piauí, naufrágio onde aprendi a trabalhar com diversos armamentos. Eram navios antigos, mas que ensinavam muito aos tripulantes. E devido a serem embarcações antigas, necessitavam de muita manutenção, o que gerava trabalho para mim, pois havia acabado de fazer minha especialização. Após dois anos, fui indicado para receber a Corveta Inhaúma, que foi o primeiro navio desenhado no Brasil, com cerca de 50% de equipamento nacional. Participei da primeira tripulação e realizei diversos testes nele. Fiquei por oito anos a bordo neste navio, passagem que, sem dúvida alguma, marcou minha vida. Após essa experiência, fui comandar o navio-hospital Oswaldo Cruz, na Amazônia. Essa embarcação era de rio, o que me trouxe um novo aprendizado, que é totalmente diferente das técnicas no mar. Naveguei pelo Rio Amazonas, cheguei à fronteira com o Peru, e exerci um trabalho social à população ribeirinha. Fizemos diversos atendimentos médicos no local e, curiosamente, só a Marinha tem acesso a ele. Não há entradas por ar ou terra, e nossa presença foi muito significativa para todas aquelas pessoas. Em 1999, prestei o concurso de Estado-Maior na Praia Vermelha, voltando assim para o Rio de Janeiro. E esse curso mudou minha visão, pois ele não é técnico como todos outros que fiz, mas de origem administrativa. Ali, aprendi como assessorar a Marinha do Brasil. Fui mandado para trabalhar com a Presidência da República, no segundo governo do Fernando Henrique Cardoso. Fiquei dois anos em Brasília, onde obtive uma nova experiência, trabalhando para o governo federal e atuando em conjunto com outros setores. Em seguida, fui trabalhar como chefe de departamento do navio-escola. Fui aluno e, coincidentemente, me tornei um dos comandantes do curso, agora preparando uma nova turma para integrar a Marinha. Anos depois, me desloquei para Salvador, para ser o subcomandante da base de Aratu. Em área, essa é a nossa maior base naval, com uma alta disponibilidade de cais. Lá é um local muito bonito, onde recebe constantemente a visita de nossos presidentes. Após essa experiência na Bahia, fui para a Argentina, na primeira experiência fora do Brasil. Ingressei na Defesa Nacional da Argentina, onde passei um ano e quatro meses, preparando minha tese de doutorado, que fiz toda em Espanhol. A tese, que foi aprovada, falava sobre a importância da construção naval como instrumento de desenvolvimento, além da aproximação entre Brasil e Argentina no Mercosul. Na volta, retornei para a Bahia, onde passei a ser o chefe do Estado-Maior, trabalho que durou um ano e meio. Depois, finalmente, fui designado para ser o capitão dos Portos de São Paulo.
JV - Quais são os principais desafios da sua função?
Caiado
- Tenho três tarefas básicas como capitão dos Portos que estão muito bem traçadas. Garantirei a segurança do tráfego aquaviário, fazendo com que as embarcações naveguem com tranquilidade, evitando colisões. Melhorarei a salvaguarda marítima, evitando que seres humanos caiam no mar sem preparo algum, além de prevenir que embarcações afundem. Esse trabalho consiste, basicamente, em técnicas preventivas. E a terceira função é evitar a poluição marítima por combustível de embarcações. A poluição de um óleoduto, por exemplo, é problema da Cetesb. O meu caso de combate à poluição é com um possível petroleiro que teve problema de casco e deixou vazar óleo. Além disso, também nos responsabilizamos por fazer inspeções nas embarcações, verificando se tudo está funcionando corretamente.
JV - Você conta com vasta experiência em todo país. Dentre todas as missões, qual mais te marcou?
Caiado
- O comando na Amazônia marcou bastante, pois foi meu primeiro trabalho como comandante. Marcou também por trabalhar em um navio-hospital, prestando serviços para a população ribeirinha, participando de uma ação humanitária. Outro ponto significativo foi poder conhecer o poder da nossa floresta e aprender técnicas de navegações no rio.
JV - Além de atuações em território nacional, o senhor também trabalhou em missões fora do País. Qual o valor deste conhecimento?
Caiado
- Eu viajei muito pela Marinha. Ela me deu a oportunidade de adquirir muita cultura. Na Europa, conheci Itália, França, Grécia e Inglaterra, local que fiquei durante três meses fazendo curso relacionado a mísseis, inclusive. Conheci também os Estados Unidos, onde tive a oportunidade de conhecer a Disney, além de ter me instalado um tempo no Texas. Enfim, não teve um local específico que me marcou. Acredito que todas as viagens internacionais que fiz me marcaram de alguma forma, bem como me proporcionaram um banho de cultura.
JV - Atualmente, como está a preparação dos profissionais marítimos?
Caiado
- A formação do marítimo mercante no país é considerada pela OMI (Organização Marítima Internacional) como a melhor do mundo. Todo investimento que o Brasil fez, tanto com dinheiro próprio como de fundos internacionais, modernizaram a preparação de toda tripulação. Eles contam com simuladores maravilhosos e que não ficam devendo para nenhum outro país. Já a escola naval, a modernização está chegando e, atualmente, a preparação na parte eletrônico está muito avançada em relação a que eu tive.
JV - E a produção de navios brasileiros, ainda está muito aquém do ideal, quando comparado aos países europeus?
Caiado
- Entre as décadas de 70 e 80, tínhamos uma excelente indústria naval, mas, por motivos de crise financeira, as empresas fecharam. Com isso, constataram que era mais viável importar material de fora do país. Hoje, com a vinda do pré-sal e novas políticas governamentais, estamos voltando a crescer novamente neste setor. Não tenho dúvidas que iremos crescer ainda mais, pois já tive acesso, inclusive, a documentos que mostram a evolução que está por vir. Nossa indústria é fenomenal e, quando existe uma vontade, o cenário melhora.
JV - O PAC 2 investirá R$ 1,4 bilhão no Porto de Santos. Como o senhor avalia o futuro do setor marítimo no País?
Caiado
- O futuro da Marinha é bem otimista. Vemos constantemente que as obras estão acontecendo e os investimentos não param de chegar. Não é questão de ufanismo, mas tenho certeza que a área marítima irá evoluir muito nos próximos anos. O único setor que ainda precisa se profissionalizar um pouco melhor é a pesca, pois continua ainda muito artesanal. Mas, de uma maneira geral, só temos bons frutos para colher no setor.

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